Quanto mais a gente ensina, mais aprende o que ensinou

Foi preciso um poeta se meter com música para a figura do letrista ter o destaque devido, no Brasil. Na esteira de Vinicius e de toda revolução pela qual a música brasileira passou nos anos 50 e 60, as letras das canções brasileiras chegaram a um grau de qualidade e sofisticação que ajudaram, em muito, a alçar nosso cancioneiro ao topo da música mundial.

Muito do que se cantou, no Brasil, pelas ruas, protestos, festas, declarações de amor, teve seu destaque, a despeito das belas melodias, por conta do que estava sendo dito.

Eram as palavras de Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Vitor Martins, Fernando Brant, Abel Silva, Luiz Galvão, Torquato Neto, Jose Carlos Capinan, Ronaldo Bastos, e tantos outros, que estavam sendo entoadas, mais até que as melodias, em muitos momentos.

Minha relação com Jorge Portugal remonta à minha infância, quando ele, Roberto Mendes e Raymundo Sodré iam ao apartamento de meus pais, em Botafogo, naquele final dos 70, início dos 80 de “A massa”, “Caribe, calibre, amor”, etc. Jorge sempre que podia, fazia questão de registrar que resolveu escrever depois de ler “Restos”, poesia de meu pai, Ildásio Tavares. Sempre que eu me encontrava com ele, existia um carinho imenso que caminhava paralelo à minha admiração. E é dela que eu queria falar.

O letrista Jorge Portugal está no panteão do cancioneiro brasileiro há tempos. O letrista de “A massa”, em parceria com Sodré, foi um dos detonadores da grande virada na carreira de Maria Bethânia. No momento em que ela resolveu voltar-se a Santo Amaro, o samba de roda, a chula santamarense, os temas ligados à sua cidade natal, foi nas canções de Roberto Mendes e Jorge Portugal que ela encontrou seu leito, para seguir do Subaé para o mundo levando suas raízes, sua cultura e sua tradição. Afinal, ele dizia que: “a minha casa é a Bahia, mas o mundo é meu lugar / eu posso até mudar o mundo, mas não posso me mudar”.

Não bastasse a parceria com Roberto, que entra naquela seleta lista Tom/Vinicius, João/Aldir, Moraes/Galvão, Ivan/Vitor, e por aí vai, Jorge não precisava perder muito tempo com outros parceiros para emplacar clássicos como “Alegria da cidade”, com Lazzo Matumbi, ou “Memórias do mar”, com Vevé Calazans.

Apesar da jovialidade e conservação, Jorge começou tão cedo e tão potente, que não o imaginava tão novo. O coração levar o poeta é uma inversão daquelas mais injustas que podem acontecer. 64 anos era muito pouco, Jorge, pra tudo que eu sei que você ainda poderia produzir de beleza para a música do mundo.

Muitos podem falar do lado dele professor, com o qual não tive contato, do lado apresentador de TV, que nunca acompanhei e que – eis o país em que vivemos – o tornou bem mais famoso aos olhos da maioria. Mas eu posso falar do professor letrista, que me apresentou caminhos para a composição muito especiais. Jorge soube fazer poesia popular, em suas letras. Poucas letras suas teriam vida como poesia lida, mesmo com tanta poesia das mais bonitas da história da nossa canção. E isso é um mérito. Sua letra era viva, música, palavra a ser cantada.

Há muitos exemplos de canções que, pelo seu caráter aparentemente ligeiro, acabam por deixar passar, aos nossos ouvidos, a beleza de suas letras. Não eram poucas as vezes em que, cantando uma de suas chulas com Roberto, eu tropeçava em algum verso incrível, alguma solução poética, uma imagem de beleza ímpar.

Mas foi com Sodré que ele aprontou uma imbatível: “Moinho de homens que nem jerimuns amassados / mansos meninos domados / massa de medos iguais”, depois de ter dito que “a dor da gente é dor de menino acanhado / menino bezerro pisado / no curral do mundo a penar”. E foi com Lazzo que Jorge deixou um verso aparentemente simples, mas de uma força sem igual, falando da negritude: “Eu sou parte de você mesmo que você me negue / na beleza do afoxé ou no balanço do reggae”.

Jorge já é parte da gente. Mais 64 anos, 64 décadas se passarão, e ainda serão parte da gente suas palavras dançando nas melodias de Roberto, Sodré, Lazzo, Vevé e tantos outros parceiros.
“Quanto mais a gente ensina, mais aprende o que ensinou”, ele dizia. 

E a gente vai ficar de cá, continuado sempre a aprender com seus ensinamentos, e tentando ensinar um pouco para aprender ainda mais, com os olhos no legado de Jorge.

Porque se foi um mestre da canção.

“Que pena que a vida é pequena para tanto amor”.

Texto originalmente publicado no Facebook e replicado com autorização do autor

Fonte: Correio