'Uma sensibilidade típica do Recôncavo', diz Caetano sobre Jorge Portugal

Santoamarense, Jorge Portugal levou suas raízes do Recôncavo durante toda a vida. O professor, compositor e letrista recebeu uma homenagem do vizinho Caetano Veloso, na noite dessa segunda-feira (3). 

Em um post no Instagram, Caetano ressaltou as raízes. “Uma mente e uma sensibilidade típica do Recôncavo. Tenho orgulho dele. Estamos todos com saudade do seu papo e das suas ideias”, escreveu na legenda da foto.

O compositor Roberto Mendes, que também foi parceiro de Portugal, fez sua homenagem com um trecho da música A Vila do Adeus. “Apenas o silêncio e o som de Deus”, escreveu.

‘Brilhante’
Muito mais do que um grande mestre baiano, Portugal era também um exímio compositor e poeta, como ressaltou o amigo e parceiro de trabalho Raimundo Sodré, em entrevista ao CORREIO. “Eu penso em Jorge Portugal sempre como um grande compositor. É mais um grande compositor santoamarense. Era muito bom mesmo. Ele fez musicas pra Lazzo (Matumbi) e para muitos outros artistas, como Maria Bethânia. Ele tinha um estilo de compor impressionante. Era um rapaz muito inteirado com a política, com a literatura e com a cultura. Além de um grande educador. Muita gente aprendeu português com Jorge Portgual”, pontua o amigo.

Ele conheceu Portugal em 1974, quando foi morar com o pai na cidade de Santo Amaro da Purificação e entrou para o grupo Sangue e Raça. Lá, conheceu também o músico e compositor Roberto Mendes, outro grande parceiro de Jorge Portugal. Era uma turma muito animada. “Todas as férias eu ia pra lá. Eu, Roberto Mendes e Jorge Portugal, a gente sempre se encontrava e fez um trabalho muito legal a partir de 1975. A Massa é fruto disso. É uma música bem de resistência, que escrevemos durante a Ditadura. Eu fui o porta-voz de de várias letras que são atemporais”, lembra Sodré.

Dentre as lembranças com o educador e professor baiano, ele revela que, aos 14 anos, Jorge Portugal foi chamado na Polícia Federal após participar de um festival no colégio. Também guarda outras lembranças com o amigo. “Temos uma infinidade de músicas juntos. Portugal era uma figura como ninguém. Debaixo do Céu mesmo eu cantei o refrão pra ele no telefone e 15 minutos depois ele me ligou com a letra”, recorda.

“Era uma figura brilhante. Qualquer dúvida que eu tinha eu tirava com Jorge. Mesmo distantes fisicamente, não deixávamos de nos falar. Ele era antenado, faalava de tudo. Tinha um olhar pra vida muito diferente e cheio de humor”, resume Raimundo Sodré.

O músico destaca que Portugal era uma pessoa muito pensante e ansiosa. “Pra enfrentar o ser humano hoje em dia tem que ter o sangue de barata. E os percalços da vida atacam o coração. Cansa lutar por uma educação e uma cultura que as pessoas não acreditam”, lamenta.

A Massa 
Juntos, eles acabaram chegando nos quatro cantos do mundo por conta da música A Massa (1980), composição de Sodré e Portugal que foi apresentada pelo próprio Raimundo no Festival da Nova MPB 80, da Globo. “Essa música pintou na minha vida com o refrão. Eu estava vendo um programa de televisão em 1976 e o pessoal já estava protestando. Eu eu falei pra minha namorada na época. Em 1977, eu estava cochilando em um pé de cajueiro e me veio o refrão com a melodia. Gravei em uma fita e levei pra ele. Quando foi de tarde ele me deu a letra. A musica me tirou da miséria e me jogou no mundo. A música A Massa atravessou fronteiras e ficou pra eternidade. Falou tudo o que a gente sente até hoje”, acredita.

Fonte: Correio