Live de Caetano foi um momento de sossego no caos de tudo

Acompanhei a saga da live – a lenda! com certa descrença mas muita ansiedade. Uma live de Caetano seria – para mim, fã – uma possibilidade de sossego no caos de tudo. Isso eu já sabia. Mas quando o assunto é a música de Caetano, a nossa expectativa, por maior que seja, é sempre mais pobre do que a realidade que ele traz como um banho de beleza.  A única live do artista teve um motivo especial: registrou a celebração pelo aniversário de 78 anos do músico baiano.

Os clássicos da carreira marcaram a base em que o show foi construído, mas cederam, gentis, espaço para canções menos presentes no repertório das últimas apresentações do artista. Pardo, composta pelo baiano e gravada por Céu no mais recente disco dela, APKA, ganhou pela primeira vez a versão na voz do seu autor. Em seu Instagram, ela postou a imagem de quando pediu, por e-mail, uma música dele para o novo álbum. 

O Homem Velho, também no setlist, me chega com novo significado e vejo nela a referência ao homem e ao artista: as coisas migram e ele serve de farol. Nú com a minha música, Diamante Verdadeiro – feita para Bethânia e também gravada por ele no Pipoca Moderna – e Nine Out Of Ten – do Transa, resgatada nas turnês Abraçaço e Dois Amigos, Um Século de Música – também foram escolhas felizes da Live. Mas quando o assunto é a música de Caetano, qual escolha não seria feliz? O que vier é lucro, é luxo, é vantagem e necessário.  

A Bahia – estação primeira do Brasil citada em Onde o Rio é Mais Baiano, do Livro – esteve presente, e não haveria de ser diferente. Seja na lembrança da beleza do Balé Folclórico da Bahia e no pedido de apoio para a vaquinha online realizada para ajudar a enfrentar uma situação financeira delicada, seja em Recônvexo ou Trilhos Urbanos que exaltam a influência do Recôncavo na obra do santamarense: a Bahia onipresentemente de Vaca Profana estava lá.

Na sala, na presença dos filhos, encerrando a live ao som de How Beautiful Could a Being Be com Moreno Veloso fazendo um samba no prato, Caetano me faz pensar no Brasil múltiplo, no Brasil de Falou, Amizade, mais que divino, no Brasil possível, no Brasil necessário, no Brasil urgente, que tem Caetano, que tem o samba, que tem o Recôncavo da Bahia que aponta as possibilidades gigantes do que o Brasil pode e deve ser. 

Terminei e fui ouvir Sete Mil Vezes – que não estava no repertório da live mas está no meu: quando uma hora é grande e bonita assim quer se multiplicar.

Texto originalmente publicado no Facebook

Fonte: Correio