‘Estava dormindo e acordei soterrada’, conta sobrevivente da tragédia do Barro Branco

A entrega do novo conjunto habitacional na comunidade do Barro Branco, no Alto do Peru, em Salvador, reativou as memórias de quem viveu os horrores daquela segunda-feira chuvosa. A balconista Carla Verônica dos Santos, 28 anos, foi receber o imóvel em um evento organizado pela prefeitura, neta terça-feira (11), e aproveitou para voltar ao local exato em que a casa dela ficava. Era um sobrado com três pavimentos.

“No térreo, moravam minha avó e meu primo. No primeiro andar, meu pai, minha mãe e minha irmã. E eu e meu marido morávamos no 2º andar. No dia do deslizamento, meu marido estava trabalhando e eu tinha uma consulta marcada para fazer uma ultrassonografia porque estava grávida de dois meses. Eu ainda estava dormindo quando o barranco cedeu. Quando eu acordei, já estava soterrada pelos escombros. Foi desesperador”, disse.

Carla contou que ficou soterrada da cintura para baixo. Ela quebrou um braço e teve várias escoriações. Como a casa dela ficava no pé do morro foi uma das mais atingidas e o socorro levou quase 2h para chegar. “Quem me socorreu foram os moradores porque, como estava chovendo bastante, a cidade estava toda travada. Ambulâncias e bombeiros tiveram dificuldade para chegar”, afirmou.

Bombeiros e moradores fazem os resgates (Foto: Mauro Akin Nassor/ Arquivo CORREIO)

A jovem foi levada para a casa de um vizinho ao lado da tragédia, de onde viu o corpo da mãe. Ela contou que conseguia ouvir os gritos de socorro do primo que ainda estava preso nos escombros, sabia que o pai tinha sido socorrido com vida, mas não tinha notícias da irmã e da avó. Ferida, Carla foi levada às pressas para o posto de saúde.

“Eu estava muito atordoada. Não conseguia raciocinar direito. Eu sabia que havia alguma coisa errada com meu braço, mas como não tive fratura exposta, não entendia que ele estava quebrado. Como eu estava grávida eles [equipe de saúde do posto] me deram prioridade no atendimento. E foi só quando eu ouvi o barulho do coraçãozinho da minha filha que eu despertei, e entendi o que estava acontecendo”, contou.

Ela foi transferida para um hospital onde passou por mais exames e precisou fazer uma cirurgia. Carla apresentou sangramentos na gravidez e não teve condições de ir ao enterro dos corpos da mãe, da irmã, da avó e do primo, mas encontrou uma forma de fazer uma homenagem. “O nome da minha filha é Cássia Vitória, o mesmo nome da minha irmã”, disse.

Casas foram soterradas pela avalanche de lama (Foto: Mauro Akin Nassor/ Arquivo CORREIO)

Carla mudou de bairro depois do deslizamento, mas sentia falta do restante da família e dos vizinhos heróis que a ajudaram. Acabou retornando para o Barro Branco anos depois. “Eu queria voltar. Pedi para meu tio arrumar uma casa de aluguel por aqui e voltei, mas agora vou ter a minha própria casa. Isso não tem preço”, afirmou.

A história de Carla foi uma das dezenas de depoimentos que o CORREIO apurou nos dias seguidos de cobertura jornalística no local. Na época, os detalhes dessa tragédia familiar foram contados pelo pai de Carla, o técnico de instalações Carlos Augusto dos Santos, hoje com 54 anos. A equipe do CORREIO encontrou Carlos Augusto logo após ele receber os primeiros socorros.

O deslizamento do Barro Branco deixou nove mortos e dezenas de desabrigados. No local onde houve a tragédia foi construído um conjunto habitacional com quatro prédios e 120 apartamentos. São 60 unidades para os moradores que viviam na região e foram atingidos, e 60 para pessoas que moravam em outras áreas de risco de Salvador.

Conjunto Habitacional entregue pela prefeitura (Foto: Gil Santos/ CORREIO)

Infraestrutura
O conjunto habitacional construído pelo município tem uma área de 16 mil m², onde também foi realizada a obra de contenção. O projeto desenvolvido pela Secretaria Municipal de Infraestrutura e Obras Públicas (Seinfra) contempla não só moradias, mas um ambiente de reurbanização integrada composto por quatro torres habitacionais e diversos equipamentos de lazer. O investimento da prefeitura foi de R$ 12,6 milhões.

São 120 apartamentos, sendo 30 em cada uma das quatro torres. Os prédios receberam nomes de flores: Açucena, Cerejeira, Lotus e Narciso, marcando assim a renovação e a nova fase de vida que se inicia para os moradores. Cada apartamento dispõe de dois quartos, sala, cozinha, área de serviço e sanitário. Segundo a prefeitura, os cômodos atendem aos critérios básicos de moradia, acessibilidade, e de recomendações técnicas.

Local recebeu nova infraestrutura (Foto: Gil Santos/ CORREIO)

A Vila Barro Branco tem também parque infantil, academia de ginástica ao ar livre, quadra poliesportiva, espaço de jogos, pista de cooper, quiosque, espaços de convivência e para plantio de horta comunitária, além de estacionamento. Toda a área conta com pavimentação, acessibilidade, saneamento, mobiliário urbano e paisagismo. O local recebeu itens de sustentabilidade, como energia solar e coleta seletiva.

Fonte: Correio