De onde vem os bebês?

Tal questionamento sobre como bebês vêm ao mundo pode causar desconforto e apreensão a pais e responsáveis. Esta pergunta, recorrente entre crianças, tem diversas respostas. Uma das mais interessantes envolve cegonhas brancas (Ciconia ciconia) trazendo bebês no bico de um lençol para alegria de papais e mamães. O que poucos sabem é que tal questão apresenta profundo cunho matemático.

O mito das cegonhas existe há muito tempo. No Egito antigo, a alma era geralmente simbolizada por uma cegonha. Já na Grécia as cegonhas eram sagradas por causa de Hera, a deusa protetora das gestantes e lactantes. A fábula de que cegonhas trazem bebês parece ter se originado no norte da Europa há alguns séculos, e foi imortalizada no conto As Cegonhas (Storkene, de 1839) do escritor e poeta dinamarquês Hans Christian Andersen (1805 – 1875).

Cegonhas são pássaros migratórios que costumam cruzar a Europa em grandes levas. Ao se acasalarem, em geral buscam lugares protegidos e quentinhos, como telhados e chaminés de residências. Casas grandes podem representar famílias enormes, e qualquer um poderia concluir sobre a possibilidade de associação entre famílias, cegonhas e bebês. Dito de outra maneira, qualquer pessoa poderia fazer estimativas de quantas crianças nasceram em uma família apenas contando os ninhos ou mesmo o número de cegonhas no telhado de casas do norte europeu.

O engenheiro civil dinamarquês Lars Christian Pallesen (n. 1947) fez um levantamento do número de cegonhas e nascimento de bebês na cidade alemã de Oldenburg entre os anos 1930 e 1936. Repassou estes dados enquanto efetuava seus estudos de mestrado e doutorado em estatística na Universidade de Wisconsin-Madison na década de 1970. O resultado foi publicado no conhecido livro Statistics for Experimenters (algo como Estatística para Investigadores) dos estatísticos George Edward Pelham Box (1919 – 2013, britânico), John Stuart Hunter (n. 1923, americano) e William Gordon Hunter (1937 – 1986, americano) em 1978. Todos trabalhavam e/ou lecionavam naquela universidade. O que há de curioso nos dados é que realmente foi observado um aumento no número de cegonhas no mesmo período em que a população aumentou.

Em termos estatísticos, pode-se apenas afirmar que existe uma correlação positiva entre o número de cegonhas e a população da cidade de Oldenburg. A população aumentou devido ao nascimento de bebês ano a ano, ao mesmo tempo que coincidentemente cresceu o número de cegonhas. No entanto, esta associação não prova que um tenha causado o outro. Ainda assim, boa parte das teorias de conspiração, argumentos negacionistas e notícias fraudulentas (fake news) são embasadas em falácias que envolvem correlações espúrias. Uma associação entre dois fatores não prova que um tenha causado o outro. Dito de outro modo, não é porque apenas existam coincidências que se pode provar algo.

Nem sempre é fácil identificar falhas nas suposições de causalidade, principalmente quando parece fazer muito sentido ou ainda quando agrada um preceito popular. Meras coincidências podem ocorrer, como no caso de cegonhas e bebês, pois não é possível supor que o aumento no número de cegonhas causou o aumento de uma população. Neste caso particular, a correlação entre cegonhas e bebês ocorre simplesmente porque cada um destes fatores está associado a um terceiro fator: o tempo, que de acordo com o músico, produtor, arranjador, escritor e poeta brasileiro Caetano Emanuel Viana Teles Veloso (n. 1942), é um “compositor de destinos”.

Marcio Luis Ferreira Nascimento é professor da Escola Politécnica, Departamento de Engenharia Química e do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA

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Fonte: Correio