10 pérolas do cinema baiano que você pode ver (ou rir) de graça

Diz aí: a quarentena te trouxe saudade de se sentir baiana ou baiano? Tudo bem, é completamente aceitável que a gente, depois de tantos meses em casa, sinta aquele comichão de sair por aí abraçando todos os nossos estereótipos.

Botar uma camisa do Olodum, bater pena no Pelourinho, comer um acarajé de frente pro mar, ver o pôr do sol na Cidade Baixa, levantar os braços na coreografia cantando “êêê faraó”. Dá vontade? Dá. Mas ainda não pode.

Como a gente já tratou aqui no CORREIO, tem saudades que a gente só consegue sentir de Salvador. Coisas bem pessoais mesmo, menos dignas de estereótipo, e que te trazem sentido de viver na capital baiana.

Mas se sua pegada nesse momento é mesmo querer exercitar um pouco aquele lado ‘baiano de novela e de filme’, o ideal é segurar um pouco a onda e descontar – onde mais? – no cinema.

A produção cinematográfica baiana é uma das mais ricas do Brasil, com filmes dos mais elaborados e cultos – altamente reconhecidos pela crítica, por sinal – até aqueles mais engraçados, sucessos de público. Tem espaço até pra clássico ‘trash’.

Alguns filmes podem ser vistos de graça no YouTube ou em outras plataformas de streaming. Abaixo, listamos 10 produções para você se sentir bem ‘baiano de cinema’:

1) Cinderela Baiana (1998)

Por que não começar essa lista por um clássico involuntariamente ‘trash’? Cinderela Baiana conta a história – com níveis altíssimos de ficção – de Carla Perez, que àquela época era uma das maiores estrelas do país, dançarina do grupo É O Tchan.

O filme traz participações momeráveis de Alexandre Pires, que na época era namorado de Carla Perez, além de estrelas do Axé Music dos anos 1990 como Netinho e Cátia Guimma. Mas tem coisa boa, também: foi a primeira atuação em cinema do ator Lázaro Ramos.

A produção foi um fracasso, mas tornou-se um clássico da internet anos depois graças ao YouTube, onde está disponível na íntegra:

2) Ó Paí, Ó (2007)

Ultrapassada a parte obscura e trash do cinema baiano, vamos falar de sucesso instantâneo. Ó Paí, Ó é um clássico que desperta em qualquer um a vontade de bater perna no Pelourinho, mas não de uma maneira para turista ver. É o Pelourinho raiz, com sotaque, cor, gírias, um ‘suco’ de Salvador.

O filme é certeiro por ter sido produzido por quem escreve a cultura baiana. Os atores Lázaro Ramos e Wagner Moura são os protagonistas, com elenco do Bando de Teatro Olodum. Direção de Monique Gardenberg e roteiro de Márcio Meirelles. Trilha sonora de Caetano Veloso.

Mesmo que você já tenha assistido – o que é bem provável -, veja o filme de novo. Em tempos de saudade, é uma delícia tomar esse banho de Bahia.

3) A Luta do Século (2016)

Salvador e a Bahia têm uma estrela do esporte e da cultura popular. Seu nome é Reginaldo Andrade, mas seu nome de guerra é Holyfield. O ídolo do boxe baiano dos anos 1990 e personagem icônico tem um documentário para chamar de seu, dirigido pelo cineasta baiano Sérgio Machado.

O longa-metragem narra a história da maior rivalidade do boxe brasileiro, entre Holyfield e o pernambucano Luciano ‘Todo Duro’ Torres, com lutas memoráveis, provocações hilárias, quebra-pau em praça pública e, acima de tudo, sucesso de público. Como cenário, a última revanche entre eles, ocorrida em 2015, quando os pugilistas já tinham 50 anos.

Acima de tudo, o documentário conta a história de dois guerreiros da vida, que ao tentarem sobreviver às adversidades impostas pela condição social em que nasceram, conseguiram colocar seus nomes na cultura popular do Nordeste.

4) Quincas Berro d’Água (2010)

Baseado no clássico de Jorge Amado, o filme do diretor baiano Sérgio Machado é uma deliciosa combinação entre comédia e baianidade. Conta a história de Quincas, funcionário público que larga a vida bem ‘meeira’ que levava e cai na farra de Salvador.

A farra acaba levando Quincas à morte, mas seus amigos de bebedeira rebocam ele – nesse caso, literalmente – para a última noite da capital baiana. Filme bom demais para revisitar alguns lugares que até hoje fazem parte da boêmia baiana do Centro Histórico.

O filme está disponível no YouTube. Mas, lembre-se: nada substitui a leitura deliciosa de Jorge Amado.

5) Capitães da Areia (2011)

Mais uma delícia de filme baseado na obra de Jorge Amado. Nesse caso, o longa é dirigido pela neta do escritor, Cecília Amado, e foi produzido no contexto do centenário do mestre baiano.

O filme conta a história de um grupo de meninos abandonados que habitam um trapiche na Cidade Baixa de Salvador na década de 30. Para sobreviver, os garotos realizam pequenos delitos pela capital baiana.

A vida do grupo muda radicalmente quando aparece uma menina abandonada, Dora, que torna-se a paixão de Pedro Bala, líder do grupo.

6) Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976)

Para fechar o trio de filmes baseados em clássicos de Jorge Amado, nada melhor que Dona Flor e Seus Dois Maridos. Por incríveis 34 anos, foi a produção brasileira de maior sucesso de público, levando mais de 10 milhões de pessoas aos cinemas. E repare bem: foi lançado em 1976!

A comédia dirigida pelo carioca Bruno Barreto tem um elenco de peso na dramaturgia nacional: Sônia Braga é a protagonista, com seus dois maridos José Wilker e Mauro Mendonça. Conta a história de Dona Flor, que fica viúva no Carnaval de 1943, casa-se de novo, mas vê o ex-marido em espírito.

O filme já foi adaptado para minissérie da Globo e teve uma nova versão em 2017, mas nada supera o original.

7) O Pagador de Promessas (1962)

Quando se junta esses dois termos: “clássico” + “cinema brasileiro”, só pode aparecer um resultado. O Pagador de Promessas é considerado um dos filmes mais importantes da história brasileira, se não for o mais importante. O único a conquistar a Palma de Ouro em Cannes.

O clássico se passa na Bahia, e conta a história de Zé do Burro, pequeno agricultor que faz uma promessa à uma Mãe de Santo para que seu burro não morresse: ele carregaria uma cruz da sua cidadezinha até a Igreja de Santa Bárbara, em Salvador.

O filme traz o brilhante Leonardo Villar como protagonista, que faleceu no último dia 3 de julho em decorrência de uma parada cardíaca.

8) Barravento (1962)

Seria possível fazer uma lista de filmes baianos sem citar Glauber Rocha? Barravento foi o primeiro longa-metragem do cineasta, e conta a história de Firmino, ex-pescador que retorna para sua aldeia após viver anos em Salvador e tenta livrar seu povo das amarras religiosas.

O filme é todo gravado na Praia de Buraquinho, em Itapuã, que na época era de fato uma vila de pescadores, bem distante da realidade atual do bairro. Esse choque cultural para quem vive em Salvador e frequenta o lugar é um dos inúmeros atrativos da obra.

O filme é estrelado pelo ator baiano Antônio Pitanga e é um mergulho nas religiões de matrizes africanas. Um dossiê da nossa cultura.

9) Trampolim do Forte (2013)

Esse é um filme que bate duas vezes mais forte no coração de quem é baiano, porque traz uma experiência muito típica da nossa capital: curtir a praia do Porto da Barra, saltando do ‘trampolim’ que fica ao lado do forte e nadar até os barquinhos distantes.

Mas, obviamente, não é só isso. A obra do baiano João Rodrigo Mattos conta a história de dois meninos pobres que ajudam a pagar as contas de casa vendendo picolé na praia. Nessa luta diária, eles passeiam por outros pontos da capital baiana que fazem muita falta.

Uma obra deliciosa do cinema contemporâneo e de linguagem 100% baiana.

10) Jardim das Folhas Sagradas (2011)

Dirigido e escrito pelo cineasta baiano Pola Ribeiro, o longa-metragem conta a história de Bonfim, bancário bem sucedido que recebe dos orixás a missão de abrir um terreiro de Candomblé na Salvador contemporânea.

A história mostra o preconceito sofrido pelos negros e pelas religiões de matrizes africanas, além das dificuldades impostas pela especulação imobiliária numa cidade que apresentava crescimento vertiginoso nesse segmento.

É um retrato bem cru de Salvador, mas também um relato de esperança e de aceitação.

Fonte: Correio