Colégio particular de Salvador está pronto para retomar aulas, diz infectologista

A pandemia do novo coronavírus não permite que as escolas sejam as mesmas de sempre. Salas de aula lotadas, prática de esportes coletivos nas quadras e até bebedouros com sistemas de torneira com jato de água, aqueles cuja ingestão é realizada diretamente com a boca do usuário, estão fora de cogitação. Para crianças e adolescentes voltarem a estudar presencialmente, o jeito é se adaptar.  

Em Salvador, o Villa Campus de Educação saiu na frente com o desenvolvimento de uma série de recomendações que estão presentes num protocolo interno de segurança e higienização. Para a elaboração das medidas, a escola particular localizada na Avenida Paralela contratou o médico infectologista Roberto Badaró, que também é diretor do Hospital Espanhol, unidade de saúde exclusiva para atender doentes da covid-19.  

“O Villa está preparado para voltar às aulas amanhã. Estamos há mais de dois meses implantando todas as medidas. Criamos um programa de nível internacional e com altos investimentos”, afirmou o especialista.  

Badaró definiu três pilares para o retorno de qualquer escola: “Modificações individuais, ensinando cada pai, aluno e colaborador em como proceder; modificações públicas, nos espaços de convivência e sala de aula; e, modificações estruturais na própria escola”, disse. Acompanhado do diretor Rubens Dória, o CORREIO conferiu de perto essas mudanças que vão afetar a vida de cerca de 1,2 mil alunos e 300 colaboradores do Villa.

As novas medidas adotadas estão estampadas logo na chegada à instituição de ensino. As seis portas principais foram divididas em quatro fluxos de entrada e dois de saída. Os alunos do ensino infantil, que geralmente estão na faixa de um a cinco anos de idade, terão uma entrada e saída exclusivas, para não se misturarem com os mais velhos. Na garagem e na entrada principal, novos lavatórios foram instalados.  

Ao adentrar o colégio, tapetes sanitizantes e dispenses de álcool em gel serão encontrados. Logo em seguida, a temperatura do aluno será medida. Se ela estiver maior do que será estabelecido no protocolo municipal de reabertura das instituições de ensino ou se a criança apresentar qualquer sintoma gripal, será levada a um espaço reservado, aberto e ventilado, onde aguardará a chegada de um responsável.  

Para passar nas catracas, basta os estudantes apresentarem o cartão de acesso e o aproximarem no guichê de identificação, sem precisar tocar o local. Nas salas de aula, além das cadeiras e mesas já estarem devidamente distanciadas, equipamentos tecnológicos como microfone, tablets e câmeras permitirão o ensino online simultaneamente. Se os pais não optarem pelo retorno dos filhos, as aulas continuarão em casa, como já tem sido feito atualmente.   

Modelo 
Criado em 2002 como Colégio Villa Lobos, o Villa Campus Educação teve em 2020 o ano de maior desafio educacional, devido à pandemia do novo coronavírus. “Logo no final de março e início de abril, escrevemos um plano de ensino não presencial. Agora, desenvolvemos um plano de tecnologia educacional para que o ensino possa continuar de maneira híbrida. Fizemos um investimento muito alto. O valor a gente não divulga”, disse a CEO da instituição, Viviane Brito. 

Na sexta-feira (14), o decreto estadual que proíbe aulas em toda a Bahia foi prorrogado até 30 de agosto. Em entrevista exclusiva ao CORREIO realizada na quarta-feira (12), o secretário de Saúde Fábio Vilas-Boas informou que o retorno das aulas no estado deve acontecer a partir do próximo mês. “Se não for em setembro, será em outubro”, disse, na ocasião.  

Mesmo sem essa data confirmada, o Villa diz estar pronto para o retorno. Essa precocidade fez a instituição ser uma das que mais colaborou na construção do protocolo geral do Grupo de Valorização da Educação (GVE), que reúne 62 escolas particulares baianas. Ainda em agosto, Viviane realizou uma palestra para outras escolas particulares para ensinar a experiência da sua instituição. O Villa virou modelo.   

“O meu real desejo é que a Bahia seja um modelo nacional de retorno, cumprindo com segurança todas as medidas necessárias. Não cabe a gente pressionar os órgãos para voltar o ensino presencial e sim nos prepararmos para acolher os nossos alunos e famílias, seja agora ou quando as autoridades, ao lado dos órgãos de saúde, determinarem que podem voltar”, afirmou a CEO. 

O líder do GVE explicou que as demais escolas particulares estão montando seus protocolos específicos. “Quem não tiver fazendo isso, está dormindo no ponto. Algumas já tem todo o material necessário em mão e só esperam um melhor momento para implantar. Outras já estão com o material encomendado e outras ainda em pesquisa de custo. Mas todas devem estar prontas quando estivermos mais próximos do retorno”, disse Francisco Mendonça, mais conhecido como Pissica, que também é dono do colégio Módulo Criarte, no Caminho das Árvores.      

Os colégios Oficina, Perfil e Isba são alguns dos que estão nesse processo de construção das medidas aplicadas à sua realidade, através da orientação de especialistas contratados ou que já fazem parte das instituições. “Não sabemos quando vamos voltar, mas temos que nos preparar para que não sejamos pegos desprevenidos. Muitas mudanças serão feitas nas escolas de forma geral”, explicou a diretora do Oficina, Márcia Khalid.  

Para o infectologista Roberto Badaró, o que a sociedade deve avaliar não é qual a possível data de retorno e sim se os colégios estão preparados para isso. “Temos que analisar as condições da escola. Infelizmente, as escolas públicas devem ser as últimas a voltar, pois é muito investimento envolvido para aplicar as medidas de segurança. Mas elas sendo aplicadas e seguidas à risca, o risco de contaminação diminui”, disse.  

Confira algumas das medidas adotadas pelo Villa Campus Educação:  

1. Novos fluxos de entrada e saída  

2. Lavatórios extras  

3. Tapetes sanitizantes  

4. Entrada da escola separada por segmento  

5. Tapetes sanitizantes  

6. Dispensers de álcool em gel  

7. Espaço reservado para as pessoas que apresentarem temperatura acima da permitida pelos órgãos de saúde, tosse, espirro ou qualquer outro sintoma de gripe  

8. Salas com sistema de renovação de ar e equipadas com equipamentos de ponta que permitirão ensino on-line simultaneamente

9. Lixeiras para descarte de máscaras e luvas por toda a escola  

10. Delimitação de espaço nos elevadores: de 20 para cinco presentes. 

11. Divisão das escadas entre as que só são permitidas subidas e as que só são permitidas descidas.   

12. Realização de atividades físicas e brincadeiras que não resultem em aglomerações.  

13. Aplicação de acrílico nas mesas do refeitório e da biblioteca para distanciar os alunos.  

14. Marcações no chão da escola para orientar o fluxo.  

15. Desativação dos bebedouros com ingestão de água realizada diretamente com a boca do usuário. Só funciona a torneira de encher a garrafa de uso individual.  

16. Implantação do ensino híbrido (à distância e presencial), com revezamento dos alunos das turmas para que não haja mais pessoas em sala de aula do que o estabelecido. 

17. Retirada dos brinquedos que possuem mais contato com superfícies, como o totó.  

18. Estabelecimento de horários diferentes para o início e términos das aulas e dos intervalos, para que não haja aglomerações.  

19. Venda de lanches e de refeições conforme os protocolos para lanchonetes e restaurantes.  

20. Compra de equipamentos de proteção individual (EPIs) para todos os colaboradores.  

*Sob orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

Fonte: Correio