Médico que interrompeu gravidez de menina estuprada comenta protestos: ‘Hipocrisia’

'País da hipocrisia', diz médico que interrompeu gravidez de menina estuprada sobre protestos

Foto: Reprodução/GloboNews

Cumprindo medida judicial do estado do Espírito Santo para interromper a gestação de uma menina de 10 anos que foi estuprada pelo tio, o médico Olímpio Barbosa de Moraes Filho lamentou os protestos contra o procedimento, ocorrido neste domingo (16), e contra o qual se colocaram grupos religiosos pró-vida.

Em entrevista à BandNews, o profissional comentou que sua reação aos movimentos “foi de tristeza”. “Pessoas que defendem a vida chamando a criança de assassina, querendo fazer justiça dessa forma, logo em uma maternidade que acolhe mulheres em risco, fazendo barulho em um hospital com 104 mulheres internadas. Nunca passei por nada parecido”, declarou o médico.

Segundo Olímpio Barbosa, são realizados cerca de 50 procedimentos relacionados ao estupro por ano no Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam-UPE), em Pernambuco, onde a criança capixaba foi atendida. Ainda de acordo com o médico, é comum meninas de 11 a 12 anos procurarem assistência médica para uma gravidez vinda de uma violência sexual.

“Se nós não fizéssemos nada, o Estado brasileiro estaria conivente com a dor e a violência. O mais importante é que ela não queria, foi torturada, obrigar uma criança a ter uma gravidez forçada é um absurdo”, observou.

O médico gestor do Cisam-UPE afirmou ainda que o caso da menina de 10 anos é raro, por não ser comum uma criança desta idade ovular e possibilitar uma gravidez, e disse que, se a gestação não fosse interrompida, provavelmente ela teria complicações por não ter um corpo desenvolvido.

O Cisam-UPE é referência no tipo de procedimento e de acolhimento às vítimas, e para Olímpio há uma “hipocrisia” no assunto de interromper gestações vindas de estupros.

“A classe alta procura o aborto com maior frequência do que a classe desfavorecida. O Brasil é o país da hipocrisia. A defesa da vida é uma falácia. Se consideram que o embrião tem vida, deveriam estar nas portas das clínicas de reprodução humana, que descartam milhares de embriões”, pontuou.

Confira a entrevista do médico à BandNews FM.

Fonte: Correio