Minha jovem águia impetuosa

Há 20 anos, o meu mundo começava a ganhar algum sentido. O sentido de que minha existência não se resume a mim mesmo, mas de que sou água de um rio que corre vertiginosamente rumo ao estuário da inconsciência, deixando pelo caminho a memória do que fui. Claro que, depois de um tempo, mesmo essa memória encontrará inapelavelmente o oblívio, mas algo deve ficar: um conjunto de palavras aprisionadas em um livro, um neto particularmente brilhante que descobrirá uma vacina ou conceberá uma sinfonia, um fio de cabelo branco se desintegrando numa calçada.

Há 20 anos, o meu mundo ganhava a minha filha, que faz aniversário na próxima sexta. Até então, a ideia da finitude me provocava diariamente calafrios noturnos e desespero mudo. Hoje, é só um pesadelo assustador que tento deixar o mais distante possível. Minha filha conseguiu arrancar de mim – ou ao menos atenuar – o meu pior: um narcisismo estéril, certa propensão à melancolia e uma enorme dificuldade de pensar nas coisas práticas do mundo. Enfim, ela me fez virar um adulto.

Seu rosto não é um enigma, pelo contrário. Seus sentimentos são evidentes, solares, exacerbados. Sua plenitude e sua ternura se disseminam pela casa. Sua integridade moral impressiona: o senso de lealdade e justiça, o amor pelos animais, o desprezo pela arrogância, o desejo de ajudar a edificar um país menos vil e indigno. Permanecemos unidos pelo amor mútuo e por características que compartilhamos: os olhos ligeiramente estrábicos, a timidez, o desejo de desbravar o mundo, o espanto perene diante da vida.

Há 30 anos, era eu que chegava aos 20 e me lançava em viagens pelo Brasil, levado por meus ídolos literários e por doses cavalares de desnorteio e sentimento de inadequação. Acreditava no lema de William Blake, de que o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria. Por sorte, não me excedi tanto, muito menos me aproximei das portas do tal palácio. Não parece que foi ontem, mas confesso que passou mais rápido do que imaginava. Hoje isso pouco importa. Compartilhar a presença diária de minha filha no meu cotidiano me enleva, faz com que mesmo os dias mais duros e exaustivos acabem com um sorriso, um afago, um beijo de boa noite.

Adoro suas conversas entusiasmadas sobre a faculdade, os lugares que conheceu e ainda quer conhecer, o que pensa e quer da vida. Um olhar límpido e arejado, sem preconceitos, com convicções que vão se sedimentando sem perder a ternura. Adoro seu sorriso quando me vê ou quando brinco com seus ídolos musicais. Adoro observá-la sem que perceba, quando está estudando, assistindo uma série ou comendo alguma coisa gostosa. Adoro me dar conta às vezes do quanto ela se parece comigo e do quanto, ainda bem, tem de mais determinada, impetuosa e feliz.

Prestes a completar 20 anos, ela é uma jovem mulher que floresce de primavera o meu outono, ilumina o meu breu, preenche de calmaria a minha tormenta. Ao ponto de relegar minha própria existência a um plano secundário. Sim, 20 anos. Um período de tempo que reduziu uma palavra poderosa como amor a um eufemismo, que só esboça um milésimo do meu afeto incondicional. Amor que é como um latifúndio, um planeta, uma nebulosa. Amor que enternece, acalenta, inebria. Amor de pai, de um pai que vê embevecido a filha abrir as asas e mirar o horizonte, como uma jovem águia impetuosa.

Fonte: Correio