Na sua casa tem ambiente pra pedófilo?

Eram assim os banhos de mangueira, na nossa casa de praia, organizados pelo meu único tio: quatro meninas (eu, minha irmã e minhas duas primas), voltando do mar, cheias de areia e ainda incapazes de tomar banho sozinhas. Mães cuidando do almoço das quatro esfomeadas. Crianças enfileiradas. Tio divertidíssimo, de sunga, ajudava todo mundo espalhando shampoo nos cabelos, ensaboando as nossas costas, os pés e onde mais precisássemos de ajuda. Mas, na hora de lavar as pepecas, todas estendiam os braços pra frente. Ele passava sabonete nas nossas mãos e cada uma que se virasse com suas partes íntimas.

É claro que ele poderia fazer a higiene, se houvesse necessidade. Não havia. Era só um banho de volta da praia. Antes de dormir, cada casal (minha mãe e meu pai, meu tio e minha tia) cuidaria do banho caprichado das próprias filhas. Mais significativo, portanto, do que qualquer grão de areia que sobrasse ali, eram a diversão e o reforço do importante significado do termo “partes íntimas”.

Não sei se isso era intencional ou apenas preguiça dele de dar conta de tanta menina ao mesmo tempo, mas foi a mensagem que ficou pra mim. Esta, junto com tantas outras, nos fortaleceu e, que eu saiba, nenhuma de nós sofreu abusos, pelo menos durante a infância. Por um conjunto de fatores que inclui até “sorte”, claro. Mas deve ter ajudado o fato de termos sido bem “treinadas”. Em nossa família, não existiam muitas das fragilidades que favorecem a pedofilia. Blindada, nenhuma criança está, infelizmente. Mas dá pra diminuir as possibilidades.

Sabemos que a culpa é sempre do estuprador. Também que criminoso é o pedófilo. Mas, quando se trata de crianças, os erros têm sido retumbantes, em muitos âmbitos. E não apenas de quem pratica os crimes. São muitas as pessoas “colaborando” com processos que “surpreendem” a todos quando chegam aos desfechos. Pois, pra mim, não é surpresa alguma o número de crianças abusadas, se elas estão sendo criadas em contexto tão propício. A exigência de subordinação cega a adultos, o silêncio sobre sexualidade, a sexualização precoce, o medo que mães e pais gostam de provocar em filhos/as fazem parte de todo um repertório de insanidades.

Não entendeu a relação de umas coisas com as outras? Perainda que eu desenho. Entre outras estratégias, é consenso que crianças precisam reconhecer o que é abusivo, certo? Então me diga, por exemplo, como eu vou explicar a uma menina que só ela pode brincar com a própria xoxota se faço de conta que não vi, quando ela começou a se masturbar? Sim, masturbação acontece na infância e com todas as crianças. É natural. Tão natural quanto os processos de fecundação e parto que elas também têm o direito de aprender de forma saudável e clara. “Filha, é normal você brincar com a sua xoxota, mas só você pode se tocar e em privacidade. Se um adulto tocar em você – ou pedir que você toque nas partes íntimas dele – é crime e você precisa me contar. Ninguém pode fazer isso, ninguém. Eu acredito na sua palavra e protejo você, sempre”. Se você, pessoa adulta que lê este texto, se assusta com a possibilidade de falar assim com a criança que tem a honra de educar – e esse é só o começo do papo – precisa (mesmo) se trabalhar.

Não, não tem que obedecer a alguém só porque a pessoa é adulta. Idade, por si só, não garante nada. Não, não tem que idolatrar o instrutor de karatê, o mestre de capoeira, a professora de natação, o tio da van, o namorado da mãe nem ninguém. Sim, precisamos explicar o papel de cada um e os limites saudáveis das relações. Principalmente, deixando claro que nenhum título de gente adulta dá poder sobre o corpo de qualquer criança. Também que nenhuma criança pode ter “segredos” com qualquer adulto e todas devem saber que o adulto que pede segredo, só por isso, já está errado. Toda criança precisa confiar em alguém pra desabafar quando perceber um “clima estranho”. Sim, porque elas percebem. Mas confiar em quem? Nos pais e mães que batem e gostam de ser temidos? Na família disfuncional? Na mãe que prefere o namorado novo? No pai que nunca está? E quando o abusador e esse “adulto de confiança” são a mesma pessoa? Entende a que tipo de absurdo estão submetidas tantas crianças? Muitas vezes, são ouvidas e salvas pela escola, mas…

É evidente que não há uma solução simples que dê conta de todas as situações específicas e individuais. Mas há a força do comportamento coletivo e é nele que podemos atuar. E atuamos. Da pior maneira, até o momento. Por aqui, criança continua ocupando o lugar de menor valor na hierarquia social. E não se engane em relação aos filhos dos abastados. Mesmo cheios de presentes, também são os menos ouvidos nas coberturas de luxo, nas mansões e nos palácios. Também nessas estruturas são, muitas vezes, negligenciados. O abandono da infância não tem a ver apenas com dificuldades financeiras e omissão do Estado. As babás das crianças ricas bem sabem. Eu já conversei com algumas, inclusive com aquelas que vestem branco e levam seus “patrõezinhos” para os parquinhos da Lagoa, no Errejota. É cada história de assombrar.

“Na prática, no coletivo, o que ajudaria?”, pergunta quem quer atuar. Talvez parar de perguntar “cadê as namoradinhas” para crianças de oito anos. Quem sabe, defender a oferta de “educação sexual” (meu deus, como isso é importante!) nas escolas. Provavelmente, não achar normal quando homens adultos dizem, em relação a meninas: “já dá um caldo”. Quem sabe questionar os contextos onde aparece a palavra “novinha”. Cá entre nós, você sabe que não é de moças de 18 anos que falam. E a tara nas depilações íntimas? Homens e mulheres adultos têm pelos. Não lhe soa estranha a obsessão por xoxotas que parecem saídas de algum momento antes da puberdade? Tudo é parte de um modelo. Não olhar pra isso, não questionar, mas depois se mostrar assustado com as crianças estupradas, é muita contradição. No mínimo, por uma ingenuidade brutal.

Eu tenho um filho. Aqui em casa, tento fazer minha parte. Além dos cuidados básicos (não deixar sozinho com terceiros e todo esse lado prático), a regra é escutar, escutar, escutar. Olhar para ele, perguntar, querer saber. Manter o canal aberto entre nós. Confiar nele. Fazer com que ele saiba que pode confiar em mim. Garantir a ele o lugar de prioridade. É ele antes de qualquer namorado meu. É ele antes de qualquer amizade. É ele antes que qualquer pessoa, farra ou viagem. Por tudo, ele é a minha prioridade. Tenho a obrigação de manter, em todos os aspectos, a infância dele preservada. Justamente por isso, também preciso responder as perguntas naturais de cada idade. Com naturalidade. Blindado não está. Quem dera estivesse, mas há o mundo – nem sempre amistoso – que nos invade. Não tenho o controle do mundo. Fortaleço meu filho, portanto. Cuido do nosso quintal.

O que posso garantir (a ele, a você e quem perguntar) é que, em nossa vida, não tem “situação estranha”, “silêncio constrangedor”, “vistas grossas” nem “assunto proibido”. Aqui em casa, há mãe e filho convivendo de forma honesta e aberta com sentimentos, informações e fatos. Aqui não tem criança silenciada. E aí, o óbvio: com certeza, esse não é o ambiente favorável pra abusador, chantagista, agressor nem pedófilo. Espero que, na sua casa, também não exista esse espaço. É um trabalho contínuo, saiba. De todos os dias. Que exige levantar véus, enfrentar tabus com coragem. Também colocar luz em muitas esquinas e em cada detalhe. Não é fácil, eu sei, nem a solução de todos os males. Mas outra coisa que sei – e lhe garanto – é que estar ao lado de um filho só pode trazer bons resultados.

Fonte: Correio