Retorno ao trabalho: onde ficam as crianças?

Já se passaram três semanas desde que todo o contato da engenheira de Segurança do Trabalho Crislene Oliveira, com a filha Marina, de 7 anos,  acontece via chamadas de vídeo. Quando  retornou ao trabalho, a mãe decidiu deixar a filha com os avós para não correr o risco de contaminá-la.

“Morro de saudades e não está sendo fácil. Tem dias que estou bem triste. Tomei essa decisão exatamente por medo de passar o vírus. Foi um desafio me separar assim da minha filha, não sei até quando vou aguentar isso”.

Marina está há três semanas na casa da avó, desde que a mãe, Crislene, voltou a trabalhar . O contato é virtual, só por video chamadas todos os dias
(Foto: Reprodução)

Segundo dados do último boletim divulgado pela Secretaria de Saúde do Estado (Sesab-BA), até o momento, 8.643 crianças de 0 a 9 anos foram contaminadas pelo  coronavírus. Com a flexibilização das atividades econômicas em Salvador, desde o final de julho, muitos pais que estão retornando ao trabalho vivem o dilema de sair do isolamento social. E aí a pergunta é: quem está ficando com os filhos?

Ainda não há qualquer previsão de data para a volta às aulas. As escolas particulares pressionam, cada vez mais, por essa reabertura. Enquanto as instituições de ensino afirmam gastar milhões com protocolos  e brigam para que o desconto nas mensalidades não seja mantido, quem vai se virando como professor da pequena Aurora, de 6 anos, é o pai João Melo, que perdeu o emprego em um restaurante.  

A mãe de Aurora, assistente de cozinha, Aline Anjos, está com o contrato suspenso até outubro. A filha do casal estudava em tempo integral. Depois de perder completamente a renda, Aline passou a aceitar encomendas de bolos, doces e salgados. João até tinha oportunidade de se recolocar no mercado com reabertura dos bares e restaurantes liberados para funcionar desde o dia 10 de agosto. Porém, assumiu todos os cuidados com Aurora,  para que a mãe possa dar conta das encomendas.

“Aurora estava se alfabetizando, então, meu marido virou professor. A gente precisava buscar alguma alternativa de renda, por isso, me concentrei nos doces e salgados, enquanto ele cuida da casa e da nossa filha. Não tínhamos com quem deixar ela nesse momento. Não é fácil, mas estamos nos esforçando”.

No caso do empresário Luciano Azevedo, o retorno aconteceu no início da semana para preparar a reabertura do seu restaurante. Pai de Bernardo, de 14 anos, e Clara, de 9, a vigilância das crianças ficou com a esposa, Raquel Azevedo, que ainda se mantém no home office.

“Como eu não estava em atividade ficava mais com meus filhos, enquanto minha esposa trabalhava. Mas agora, Raquel está praticamente assumindo a rotina sozinha”. 

Outra rotina 
Para a psicanalista, orientadora educacional e educadora parental, Larissa Machado, uma atitude que pode ajudar quem contava com o suporte presencial das escolas para ir trabalhar é manter não só a supervisão, mas estimular a independência da criança.

“Tem que manter o compromisso de supervisionar, ainda que distante. Meia hora, uma hora por dia. Para a criança é importante saber que esse pai ou mãe vai olhar o que ela fez, o que a estimula a se esforçar, fazer certo”.

Montar um cartaz, uma tabela, todo mundo junto, com os horários acordados é mais uma boa estratégia, como acrescenta a especialista. “Com isso, a criança vai assumindo pequenas responsabilidades e quem ficou em casa, ajuda no cumprimento desta rotina, sem que tenha que ocupar a linha de frente”, acrescenta.

Sem culpa
A coordenadora de operações do Shopping Paralela, Carolina Trindade, retomou o fluxo diário de trabalho presencial de segunda a sexta, com plantões no fim de semana. Mãe de Gabriel, de 3 anos, ela tirou o filho da escola logo no início da pandemia. A solução foi pedir auxílio à doméstica que trabalha com a sogra.

“Ela está dormindo aqui em casa durante a semana para não correr o risco de contaminação no transporte público”.
Mesmo sem manter a matrícula na escola, Carolina não abandonou as atividades escolares. “Como fizemos isso, nós que pegamos o material didático dele e estamos tocando esse processo de aprendizagem em casa mesmo, até que Gabriel retorne no ano que vem”, afirma.

Leia também – Aulas online na pandemia: Veja por que a escola não vai ser mais a mesma

Segundo a professora do curso de psicologia da Unifacs, mestra em Psicologia Social e do Trabalho e Psicodramatista, Cíntia Neves, os pais não devem se sentir  culpados nesse momento de retorno.

“O medo do contágio vai acontecer. E  ele é importante, só não pode paralisá-lo. É um sistema de alerta para gente. Essa condição vai deixar os pais atentos para as estratégias de prevenção”.

Independente da idade, a criança deve ser envolvida no processo. “Que a saída do isolamento, por parte dos pais, seja conversada dentro do contexto familiar como um processo de conscientização para os filhos, mesmo os menores. Eles estão atentos ao que está acontecendo, percebem a mudança. Á medida que elas se sentem parte, já se eliminam fantasias de abandono ou uma falta de compreensão do que está acontecendo”, reforça a especialista. 

REFORÇO EXTRA EM TODOS OS CUIDADOS

Prevenção A  pós-doutora pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em virologia e professora do curso de Medicina da UniFTC, Andrea Gusmão reforça que a pandemia não acabou. “O vírus é invisível. Todos as medidas de segurança devem ser mantidas”.

Babá  A virologista orienta que, principalmente para as pessoas que retornam para casa, além de oferecer  os itens de proteção é preciso reforçar as medidas de higienização. “ os mesmos cuidados que os pais devem ter, ao sair de casa todos os dias”.

Avós Por fazerem parte do grupo de risco, os avós só devem ser opção para ficarem com as  crianças em último caso. “É redobrar a atenção com eles, visto que os idosos além da idade, geralmente, têm comorbidades”, alerta a virologista. 

Para não levar o vírus  Ao ir para o trabalho não abrir mão do uso  das máscaras, de preferencia com três camadas de tecido. “Não esqueça, inclusive, de trocá-las mais vezes quando estiver no trabalho”, diz.

Chegou em casa? Banho imediato antes de qualquer contato com as crianças. Andrea pontua também a necessidade aumentar a higienização da casa. “Solução de hipoclorito de sódio no chão e no banheiro, sempre”, ressalta.

Fonte: Correio