Amyr Klink sobre pandemia: 'Vamos descobrir o que é essencial'

Em um mundo cada vez mais materialista, sonhar em se desapegar de coisas como um carro ou até uma casa pode parecer loucura. Mas, para Amyr Klink, é um objetivo de vida deixar de ter bens que gerem despesa e precisem de tempo para serem mantidos. Famoso navegador e palestrante, ele explicou seu pensamento em bate-papo com o publicitário baiano Joca Guanaes (@jocaguanaes) na live do projeto #Segundou, no Instagram do CORREIO (@correio24horas).

“Estou tentando me livrar de tudo que tenho que são itens materiais. É uma decisão apoiada pela minha família. Quero mais benefícios e menos bens. É um processo um pouco ousado, mas, lentamente, estou me desvencilhando de bens e abraçando benefícios. Pretento ter mais liquidez e menos coisas para cuidar, até não ter casa nem carro. As novas gerações têm essa tendência. Minhas filhas (as gêmeas Tamara e Laura e a caçula Marina Helena) não querem ter um apartamento próprio, elas querem ter uma moradia legal, em qualquer lugar. Elas não querem um carro, querem mobilidade. A ideia é se prender menos a ‘coisas’ e ter mais experiências”, explica.

Amyr foi a primeira pessoa a fazer a travessia do Atlântico Sul a remo, em 1984, a bordo do barco IAT. Levou cem dias e nove horas para cruzar os quase 7 mil quilômetros, saindo de Lüderitz, na costa da Namíbia, no dia 10 de junho e chegando na Praia da Espera, no litoral da Bahia, em 18 de setembro. Naquela época, não havia GPS e as estimativas de localização eram feitas por um instrumento chamado sextante. Antes mesmo de sair, teve que enfrentar vários problemas. Parecia até uma missão impossível. Mas o segredo é não se dar por vencido antes mesmo de tentar.

“Todas as viagens, para mim, foram um inferno (risos). Nessa primeira, era um horror a burocracia, levar o barco para a África, em um país que ainda era ocupado pela África do Sul e na época do Apartheid. Entrei no meio da confusão. É engraçado que, quando saiu a autorização para começar a viagem, não era o momento que eu tinha planejado – mas era o momento de ‘me livrar’ da África. Foi uma experiência interessante. Percebi que o grande sonho não era realizar a travessia, mas começar. Percebi que seria muito triste não partir. Muita coisa poderia der errado, como naufragar, ir à falência. E tudo bem. Mas não poder tentar, isso é muito triste. No dia 10 de junho de 1984, me cagando de medo, consegui por em prática o começo. É maracilhosa essa experiência de fazer um plano e executar”, conta.

Amyr já deu mais de 3 mil palestras, seja no Brasil ou ao redor do mundo. E segue sendo requisitado para muitas outras. O que as pessoas tanto querem ouvir do navegador? Ele acredita que são, justamente, suas histórias.

“As pessoas gostam de ouvir uma experiência autêntica, que de fato viveu – e não teses. Acho que qualquer ser humano que registrar suas experiências, tem algo único para contar. Quando você faz um registro diário, depois você vê e se surpreende com aquilo”.

Para ele, a pandemia do coronavírus tem seu lado terrível, principalmente pelas milhares de mortes ocorridas por covid-19. Mas é possível se tirar algo de bom com isso. 

“Eu estou aprendendo muito. A experiência que tive de confinamento [nas expedições marítimas] foram muito mais intensas, com 10, 20 meses. Mas, ali, eu tinha perspectiva e objetivo. Sabia que, a cada dia, estava mais perto desse objetivo. Hoje, não temos como saber a distância que vamos percorrer com essa pandemia. De um lado, a gente tem um poder de conectividade inédito na história da humanidade. De outro, há uma ansiedade muito grande, sei que há pessoas sozinhas que estão sofrendo, gente que está atuando na linha de frente que está com medo. Mas acho que é uma experiência interessante para avaliar o que é essencial. Vamos aprender muito, descobrir o que é essencial para nossas vidas”.

O começo
O remo entrou na vida de Amyr de uma forma um tanto quanto exótica. Quando ainda estava na faculdade de Economia na Universidade de São Paulo (USP), o velejador queria fugir do trote – e, por isso, passou a ir cedo para o campus.

“Eu não gosto de violência, nunca agredi uma pessoa. E fiquei assustado com o trote, com aquilo de cortar o cabelo, raspar. Fugi indo cedo para a escola. E descobri o pessoal do remo, que remava, também cedo, na Raia Olímpica da USP. Adorei, me apaixonei. Não é a força que vence ou o talento puro, mas o conjunto, treino, treino, treino. Me encantei”, lembra.

Amyr se formou em Economia, mas largou o primeiro emprego. Foi para Paraty, onde cresceu, ajudar nas dívidas da família. “Meu pai era um louco visionário. Era um homem maravilhoso, mas não era empreendedor. Comprou um monte de terra em Paraty e ficou com muitas dívidas. Era o inferno no paraíso, contas para todo o lado. Foi uma baita escola por muitos anos. A viagem a remo foi quase como uma fuga, uma maneira de fugir dessas obrigações”.

Por causa da burocracia envolvendo um imóvel, aliás, o navegador teve uma discussão com o pai e quase perde a mão direita. Em um momento de fúria, o velejador socou uma porta de vidro e, por pouco, precisou amputar o membro.

“Eu tinha uma relação difícil com ele. E, de fato, tive essa discussão. Minha mão quase foi amputada em Paraty, mas, por um milagre, fui levado para Angra dos Reis e conseguiram reconectar minha mão. Engraçado que, se minha mão não ficasse boa, não poderia remar. Ainda assim, comecei estudar. Se ela melhorasse, se eu resolvesse o problema de navegação, astronomia – pois não tinha GPS nem internet -, daria para fazer a travessia. E daí nasceu o projeto”.

Em 1996, Amyr casou com Marina Bandeira, velejadora com mais de uma centena de competições no currículo. Na época, ele não estava com vontade de compromisso. Mas logo percebeu que ela era a mulher ideal para ele.

“Eu tinha 11 namoradas (risos). Gostava dela, mas não estava a fim de casar.  Mas me encantei porque ela apoiava as coisas que eu fazia. Um dia, ela falou que, ao invés de eu comprar uma casa, deveria acabar de fazer meu barco. Achei maravilhoso. Apoiar o projeto do seu (sua) companheiro (a) é uma forma de demostrar amor – até incomum. Por isso, decidi casar com ela. Engraçado que ela passou a dividir comigo as encrencas, as dívidas. Daí para frente, ela virou cúmplice e percebi que nossa (o) companheira (o) pode se tornar um motor para nossos sonhos. Percebi que, com ela, era mais que uma soma, era uma multiplicação”.

Veja o papo completo:

Fonte: Correio