Bastidores: conheça o local onde a vacina contra a covid-19 é testada nas Osid

Para descobrir a vacina da covid-19, o médico infectologista baiano Edson Moreira dorme, em média, quatro horas por dia. Religiosamente, pouco depois do dia amanhecer, às 6h30, ele entra no Centro de Pesquisa Clínica das Obras Sociais Irmã Dulce (Osid). Lá, chega a ficar até 22h30, após o seu grupo atender, por dia, cerca de 80 candidatos a receber a vacina. “Até passar essa fase, vou viver essa rotina”, afirma, convicto.  

Pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Edson é o fundador e coordenador do centro que foi escolhido pela empresa americana Pfizer para conduzir, em Salvador, o estudo de nível mundial que pode imunizar a população contra o novo coronavírus. O local possui chancela de excelência dada pela empresa, algo que só foi oferecido para pouco mais de 100 centros de pesquisa no mundo inteiro.  

“Desde 1999, quando surgiu, realizamos cerca de 80 pesquisas. Dessas, pelo menos 30 foram de vacinas”, contou o médico e pesquisador ao CORREIO. “Eu não estou com tempo, mas decidi receber vocês, pois é também uma forma de parar, descansar um pouco”, justificou.

Durante pouco mais de uma hora, ele apresentou à reportagem quase todo o espaço onde são realizados os testes.  

Edson comanda o Centro de Pesquisa Clínica das Osid (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

“Vocês só não vão entrar no laboratório, pois é aqui que se sorteia qual vacina o voluntário vai receber”, disse. Na porta, um leitor biométrico assegurava a entrada só de quatro farmacêuticos no laboratório, os únicos que sabem se a vacina que o candidato recebeu era a da covid-19 ou o placebo. Por questões éticas, nem o doutor Edson pode saber.  

A vacina testada pelo Centro de Pesquisa das Osid foi desenvolvida conjuntamente pelas empresas alemã BioNTech e norte-americana Pfizer. No início do estudo, quatro vacinas eram estudadas e uma foi selecionada por apresentar melhores resultados. É a de nome científico BNT162b2, feita com um pedaço do material genético do vírus, no caso, o RNA mensageiro (mRNA), que codifica um fragmento específico do novo coronavírus (Sars-CoV-2). O RNA é traduzido pelo organismo humano em proteínas que induziriam uma resposta imunológica. 

Simples 

O Centro de Pesquisa Clínica das Osid funciona em um prédio de um andar que fica dentro da própria instituição, no Largo de Roma. Na fachada, não há placa de identificação ou qualquer coisa que dimensione para quem passa pela Avenida Luiz Tarquínio o que acontece lá dentro. No térreo, funcionam cinco salas de consultórios e uma sala de recepção. É lá que os voluntários passam por triagem e realizam exames. 

Membros das Osid podem ser voluntários para o estudo (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Se considerados aptos, sobem uma escada e prosseguem para a realização dos testes, que acontecem no primeiro piso. Lá é o local mais vivo do centro. Trata-se de um espaço de nove salas, entre laboratório, sala de reunião, do comitê de ética e de vacinação. Antes da pandemia, 15 pessoas trabalhavam por lá. Agora, a atual demanda causou um salto no número de funcionários para 26.  

“As pessoas conhecem o trabalho social desenvolvido pelas Osid, mas não sabem dessa preciosidade que temos aqui, dessa parte mais científica. Temos mais de 100 artigos publicados com mais de 10 mil citações. E tudo isso só é possível graças a autonomia que temos para desenvolver nosso trabalho, o apoio da direção e a filosofia das Osid de servir para a sociedade”, disse o médico.   

Para fundar o centro, Edson foi convidado pela própria instituição primeiro para realizar um curso de metodologia da pesquisa. Formado na Universidade Federal da Bahia em 1985, na época do convite, já era pesquisador da Fiocruz. O curso deu tão certo que surgiu a possibilidade de fazer esse núcleo. No início, as Osid contribuíram para sustentar o espaço. Agora, ele já funciona com total autonomia financeira.  

“Os estudos são patrocinados pelas agências de fomento e a indústria farmacêutica. Em dois anos, o Centro já conseguiu se autossustentar. Nesse estudo da covid-19, por exemplo, é a Pfizer que arca com os custos de pesquisa. O valor a gente não divulga, pois há um acordo de confidencialidade”, explicou.  

Centro é financiado pelas instituições que investem na pesquisa científica (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Ciência abençoada 

Devoto de Santa Dulce, o doutor Edson acredita que o trabalho científico feito no espaço tem a benção da padroeira, que foi canonizada há menos de um ano. Antes de ser aluno de medicina, quando ainda era adolescente, ele mesmo conviveu com a freira enquanto era voluntário no atual Centro Educacional Santo Antônio, em Simões Filho.  

“Eu almoçava com ela. Ia com a minha namorada, atual esposa. Passávamos o final de semana lá. Pegávamos ônibus lotado. Depois, entrei para medicina, fiz estágios voluntários aqui, fiz mestrado e doutorado no exterior, ela faleceu… e a vida me trouxe de novo para ela”, afirmou.  

Segundo o médico, embora nem todos lá sejam católicos ou mesmo religiosos, o exemplo da freira baiana inspira a forma de fazer ciência. A enfermeira Juliana Cardoso, 34 anos, até se emociona ao falar disso. “É muito bom fazer parte dessa equipe. Aqui, como tem o amar e servir, a gente faz tudo de coração para ajudar a sociedade”, disse. Nos 12 anos de carreira de Juliana, 10 foram vividos no Centro de Pesquisa.  

Já a farmacêutica Terezinha Ribeiro, 64 anos, é a funcionária mais antiga a trabalhar no local. Ela viu o centro crescer, ganhar visibilidade e participou de quase todas das 80 pesquisas clínicas realizadas.

“Foi o próprio doutor Edson que me convidou, pois já tinha trabalhado com ele antes em pesquisa clínica. Sou aposentada, mas continuo trabalhando e não pretendo parar, principalmente agora. É bom contribuir para o fim dessa pandemia”, disse.   

Terezinha Ribeiro também é devota de Santa Dulce (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Até a quinta-feira (20), 350 pessoas já tinham sido testadas pela instituição com a vacina contra a covid-19. No total, serão 500 voluntários só em Salvador e outros 500 em São Paulo. Em todo o mundo, 29 mil pessoas participam do estudo que, em seres humanos, é dividido em três fases que acontecem simultaneamente. 

O Brasil só participa da terceira e última fase, a etapa do estudo em que são vacinadas milhares de pessoas que trabalham expostos ao vírus. Em Salvador, os voluntários são membros das Obras Sociais Irmã Dulce. A testagem para o público externo das Osid deve acontecer gradualmente, mas ainda não foi aberta a seleção.  

Estudos 

Além da vacina da covid-19, o Centro de Pesquisa Clínica se dedica atualmente à descoberta de uma outra vacina que pode imunizar a população brasileira contra a dengue. Por causa da pandemia do novo coronavírus, 90% da capacidade do centro está dedicada à vacina da covid-19, mas os outros projetos continuam. 

“É por isso que aumentamos a nossa equipe, pois não podemos parar. A dengue é uma prioridade de saúde pública no mundo todo, não é só no Brasil. A doença acomete dois terços da população do planeta. Os números indicam um milhão de casos de dengue por ano. Então, descobrir essa vacina vai ser fundamental”, disse o doutor Edson.  

Ao longo dos seus 21 anos de existência, o centro já participou também de todo o programa de desenvolvimento da vacina do HPV, que já está no programa nacional de imunização e previne câncer do colo do útero, do canal anal e de vagina. 

“Também estamos prestes a iniciar um estudo dessa vacina de HPV para outra finalidade, a prevenção do câncer de cabeça e pescoço”, afirmou. 

Além disso, o grupo participou no desenvolvimento da vacina de rotavírus, meningite B e de estudos epidemiológicos em parceria com a Fiocruz. “São estudos que ajudam a dar assistência à saúde pública brasileira, pois a gente consegue definir, por exemplo, questões relativas à diabetes e de outras doenças comuns. Também fizemos estudos epidemiológicos que definiram como garantir a imunização da população, como fazer com que a vacina chegue até as pessoas”, afirmou.  

* Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro.

Fonte: Correio