Quatro em dez brasileiros deixaram de procurar atendimento médico na pandemia

Mesmo durante a escalada de casos de Covid-19, outros problemas de saúde continuam a atingir os brasileiros. Mas, por medo de contágio pelo coronavírus, quatro em cada dez precisaram de ajuda médica nos últimos meses e deixaram de procurar um hospital. Desses, 42% continuam sentindo os mesmos sintomas. Entre as principais queixas de saúde que as pessoas não comunicaram a um médico estão problemas dermatológicos, as dores nas costas e crises de ansiedade. 

Pouco mais da metade dos brasileiros também abandonaram consultas de rotina desde março, sendo que 65% dessas pessoas deixaram de realizar o check-up anual de saúde nesse período e 12% abandonaram o controle clínico da diabetes. As conclusões são de um levantamento da empresa de pesquisas Demanda, que analisa hábitos dos brasileiros desde o começo da pandemia. 

O auxiliar administrativo Jhonas Nunes, 25, atualmente desempregado, passou semanas com dores no peito até procurar atendimento em um posto de saúde. “Pensei que pudesse ser Covid, mas vi que só era para ir ao médico caso fosse grave, então fui ficando em casa, porque alguns dias doía menos. Mas continuou doendo por mais de um mês”, conta. Por fim, ele recebeu o diagnóstico de costocondrite — uma inflamação na caixa toráxica tratada com antiinflamatórios — e, hoje,diz ter se arrependido de não procurar auxílio mais cedo.  

O cenário de receio em procurar atendimento é confirmado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), que lançaram a campanha Saúde Não Tem Hora a fim de incentivar os pacientes a não abandonar tratamentos ou ignorar sintomas durante a pandemia. Dados divulgados pela iniciativa apontam que houve redução de 50% de procura de pacientes cardíacos por atendimento médico e hospitais com registro de 40% menos pacientes com Acidente Vascular Cerebral (AVC), uma das principais causas de morte no Brasil. 

O cardiologista Bruno Ramos, membro da SBC, diz que a redução da procura dos pacientes por atendimento é perceptível. “Foi maior na fase inicial da pandemia, mas ainda é notável. Eu também trabalho com cateterismo e angioplastia e percebo que os pacientes têm chegado com mais urgência ao hospital, já com infarto agudo. Ele tem sintomas, mas espera e protela a ida ao hospital”, aponta. Registros de óbitos em cartórios por infarto e AVC tem tido diminuição desde o começo da pandemia, ao mesmo tempo em que aumentam as mortes por causas cardiovasculares inespecíficas — o que pode indicar menos diagnósticos precisos durante a pandemia, aponta Ramos. 

Cerca de 9% dos brasileiros que deixaram de fazer acompanhamento médico, segundo a pesquisa da Demanda, dispensaram os exames de coração. Na casa do coordenador de projetos aposentado Paulo Schettini, 74, a situação se dividiu: ele preferiu manter a consulta, mas a esposa, de 71 anos, adiou. “Minha esposa cancelou uma consulta com cardiologista em maio e está pensando em remarcar para fevereiro do ano que vem. No meu caso, fui recentemente porque tenho marca-passo e tenho que fazer controle, inclusive para saber em que pé está a bateria dele”, conta.

O cardiologista Bruno Ramos alerta para alguns sintomas que merecem atenção: “Sintomas agudos devem levar ao serviço de saúde, como dor no peito, falta de ar e dor de cabeça súbita. Ao mesmo tempo, o paciente tem que manter o controle das doenças crônicas e visitar o médico, fazer ajuste de receita e das doses dos medicamentos”.

A endocrinologista Denise Franco, membro da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), lembra que pacientes com diabetes precisam se consultar pelo menos a cada seis meses, caso ela esteja sob controle. “Neste período, se houve mudança de hábitos, temos que monitorar a glicemia. Se você está com ela acima de 250 mg/dL e ela não melhora com as medidas a que está acostumado, tem que procurar um serviço de saúde ou ligar para o médico, se tiver contato”, pontua.

A maior parte dos entrevistados pela pesquisa da empresa Demanda tem renda compatível com as classes A e B. 

Telemedicina não é utilizada por 78% dos pacientes 

Com diagnóstico de imunodeficiência comum variável, o publicitário Renan Gurgel, 24, conta que não sai de casa desde os primeiros casos de Covid-19 confirmados no Brasil. Sua síndrome faz com que o corpo não produza anticorpos adequadamente, o que o torna mais suscetível a infecções. Com um histórico de pneumonias e por receio das consequências da Covid-19, ele tem deixado de tomar as doses mensais de anticorpos que integram seu tratamento e está se comunicando com os médicos apenas de forma remota. 

“Faço acompanhamento psiquiátrico e parei também. Estou com gengivite há quase cinco meses e não procurei o dentista. Agora estou em contato com a minha médica para ela ver como eu voltarei ao hospital para fazer o tratamento da imunodeficiência”, diz. Renan afirma que gostaria de fazer consultas online para aquilo que fosse possível. É a mesma opinião de 48% dos brasileiros que não utilizaram serviços de telemedicina na pandemia, mas que afirmam que gostam da ideia de fazer uso dela, de acordo com a pesquisa da empresa Demanda. A maior parte dos entrevistados, quase 80%, não utilizaram o recurso. 

Em março, o Conselho Federal de Medicina (CFM) reconheceu a possibilidade de atendimento médico por telemedicina, em meio à pandemia. O Ministério da Saúde e a própria Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) disponibilizam  consultas online gratuitas para pessoas com sintomas de Covid-19. Só em BH, o governo municipal contabiliza 8.800 atendimentos, até o dia 21 de agosto. 

Na rede de serviços ambulatoriais Dr. Consulta, os atendimentos online correspondem a cerca de 20% do total, desde que a rede passou a oferecer o serviço, neste ano. Segundo a assessoria de imprensa da empresa, os atendimentos em geral e exames presenciais tiveram queda de cerca de 30% entre março e abril, mas já se regularizaram. 

Fonte: Agencia Brasil