Bar que fez história em Salvador, Varandá caiu ‘anônimo’ sobre a Ladeira da Montanha

Toda dengosa, Fafá de Belém, aos 19 aninhos, remexia o generoso decote e soltava a voz, bem aguda e afinada. “Sei beber no varandá. Foi Sandoval quem me ensinou. Ah, moreno. Cadê vocês?”

A jovem estrela paraense despontou para o sucesso nacional em 1975, gravando uma das canções da novela “Gabriela”, da TV Globo. Seu passaporte para o que viria a ser uma longeva carreira foi a canção ‘Filho da Bahia’, um samba de roda enrabichado com a chula do Recôncavo, em certa medida muito parecida com o carimbó do seu estado natal.

Edificação ficava no topo da Ladeira do Pau da Bandeira (Foto: Arisson Marinho/Arquivo CORREIO)

Num dos versos, depois de cantar “viver não é fácil”, Fafá mencionava o Varandá e Sandoval. Essa dupla foi sinônimo de noitadas homéricas, porres assombrosos, amores perdidos, luxúria transbordante e uma boemia romântica numa Salvador que vivia a transição de província para metrópole, entre os anos 1960 e 1970.

No vídeo abaixo, Fafá de Belém canta ‘Filho da Bahia’.

No último domingo (23), parte de um casarão abandonado desabou na rua do Pau da Bandeira, na Ladeira da Montanha. Quatro dias depois, a prefeitura aprovou a demolição completa da estrutura, que oferecia risco a quem transitava pelo local. Não demorou para correr o buchicho. O prédio que tinha ido abaixo era justamente o antigo Varandá.

“Quando vi a foto não reconheci logo. Mas depois olhei com mais calma e percebi que era mesmo ele. Foi uma tristeza. Mesmo sabendo que há muito tempo aquele espaço tinha acabado, deu um aperto saber que aquele casarão não existe mais”, diz o advogado Gilson Oliveira, 80 anos, integrante assíduo do bar durante a juventude.

A demolição do imóvel foi concluída na tarde desse domingo e agora a empresa contratada fará a remoção do entulho

Prédio abandonado estava nos fundos do Palácio Rio Branco, ao lado do Elevador Lacerda, com privilegiada vista da Baía (Foto: Codesal/Divulgação)

O Varandá não reinava só. Fazia parte de um circuito etílico intelectualizado que compreendia ainda os puteiros do Pelourinho, as lanchonetes e boates da Carlos Gomes e os bares e restaurantes da rua Chile, já quase desembocando na Praça Castro Alves. Cantores, instrumentistas, atores, atrizes, jornalistas, estudantes, professores eram o público preferencial, reprisando com frequência o comparecimento pelas cercanias.

A grande estrela da companhia era o Tabaris Night Club. A casa funcionava atrás do antigo Cine Guarani (hoje Glauber Rocha), exatamente onde atualmente é o Teatro Gregório de Matos. Música de orquestra, jazz e prostitutas faziam parte do ambiente da casa. Eram servidos saborosos pratos – com destaque para o coq au vin (frango ao vinho, em francês), além de bebidas estupidamente geladas para aquelas noites estupidamente quentes.

A vista da varanda
“Aqui é sua casa fora de casa. O show começa quando você chega. Você é a grande atração”. As palavras de abertura eram repetidas ao microfone pelo crooner e mestre de cerimônias Sandoval Caldas, um moreno forte, de simpatia e sorriso largo.

“Sandoval era um personagem da noite de Salvador. Não tinha quem não o conhecesse. Depois de anos trabalhando no Tabaris, ele abriu o próprio bar, que era justamente o Varandá. Mas as duas casas não competiam. A noite começava no Tabaris e terminava lá no Pau da Bandeira”, relembra o músico, cantor e compositor Tuzé de Abreu.

Aos 72 anos, Tuzé diz ter mais lembranças “oníricas” do que “precisas” do antigo estabelecimento. Conta que, no fim da década de 1960, frequentou o espaço acompanhado dos amigos Caetano Veloso, Gilberto Gil e Luiz Melodia, chegando até a tocar por lá.

“Caetano e Gil já eram famosos. Não como são hoje, mas já moravam no Rio de Janeiro e tinham músicas de sucesso. Quando chegava o verão vinham para Salvador e o Varandá era um dos nossos destinos na noite. Lembro que era difícil chegar, porque a ladeira era muito íngreme e a gente descia se equilibrando na rua. Mas, quando chegava, era recompensado por uma vista absurda da baía de Todos os Santos. Era a varanda aberta para a baía”, pontua.

Noite adentro
Por volta de uma hora da manhã a casa enchia completamente. Isso por duas razões: a primeira, porque os farristas saíam do Tabaris direto para o Varandá, numa trupe comandada pelo próprio Sandoval. E a segunda, e não menos importante, pois era nesta faixa horária que as distintas moças largavam o batente.

“Uma da manhã os puteiros fechavam. Isso era um clássico de Salvador. O último trago sempre era no Varandá. Nessa época, Salvador recebia mulheres da Argentina, Paraguai, Uruguai. E ali no Varandá a festa recomeçava”, diz o produtor musical Roberto Sant’Ana.

Estrutura de imóvel que desabou na Ladeira Pau da Bandeira será demolida

Desabamento de parte do imóvel, antes de completa demolição, interditou Ladeira da Montanha (Foto: Tiago Caldas/Arquivo CORREIO)

Entre tantas proezas na carreira – entre elas, apresentar Caetano a Gil; juntar, em 1961, os primeiros tropicalistas num espetáculo teatral e produzir um sem número de álbuns antológicos da MPB –, Sant’Ana foi quem descobriu Fafá de Belém.

Na época, ele morava no Rio de Janeiro e trabalhava na Polygram, principal gravadora e com o melhor casting de cantores do país.

“Recebi um telefonema de Guto Graça Mello, diretor musical da Globo, que estava produzindo a novela Gabriela, inspirada no romance de Jorge Amado. Ele queria uma música para fazer parte da trilha da novela. Menti dizendo que tinha uma pronta. Na verdade não tinha porra nenhuma”, relembra.

Naquela mesma noite, encontrou com Walter Queiroz e comentou o pedido do mangangão da Globo. “Waltinho me disse: ‘eu tenho uma música pronta’. A gente entrou no carro e começou a ouvir a gravação”.

Waltinho Queiroz, compositor de ‘Filho da Bahia’, primeiro grande sucesso de Fafá de Belém (Foto: Mauro Coelho/Divulgação)

Àquela altura, Walter Queiroz morava também no Rio para, segundo ele, viver o sonho de fazer parte do movimento da música popular brasileira. Antes, em Salvador, ainda estudante de direito, foi um destacado boêmio das noites do Varandá.

“Era parte da minha vida. Ali, naquelas mesas, discutíamos os casos poéticos, políticos e o amorosos do Brasil. O Varandá era um marco civilizatório para falar de utopias, democracia e a esperança de construir um novo Brasil”, diz Waltinho, hoje aos 75.

Parte do prédio voltada para o topo da Ladeira Pau da Bandeira, dias antes da demolição (Foto: Arisson Marinho/Arquivo CORREIO)

Quando compôs ‘Filho da Bahia’, a menção ao Varandá e Sandoval vieram sem esforço. “Nem lembro exatamente quando coloquei eles nos versos. Mas eles eram tão parte de mim que brotaram naturalmente. Aquilo era parte do que eu imaginava ser um filho da Bahia”, pontua Waltinho.

Depois de ouvir a música no toca disco do carro e aprová-la, Roberto Sant’Ana tentou fazer com que a cantora Maria Creuza a gravasse mesma noite. Quando chegou na casa, no entanto, percebeu uma ambulância estacionada na frente.

“Ela tinha passado mal e foi levada às pressas para operar do apêndice. Então, lembrei de Fafá, que eu tinha conhecido há pouco tempo. No dia seguinte, levei Fafá no estúdio e ela gravou ‘Filho da Bahia’. O Varandá e Sandoval estariam, a partir dali, imortalizados para sempre na música brasileira”, diz Sant’Ana.

Fafá de Belém, lançada para o sucesso com a música ‘Filho da Bahia’ (Foto: Reprodução/LP Banho de Cheiro)

Fora dos versos, a realidade foi menos festiva. A partir dos anos 1970, anos de chumbo da Ditadura, o Varandá perdeu parte do seu público e prestígio com a transformação de Salvador e o processo de abandono do centro histórico. Guiando-se pela nova dinâmica da cidade, Sandoval abriria um bar na Pituba, gozando de uma nova clientela.

Numa tarde nos anos 1980, porém, teve um fim trágico. “Foi uma das mortes mais idiotas que se tem notícia até hoje. A roda de um caminhão se soltou e atingiu diretamente Sandoval. Sem ninguém entender mais nada, morria um dos maiores e melhores boêmios que a Bahia já teve”, relembra Gilson Oliveira.

Como fez durante toda sua existência, mesmo sem o seu mestre de cerimônia, o Varandá resistiu mais um tempo. Até definitivamente pedir a conta e encerrar o expediente.

[Esta coluna é dedicada a brilhante amiga e jornalista Olívia Soares, que me contou a história do Varandá].

Fonte: Correio