Mutuípe foi epicentro de terremoto na Bahia: 'Trio elétrico balançando as paredes'

O tremor de terra que fez muitos baianos tremerem na base neste domingo (30), após um abalo sísmico de magnitude 4.6 na Escala Richter, teve como epicentro a cidade de Mutuípe, no sudoeste do estado, que fica a cerca de 50 km de distância da Ilha de Tinharé, no baixo sul. O terremoto (sim, terremoto mesmo!) aconteceu por volta das 7h30 e foi sentido em pelo menos 44 cidades do estado, incluindo a capital, Salvador.

O prefeito de Mutuípe, Rodrigo Maicon de Santana Andrade, conhecido como Digão, descreveu o incidente como “muito assustador”. Apesar disso, informou ao CORREIO que não chegou a ocorrer nada mais grave na cidade. “Nenhum deslizamento, nada de grande impacto. Apenas rachaduras em algumas casas e no solo, porém sem grandes prejuízos”, comentou ele, que enviou à reportagem algumas fotos recebidas de moradores. Veja abaixo.

No município de Muritiba, no Recôncavo, a 118 km de Mutuípe, a empresária Marise Caribé, 39 anos, disse que a sensação foi a de que um trio elétrico – no modo silencioso, claro – estivesse em frente à sua casa, localizada na Rua Belo Vale, no Centro. 

“Eu sentia a cama, a mesa de cabeceira e os móveis se movendo de forma independente. Era como se tivesse um trio elétrico na porta da casa balançando as paredes e janelas, era o mesmo efeito do trio de fazer vibrar o vidro. Fiquei surpresa, sem entender muito bem, mas o tremor foi real. Pareceu filme”, contou Marise, que sentiu o movimento por no máximo cinco segundos. Ao compartilhar o fato com amigos e familiares, pelo menos dez conterrâneos disseram terem sentido o mesmo. 

Rua Belo Vale, no centro de Muritiba, onde a moradora Marise Caribé sentiu o tremor de terra nesta manhã

Rua Belo Vale, no centro de Muritiba, onde a moradora Marise Caribé sentiu o tremor de terra nesta manhã (Foto: Divulgação)

A 224 km dali, em Jaguaquara, município que faz parte da microrregião de Jequié, ainda no sudoeste, dois moradores também registraram os perrengues do treme-treme.

“Eu estava dormindo e, do nada, senti um negócio tremendo. Achei que estava sonhando porque não fazia sentido, não acontece terremoto na Bahia. Mas me toquei que estava acontecendo alguma coisa porque era o vidro da janela tremendo, as coisas da estante vindo em direção ao chão, tudo batendo. O copo do meu lado só não caiu porque eu segurei”, narrou a estudante de Direito Nicole Meirelles, 19. 

Já o comerciante e produtor rural Paulo César Bernardino, 52, estava acordado, assistindo televisão, quando sentiu o chão balançar.

“Ouvi de repente um barulho muito forte, pensei que era algum rolo compressor passando na rua. As janelas estremecerem. Saí até a varanda de minha casa e vi que realmente era um tremor de terra. Foi muito intenso aqui. Como foi a primeira vez que passei por isso fiquei com medo e pensei que alguma coisa ia desabar”, desabafou o comerciante. Bernardino afirmou ter sentido o sismo por cerca de 25 segundos.

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Prefeito de Jaguaquara, Giuliano Martinelli afirma que não houve nenhum comunicado à Defesa Civil da cidade de consequências mais graves.

“Foi uma coisa atípica porque a gente nunca esteve acostumada com esses tremores. Muitas pessoas me ligaram dizendo que sentiram , mas não causou nenhum dano, foi discreto”, conta o prefeito.

Já em Mutuípe, epicentro do tremor, Martinelli disse que há registros de rachaduras em alguns imóveis. 

Em Cruz das Almas, a janela da casa de Lucas Oliveira também sacudiu. “Senti a janela tremer toda e um estrondo muito grande por uns cinco a 10 segundos. Depois fiquei sabendo que outras cidades aqui perto tiveram a mesma situação”, contou. 

Reprodução/Google Maps

apital tremeu
O tremor de terra foi percebido até mesmo na capital baiana, em pelo menos 16 bairros, como foi registrado pelas 22 pessoas que ligaram para a Defesa Civil de Salvador (Codesal).

Segundo a Codesal, não houve registro de ocorrências graves ou feridos. Foram três telefonemas do bairro de Daniel Lisboa, dois de Ondina, dois de Itapuã, três da Caixa D’água, um de Canabrava, um da Ribeira, um dos Barris um de Barreiras, um de Nazaré, um do Trobogy, um de Perrnambués, um de Mata Escura, um do Cabula, um do Cabula VI, um de Dom Avelar e um do Arenoso. 

A advogada Amanda Nobre, 23 anos, acordou com a cama “trepidando muito”, no bairro de Brotas. “Fiquei muito assustada porque nunca iria imaginar que era um terremoto. Fiquei pensando que alguma coisa tinha caído na cobertura, ou um prédio estava caindo ou alguma casa desabando ao redor e fez tremer o prédio. Tomei um susto” contou a advogada ao CORREIO. A duração foi de 20 a 30 segundos, segundo Amanda. 

O tremor foi sentido ainda por duas moradoras da Pituba, que sentiram a cama tremer no mesmo horário, por volta das 7h30 da manhã. “Eu acordei com isso e parecia que alguém estava pegando minha cama e balançando. Pensei que fosse meu cachorro. Não foi nada muito forte mas foi algo que nunca tinha sentido”, disse a estudante de direito Samia Salles, 22 anos. 

Situação semelhante aconteceu com a estudante de odontologia Beatriz Lima, 22 anos, que mora no décimo quinto andar. “Eu estava deitada na cama e senti como se tivesse algo embaixo de mim se mexendo no colchão. Achei que minha cama estivesse possuída”, 

A diretora do Instituto de Geociências da Ufba, a geóloga Olivia Oliveira, não descarta que o tremor possa acontecer novamente, mesmo o Brasil estando no centro de uma placa tectônica, a Sul-Americana.

“Mesmo o Brasil estando centralizado numa placa tectônica, [tremores de terra] são fenômenos naturais que sempre podem acontecer novamente e a gente não tem como prever com muita antecedência”, informa a pesquisadora. 

Veja abaixo nota que o Instituto divulgou sobre o ocorrido:

“Um terremoto de 4,6 na Escala Richter, seguido de menor magnitude, atingiu em 30/08/2020 a cidade de mutuípe/Bahia e foi sentido em várias cidades do interior do estado, e em alguns bairros de Salvador. 

Segundo a Rede Sismográfica Mundial, a profundidade do foco foi de 10 km. Por ser raso, o sismo ocasionou abalo com tremor notório em habitações, no entanto não têm atingido magnitude suficientes para ocasionar danos maiores. 

A região atingida se constitui em uma área sismogênica (propensa à ocorrência de sismos), cujos relatos de terremotos são descritos desde o início do século passado. As rochas da região possuem fraturas onde elas se movimentam umas em relação às outras. Como estas estruturas possuem grandes dimensões, mesmo movimentos de alguns centímetros, quando ocorrem, liberam muita energia. Essa energia é então transformada em vibração e som que são sentidos pela população. 

O Instituto de Geociências (IGEO) da UFBA e a Sociedade Brasileira de Geologia estão atentos à situação”.

*Sob orientação do chefe de reportagem Jorge Gauthier.

Fonte: Correio