Djamila defende que redes sociais devem ter equipes para conter ódio na internet

Alvo de sucessivos ataques nas redes sociais, a filósofa, feminista e escritora negra Djamila Ribeiro vem levantando uma discussão sobre o combate ao “Racismo Algorítmico”, dinâmica digital que ela observa como responsável por uma série de violências, sobretudo contra mulheres negras. Em live do CORREIO nesta sexta-feira (4), com a mediação da colunista Midiã Noelle, o jornal inaugurou o programa Conexões Negras, em que a filósofa defendeu a responsabilização das plataformas digitais no enfrentamento do ódio na internet. 

Temas recentes nas esferas de discussão e pesquisa, estes assuntos surgiram justo com a força ganhada pelas redes sociais em nossas vidas, mas Djamila aponta que o fato não é exatamente novo. Em toda história, sempre houve ataques de pessoas umas contra as outras. A diferença dos novos tempos é que a internet multiplica e amplifica as questões basicamente porque há mais gente lendo e falando.

“Todas as mulheres, sobretudo negras, que questionaram o sistema sofreram represálias, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro. Então, quando leio sobre os ataques que elas sofriam, eu vejo que é seguir em frente, não tem outra opção. Acho que temos que dizer que existe um ódio generalizado contra mulheres negras num país racista e misógino e, quando essas mulheres saem dos lugares que lhes são impostos, esse ódio todo é uma maneira de dizer voltem para os seus lugares”, expõe. 

Para superar os ataques à sua imagem e reputação, Djamila Ribeiro disse que se baseia na escuta da experiência de mulheres negras mais velhas, como as duas escritoras citadas e ainda socióloga norte-americana Patrícia Hill Collings e a psicóloga Grada Kilomba. Assim, aprendeu a deixar de gastar energia respondendo aos ataques e concentrando-se melhor em maturar os pensamentos e escrever suas publicações acadêmicas. 

Apesar de tentar seguir em frente, ela também encampa uma campanha para que as redes sociais parem de ser permissivas com o ódio e criem regras claras para coibir crimes e maus comportamentos.

“Chegou no limite de eu ficar sendo atacada e a minha filha receber ameaças, as pessoas perderam a noção e mentem na cara dura. Uma garota inventou que eu estava processando ela e as pessoas já não querem saber se é verdade, ninguém vai checar, passam tudo para a frente. […] As redes sociais permitem que isso aconteça. São empresas bilionárias e, se ganham bilhões, têm dinheiro para contratar pessoas [para combater essas práticas]”, relata. 

A filósofa comenta que as plataformas digitais estão lucrando com a exploração do racismo e da misoginia na medida em que ataques pessoais viralizam e anúncios publicitários ficam agregados às publicações. Djamila relatou ainda que costuma receber relatos de como tais dinâmicas têm levado consequências concretas à vida das pessoas, como mulheres que lhe contam que adoeceram mentalmente e mesmo desistiram do ativismo por não suportar as ondas de ataques.

Com o objetivo de romper com essas práticas, ela e a sua equipe de advogados entraram com uma representação no Ministério Público Federal (MPF) pedindo que o Twitter, em especial, pare de explorar o racismo e a misoginia e crie um fundo de combate à discriminação. Membro da Mahin, organização baiana de mulheres negras que apoia a causa, a socióloga Vilma Reis acredita que a ação de Djamila vai marcar a história ao levantar esse processo no país nesta campanha de solicitação de maior responsabilidade das plataformas.

“Esse ódio que se espalha nas redes tem custado muito para nós, mulheres negras, para a infância negra. Tem custado por todo esse desgaste, nossa energia para responder, para proteger lutas inteiras que são atacadas. Não é possível pensar um novo mundo, neste contexto da pandemia e pós-pandemia, sem uma ruptura com o racismo, o sexismo, com a lgbtfobia, com o desprezo do Norte do mundo em relação ao Sul do mundo. Muito do comportamento dessas corporações internacionais de comunicação e redes sociais tem a ver com esses mundos em confronto”, disse Reis.

ANOTE NA AGENDA

O programa Conexões Negras com Midiã Noelle acontecerá todas às sextas-feiras, às 18h, no Instagram @correio24horas. O mês de setembro já tem as participações confirmadas da promotora Livia Santanna Vaz, da cantora Paula Lima e da professora Nazaré Mota de Lima. Não perca.

Fonte: Correio