Um relato de como foi visto no hospital o caso da menina estuprada pelo tio

Vítima de estupro, a menina de 10 anos que teve a gravidez interrompida no mês passado foi alvo de comentários trocados pelo WhatsApp por um grupo de enfermeiros do Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes (Hucam), da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Horas depois de a criança ser atendida, a equipe de enfermagem discutiu, em mensagens, a decisão da unidade de não interromper aquela gestação.

O caso ganhou repercussão depois que a menina acusou o tio de violentá-la desde os 6 anos. A chefe da equipe de enfermagem que a atendeu em Vitória (ES) saiu em defesa do hospital, gerenciado por uma empresa privada, que se negou a realizar o aborto. Seus colegas e subordinados, porém, questionaram a negativa de atendimento.

“Antigamente, as meninas engravidavam nessa idade. Abortar com 24 semanas, sim, é outra violência”, afirmou no grupo de WhatsApp a enfermeira obstétrica Lilia Rubia Laranja, também mestre em enfermagem.

O Estadão teve acesso ao conjunto de mensagens trocadas pelos servidores, no último dia 15. Lilia estava de plantão na Hucam quando os assistentes sociais do município de São Mateus, no interior do Estado, chegaram com a vítima de estupro.

Referência em aborto legal, o hospital optou por não realizar o procedimento para interromper a gestação, conforme garante a Constituição, apesar da decisão da Justiça. Dessa forma, a criança precisou ser encaminhada para Pernambuco. O chefe da unidade de saúde onde houve o procedimento, Olímpio Barbosa de Morais Filho, disse que é uma “tortura” o Estado obrigar a manutenção da gravidez de uma mulher violentada.

Diante da negativa do Hucam, o Ministério Público Federal abriu uma investigação para apurar por que o hospital “não realizou a intervenção na gestação, mesmo diante de decisão judicial”. A direção do hospital foi convocada a dar explicações.

Nas conversas às quais o Estadão teve acesso, Lilia – que ocupa a função de enfermeira da Saúde da Mulher na área de Obstetrícia – apresenta uma série de justificativas aos colegas.

A enfermeira afirma que teve acesso à ultrassonografia abdominal da criança, realizada em 10 de agosto na cidade de São Mateus. De acordo com ela, o exame mostrava que a vítima de estupro tinha mais de 22 semanas de gestação.

Adoção

Nas mensagens, Lilia diz que seria “menos traumatizante” manter a gestação, sob o argumento de que o aborto, com 22 semanas de gravidez, seria “outra violência”. Na avaliação da enfermeira responsável pelo atendimento, a criança deveria prosseguir com a gestação e, por fim, “dispor o bebê à adoção”. Especialistas na área de saúde afirmam, por outro lado, que a gestação em crianças pequenas pode causar danos à saúde da criança.

As conversas foram trocadas um dia após a criança dar entrada no hospital. O grupo em questão é o “Enf obst, NEO e AM do ES”, que reúne profissionais de enfermagem daquela unidade.

Em entrevista ao Estadão, por telefone, a enfermeira disse que estava “apenas” expondo sua opinião num grupo. “Pelo que eu fiquei sabendo, ela não entrava no protocolo e se devia avaliar outro tipo de conduta. Era um grupo de enfermeiros conversando. Somos todos da mesma empresa, não tinha por que ter vazado, não é?”

Questionada sobre a conduta da equipe do hospital, Lilia insistiu que o protocolo da unidade estabelece que um procedimento de intervenção não deve ser feito após 22 semanas de gestação. “Sou enfermeira obstetra e falei a respeito de protocolo de abortamento legal. Eu fui em defesa da minha empresa. O hospital se negou em cima de protocolos”, afirmou ela.

Lilia disse que o Hospital Universitário é referência na área de aborto legal. Argumentou, porém, que muitos médicos, por causa de religião, se negam a realizar tais procedimentos.

A enfermeira disse que teve acesso aos dados do pré-natal da menina por meio dos assistentes sociais que levaram a vítima até o hospital. Depois de recepcionar a criança, o único contato que teve com ela foi no dia seguinte, durante visita, às 6 horas.

“As meninas (equipe de enfermagem) queriam fazer glicemia nela, porque ela estava muito nervosa. Eu disse para não fazer. Colocamos (a menina) numa enfermaria isolada. Ela não ficou com outras mulheres”, contou.

Segundo Lilia, os médicos de plantão “imaginavam que ela estava indo para um acompanhamento de pré-natal de alto risco”. “Eles não sabiam que ela estava indo para abortamento legal”, observou.

Ao negar que tenha vazado ou tido conhecimento de qualquer informação sobre divulgação dos dados da criança na internet, Lilia disse que os papéis passaram por muitas mãos. “Esses documentos dessa menina rodaram muito, não é? Vieram de São Mateus, foram entregues na recepção do hospital”.

Ela assegurou não ter sido procurada pela extremista Sara Giromini, mais conhecida como Sara Winter, que chegou a divulgar nas redes sociais o endereço do local onde seria feito o aborto da criança. “Nunca nem tinha ouvido nem falar dessa menina aí, dessa feminista, entendeu? Nem sou de nenhum grupo desses. Nem conhecia essa mocinha”.

O que diz o hospital

Por meio de nota, o Hucam informou que não tem conhecimento dessa troca de mensagens. “O hospital esclarece ainda que foi instaurado um processo de investigação a fim de apurar se ocorreu vazamento de dados do prontuário da paciente durante o período de sua hospitalização”, diz o comunicado.

O Hucam afirmou que já se colocou à disposição do Ministério Público Federal, bem como do Ministério Público Estadual, e tem prestado os “devidos esclarecimentos”. Sobre a negativa de realização do procedimento na criança, o hospital alegou que não possui as “condições necessárias para a realização de abortamento legal em estágios avançados de gestação, que inclui equipe especializada em medicina fetal, como era o caso da menina de 10 anos atendida no hospital no dia 14/08”. De acordo com a nota, “esse tipo de técnica não é utilizado no Hucam e em nenhum hospital do ES”.

 

Fonte: Agencia Brasil