'Brinco de casinha', diz cantora Rita Lee

Ela está vivendo nesse tal de confinamento, há oito anos, em um sítio na grande São Paulo, isolada de tudo e de todos. Brincar de casinha parece coisa de criança, mas se tornou ocupação de gente grande. Após passar 50 anos nos palcos, a cantora Rita Lee, hoje com 73 anos, se tornou profissional nesse negócio de ficar dentro de casa, depois que foi morar no meio do mato. Lugar de onde não pretende sair mais — a não ser que seja abduzida por um disco voador.

Vida sossegada, sombra, água fresca e uma prece para não quebrar nenhum dente. Aglomeração, só se for de animais  e plantas: são dois cachorros, três gatos, 30 carpas, três tartarugas d’água, cinco jabutis, macaquinhos, tucanos, maritacas e beija-flores. “Lavar louça é bom para meditar, arrumar gavetas idem. Eu cuido dos bichos, passo aspirador e brinco de casinha. Pago para não sair de casa”, afirma a cantora que já vivia isolada, mesmo antes de se falar no novo coronavírus. 

Entre uma demanda doméstica e outra, Rita Lee acaba de relançar pela Globinho, selo de literatura infanto-juvenil da Globo Livros, dois livros infantis. O lado escritora da artista revisitou  a série  Dr. Alex, coleção inicialmente lançada entre 1986 e 1992. Dr. Alex e os Reis de Angra e Dr. Alex e o Phantom ganharam novas ilustrações do artista visual Quihoma Isaac e do designer Guilherme Francini, respectivamente. 

As aventuras do cientista que se transformou em um ratinho protetor da natureza tem outros  dois volumes reeditados — Dr. Alex (2019) e Dr. Alex na Amazônia (2019). “Quanto antes a criançada conhecer tais calamidades verdadeiras, tanto melhor para desenvolverem o respeito à nossa  Mãe Terra”.

Rita Lee segue à frente do seu tempo e mais conectada do que nunca. Se tem um lugar onde ela marca presença, sem nem por o pé pra fora de casa, é o ambiente das redes sociais. No @litaree_real, onde acumula 471 mil seguidores, tem  #tbt, seja dia de quinta-feira ou não, e campanha para adoção de animais. “Darwin diz que não é o mais forte que sobrevive, é aquele que melhor se adapta às mudanças”, filosofa. 

Durante a pandemia, ela mudou a data do aniversário,  de 31 de dezembro para  22 de maio, dia de Santa Rita de Cássia. Ficar mais ainda em casa nos últimos meses já rendeu inspiração para um novo livro sobre 2020.  “É um livro dark”.

Aqui, a senhora ‘Roque Enrow’ fala mais de literatura, criatividade na pandemia e defende o isolamento dos que podem continuar na toca. Viver reclusa não incomoda. Chatice vai ser morrer desse “vírus vodu”. “Não seja bobo de sair sem necessidade, apenas para ‘bundar’ por aí”. 

Em que momento da sua vida Dr. Alex e o Phantom e Dr. Alex e os Reis de Angra foram escritos?  O que mudou de lá pra cá que a levou a dar um novo olhar a estas obras? 

Os quatro livrinhos do ratinho Alex são dos anos 80. Eram histórias que eu contava para meus filhos na hora de dormir e resolvi escrever, para que outras crianças também acompanhassem suas aventuras. Na época, não se falava muito sobre a causa dos animais, o perigo das usinas nucleares, ainda mais com crianças. A Globo Livros relançou Dr. Alex e o Phantom e Dr. Alex e os Reis de Angra agora por entender que tais temas são ainda mais atuais hoje. Tudo o que fiz foi revisar os textos. 

Em Dr. Alex e o Phantom, as novas ilustrações são do designer Guilherme Francini
(Imagem: Divulgação)

Por que escrever para crianças? Como anda a sua inspiração na quarentena?  

Porque são as crianças que vão herdar a Mãe Terra. A destruição dos reinos mineral, vegetal e animal é uma calamidade. Não podemos nos calar. Não é um assunto agradável. Temos que ensinar a criançada desde cedo a respeitar todas as formas de vida da Mãe Natureza.

Você é uma mulher da agitação e do rock e mudou a vida para o movimento oposto, sem plateia e com os bichos. Como é que se adquire esse estado de espírito e de que forma a preocupação com o meio ambiente contribuiu com o processo?   

A única bandeira que sempre carreguei é a da defesa dos animais. Passei 50 anos nos palcos, levando vida de cigana no mundo da música e foram tempos maravilhosos. Ralei muito para conseguir meu sonho de morar no meio do mato.

A gente está vivendo em um momento crucial para o meio ambiente. Numa analogia com o mundo real, os ‘sinistros’, vilões dos seus livros, seriam quem no Brasil atual? 

Sou do tempo do Getúlio, põe velha nisso. De lá para cá, só piora. Não é de agora que a Amazônia vem sendo estuprada.

Neste momento, o descaso e a ganância estão atingindo um patamar de tragédia com as queimadas. Ainda há a destruição do que resta da rica cultura indígena, a mineração ilegal e tantas outras barbaridades. Depois, reclamam que o mundo inteiro cobra uma atitude diante de tamanha destruição. O Brasil está péssimo na fita.

Com ilustrações do artista visual Quihoma Isaac, Dr. Alex e os Reis de Angra é mais um dos livros revisados por Rita Lee
(Imagem: Divulgação)

Que conselhos Dr. Alex daria para as crianças nestes tempos de pandemia? 

Dr. Alex aconselharia a arte da paciência e o aprendizado de adaptação aos novos ensinos virtuais. Para professores e alunos, não está nada fácil. Nem todos têm acesso à internet e a um computador, por exemplo.

Estar confinado em casa com crianças também é uma boa oportunidade para conversar sobre a falta de respeito dos humanos para com a Mãe Terra, que será herdada por elas.

Quanto antes ficarem sabendo dos assuntos trágicos que acontecem no Brasil e no mundo, mais estarão preparadas para entenderem o que não se deve fazer com a natureza.

Você também afirma que sempre foi considerada grupo de risco.  O que te levou a viver confinada antes mesmo do coronavírus?  Que ambiente é esse que vivemos hoje?  

Sempre fui grupo de risco. Veja você: soube recentemente, quando estávamos produzindo o livro favoRita, que sou a artista brasileira mais censurada na época da ditadura. Isso é ótimo para meu currículo (risos).

Há 8 anos, desde que deixei os palcos, estou praticamente em confinamento junto com Roberto (de Carvalho, marido e parceiro musical). Pago para não sair de casa, tenho um monte de assuntos caseiros a cuidar, trabalho não falta.

Antes da pandemia, eu ia ao supermercado, à loja de ração para meus bichos e ao dentista. Agora, compramos tudo pela internet e fico torcendo para não quebrar um dente. Darwin diz que não é o mais forte que sobrevive, é aquele que melhor se adapta às mudanças. Afinal, tudo no Universo é impermanente, não é mesmo?

Você já disse, algumas vezes, que em casa tem sempre muita coisa pra fazer. Que coisas são essas? Que hábitos mais sustentáveis, inclusive, passou a adotar neste momento?  

Para mim, que nunca consegui ser dona de casa full time, tem sido uma experiência diferente e interessante. Lavar louça é bom para meditar, arrumar gavetas, idem.

Roberto cuida do jardim, da horta e da cozinha, eu cuido dos bichos, passo aspirador e brinco de casinha. 

Numa entrevista recente a Serginho Groisman, você se classifica como ‘mulher louca, desvairada’. O que muda após oito anos de exilamento em casa? Você pretende transformar essa experiência em livro? 

Escrevi um livro de, mais ou menos, 200 páginas durante 2018, mas não quero lançá-lo por enquanto. Com tanto turbilhão que estamos passando, achei que talvez tenha ficado meio datado. No momento, escrevo outro sobre este 2020, enquanto está acontecendo a verdadeira grande guerra mundial, cujo inimigo é um vírus invisível. Escrevo também sobre a tristeza do descaso ambiental e social que assola nosso país. É um livro dark. 

Quais fenômenos tem observado na quarentena – terrenos e celestes – e o que a tem surpreendido além dos discos voadores? Por que você tem defendido que as pessoas fiquem em casa? 

Falando nisso, você já notou a quantidade de avistamentos de OVNIs no mundo inteiro durante essa pandemia? Somos uma raça híbrida, metade celeste e metade terráquea, nossos pais das estrelas nos observam desde o princípio de tudo. E já foi provado que com a abertura do comércio em países que liberaram geral, pode vir uma nova onda de contaminados.

Saia apenas quando necessário. Não seja bobo de sair sem necessidade, apenas para bundar por aí.

Agradeça você que tem um lugar para morar, para não ser contaminado e nem contaminar outros, quando há muita gente que não tem casa, nem saneamento básico, nem emprego e muito menos acesso a hospitais.

Quando os humanos reclamam do confinamento, basta lembrar que animais estão presos em jaulas nos zoológicos do mundo inteiro, vivendo para sempre longe de seus habitats, numa realidade horrível apenas para “entreter” pessoas. Quem puder, continue em casa. 

‘Hoje, faço tudo pela internet e rezo para não quebrar um dente’, escreveu à Veja. Sempre foi conectada com seu tempo? Na sua opinião, o que é necessário ser dito para as crianças hoje para termos a geração do futuro que o mundo precisa? E qual o papel do seu livro, nesse sentido? 

Criança sabe quando adultos dizem a verdade. Conte e mostre a elas o fogo criminoso que está matando milhares de árvores. Mostre que os bichos têm sentimentos e sofrem como nós, eles não são objetos. Dr. Alex é um ratinho fofo, mas muito sério no que diz respeito à preservação da Natureza. Quanto antes a criançada conhecer tais calamidades verdadeiras, tanto melhor para desenvolverem o respeito aos diversos reinos que compõem nossa Nave Mãe Terra. 

QUEM É 
Rita Lee  começou sua carreira na década de 60 fazendo muito rock no Brasil, quando tocar guitarra era visto como uma coisa de  homem. A cantora paulista é uma das principais referências do rock nacional. Além de cantora, compositora  e multi-instrumentista é também autora de livros infantis (série Dr. Alex, reeditada em 2019/ 2020 e Amiga Ursa, uma história triste, mas com final feliz, 2019). Escreveu sua própria biografia (Rita Lee: uma auto-
biografia, 2016) e tem também publicado um livro de contos (Storynhas, 2013), entre outras obras. 

DR. ALEX E OS REIS DE ANGRA

(Imagem: Divulgação)

O livro conta a história da princesa Angra, que foi sequestrada por malvados que querem acabar com a natureza e construir perigosas usinas nucleares. O ratinho Alex e seus amigos telepáticos embarcam em uma missão apara impedir que o pior aconteça.

Ilustrações: Quihoma Isaac 
Preço: R$ 48
Páginas:   32 

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DR. ALEX E O PHANTOM

(Imagem: Divulgação)

Dr. Alex e o Oráculo de Quartz (1992) ganhou novo nome nesta revisão: Dr. Alex e o Phantom. Na história, Rita Lee é vovó Ritinha que conta mais uma aventura do ratinho Alex em busca do cristal Phantom, uma pedra mágica, única no mundo.

Ilustrações:  Guilherme Francini 
Preço:  R$ 48
Páginas:  32 
 

Fonte: Correio