Tremores de terra na Bahia e as incertezas da natureza

Os conceitos da geologia e da tectônica de placas são pouco difundidos entre a população, e quando fenômenos geológicos acontecem as pessoas ficam assustadas. A ideia de que em nosso país não tem terremotos não passa de um mito. O que se sabe é que o Brasil está situado na Placa Sul-Americana, que por sua vez está localizada entre a Placa Africana e a Placa de Nasca (onde ocorre a Cordilheira dos Andes). Entre a placa Sul-Americana e Africana tem a Cadeia Meso-Atlântica.

É na Cadeia Meso-Altântica que ocorre o nascimento de uma nova crosta, o que provoca uma compressão, ou seja, nosso território está submetido a esforços compressivos dos dois lados. Ao longo de milhares de anos, este conjunto de processos geológicos pode levar a uma fragilização da placa tectônica na transição do continente para o oceano, o que pode levar a uma fragmentação e fazer com que uma placa deslize por baixo da outra, dando início a um processo geológico chamado de subducção.

Este processo é extremamente lento (milhões de anos) e responsável pela ocorrência de 90% dos terremotos e vulcanismos em nosso planeta. Muitas são as hipóteses que podem ser apresentadas para os tremores de terra na Bahia, mas as reais causas ainda são desconhecidas da ciência e qualquer afirmação é um palpite.

Por ora, novos tremores podem ocorrer, mas, com baixas magnitudes que muitas vezes nem são sentidos pela população e não causam nenhum tipo de dano a grandes estruturas. Mas é preciso ficar atento. Vamos ter que conviver com os tremores! Além disso, o Brasil e, por consequência, a Bahia, está longe dos limites da placa tectônica, onde ocorrem terremotos de altas magnitudes. Mas isso, por si só, não descarta a possibilidade de tremores mais altos em nosso território.

Os dados disponíveis apontam para ocorrência de 19 tremores em 2020 e tantos outros nas mais variadas regiões da Bahia e do Brasil. Entretanto, os tremores de 4.2 mR registrados na região de Amargosa foi de fato o maior dos últimos 30 anos na Bahia.

Por enquanto, a população não deve se preocupar com terremotos, pois abalos de magnitude mais altas não são recorrentes em nosso território. Sendo assim, investir em precaução de terremotos em um país não recorrente é muito caro. O Brasil deve se preocupar mais com as enchentes, com as contaminações em barragens de rejeitos, lixões e com os deslizamentos de terra. Por fim, investir em pesquisas científicas sobre esse tema se faz cada vez mais necessário, uma vez que seguir e prever os terremotos tem sido um grande desafio para comunidade científica.

Carlos Victor Rios da Silva Filho é geólogo e doutor em Geologia Econômica e Prospecção

Fonte: Correio