Carta para meu espelho

Ei, você, esqueceu quem és? Por que está parado aí, aqui ou ali? Chegamos ao nono mês de 2020, quarto mês de quarentena na Bahia e um pouco mais de pandemia no mundo. Passou tudo tão rápido e eu ainda não fiz nada. O vírus lá fora, e como nós estamos aqui dentro?

Meu querido espelho, olho-te e já não enxergo o verde nos teus olhos. É como se tivesse um grande desmatamento, queimada, ceifando sua pureza; essa extração ilegal queima vossos olhos, não é mesmo? “Intonce”, como já dizia Luiz Gonzaga, “quando o verde dos teus olhos se espalhar na plantação, eu te asseguro, não chore não, viu! Eu voltarei (…)”. Quando voltarmos, meu querido, será que nossa ocular contemplará a produção do verde natural?

Ah, meu transparente amigo, vejo através de ti os pequeninos barcos “cortar maré” e naquele generoso balançar de suas ondas, um compasso perfeito e harmonioso do pescador e barco a bailar, sem um mundo de banhistas que, outrora, ao invés de flores, lançavam sacolas e garrafas ao mar. Espelho, espelho meu, hoje sou eu que estou em silêncio ou os pássaros que estão cantando mais alto? Esse medo, essa angústia, ansiedade que está hoje por mim sendo ouvida, foi por  que quem parou fui eu?

Meu querido reflexo, já estou saciado de comida, bebida, da casa, NASA e das informações. Cada uma delas chegam mais pesadas que as gorduras das minhas emoções. Hoje, o céu está bonito e nem me lembrava que tinha tanta cor; quem colocou tantas luzes nele fazendo-o parecer pisca-pisca, se o Natal ainda nem chegou? Nunca houve tanto tempo para não fazer nada, justo agora que tenho tanta vontade de fazer tudo. Me responda uma coisa: tivemos as doenças suína, aviária e bovina, seria essa a humanitária?

Querido, eu que repeti tudo que digo. São tantas perguntas que lhe faço e nada responde. Parece que tu, juntamente com meu cachorro e o gato, estão debochando de minha não-presença nesta existência. No vai e vem de um lado para o outro, sem medo de ser feliz e de tempos em tempos, recebo uma roçada, lambida carinhosamente provocativa, como se me dissesse: “eu posso lamber e abraçar, você não! Cuida da casa que volto já”.

Você, que reflete minha imagem, lembra-te que o florescer começa de dentro para fora até germinar. Hoje, este terreno está fraco. O que falta fertilizar aí dentro para florescer? Nós temos sede de água limpa e temos pressa para dizer, “minha natureza agradece! ”

 Ubiraci Pataxó é palestrante, educador, terapeuta, massoterapeuta, aprendiz de pajé. Graduado em Ciências da Natureza e Matemática, possui Licenciatura Intercultural Indígena pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia. Também é formado em Terapia Comunitária Integrativa (TCI), Massoterapia e Técnico em resgate da autoestima pela Universidade Federal do Ceará.

Fonte: Correio