Divórcio na mesa: preço do arroz aumenta 9,05% em agosto e pode se separar do feijão

A combinação mais comum na mesa dos brasileiros, arroz e feijão, está à beira de um  divórcio. O rompimento, constatam os consumidores, é culpa do arroz, que aumentou 9,05% apenas no mês de agosto aqui na Bahia – a alta anual (janeiro a agosto) é de 22,5%, segundo a última pesquisa sobre a variação do custo da cesta básica feita pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Se antes o valor do arroz nas prateleiras era, em média, R$ 2,50/kg, agora os baianos têm de desembolsar entre R$ 3,69 e R$ 6,00 pela mesma quantidade. Se for integral, piorou: o CORREIO encontrou pacote de R$ 7,98/kg em um supermercado da Pituba. O aumento do cereal  também foi visto em outras 15 das 17 capitais do Brasil analisadas pelo Dieese.

Decepcionados, consumidores começam a incentivar que  feijão e macarrão se conheçam melhor. Inclusive, já foi encomendada uma campanha publicitária para que o grão case-se com a massa italiana, conforme declarou o presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), João Sanzovo Neto, ao sair, na quarta (9/9) de uma reunião com o presidente da República Jair Bolsonaro  em Brasília. Bolsonaro convocou Sanzovo Neto pois, preocupado, quer entender o que está se passando com o arroz.  

Uma dessas consumidoras é a dona de casa Araci Gonçalves. “Não como nada sem arroz e continuo comprando. Mas depois que teve essa subida de preço, estou começando a substituir pelo macarrão, porque tá mais acessível”, admitiu. Já funcionária pública aposentada  Ângela Araújo preferiu nem colocar o produto no carrinho de compras. “Não comprei por causa do preço e ainda tenho um pouco em casa. Vou esperar uma semana para ver se baixa”, explicou, ainda esperançosa na reconciliação

Tânia Maria, também aposentada, relata ter ficado “pasma” com o aumento do valor. Ela estava no mercado comprando alimentos para doar uma cesta básica à comunidade onde mora. “Como é que pode aumentar tanto sem o salário mínimo aumentar e o auxílio do governo diminuir? Fica difícil.”, reclamou. Por outro lado, há quem nem tenha notado o climão, “Senti aumento do queijo, da carne, mas não do arroz”, pontuou o administrador Ralf Macêdo.  

E é difícil mesmo notar que feijão e arroz podem não dividir mais a mesma gôndola ou corredor do supermercado. O  estudo do Dieese mostra crescimento nos preços de outros seis alimentos no mês passado: banana (18,87%), leite e óleo (10,21%), carne bovina (7,40%), pão francês (9,78%), café (2,31%) e manteiga (0,26%). Por conta desses principais vilões,  Salvador foi a capital brasileira onde a cesta básica mais subiu  este ano, alta de   16,15% acumulada em 8 meses.

O administrador Ralf Macêdo não sentiu o aumento do preço do arroz, mas de outros produtos
Foto: Marcela Villar/CORREIO)

Motivos e perspectivas

A alta do arroz é explicada principalmente pela alta do dólar em relação ao real, que fez com que os produtores brasileiros vissem a oportunidade de exportar mais o produto. “O Brasil tem exportado mais, está mais vantajoso para o produtor brasileiro, e isso tem afetado a oferta interna”, explica a supervisora técnica do escritório do Dieese na Bahia, Ana Georgina Dias. Ela  esclarece ainda que o governo já não tem mais estoque para regular o preço no país por conta da pandemia. “O governo adquiria uma parte da safra  dos produtos ligados à cesta básica e, no momento que estavam mais escassos, eles colocavam estoques reguladores. Mas hoje isso não existe mais”.  

Para controlar as escapulidas de preços do arroz,  o governo federal zerou, anteontem (9/9), a tarifa de importação do arroz – que era de 12% – até 31 de dezembro de 2020. A ideia é reabastecer o mercado interno e assim deixar o valor do cereal mais próximo do custo do feijão, forçando uma reaproximação do casal preferido das mesas brasileiras. O efeito, no entanto, não será imediato, segundo Ana Georgina, até por conta do alto valor de câmbio em dólar. 

O vendedor de cereais Roberto Ventura viu que o preço iria subir e resolveu fazer o próprio estoque na loja, que fica na feira de São Joaquim. Com isso, ele só aumentou R$ 0,50 o quilo do produto. “ A gente estocou 1 tonelada de arroz antes da pandemia, antes da inflação. Por mais que o preço esteja tabelado no mercado, a gente conseguiu sugerir um preço justo para o cliente”, disse. Ventura, que vende o quilo de arroz por R$ 3. 

O produtor Maurício Mondo, presidente da Associação Catarinense dos Produtores de Sementes de Arroz (ACPSA), explicou que a produção nacional deste ano não mudou. Por ano, o Brasil produz de 11 a 12 milhões de toneladas de arroz e consome cerca de 10 a 11 milhões de toneladas do grão. “A produção foi normal e essa situação de aumento de preço é por uma conjuntura. Fizemos bastante exportação no primeiro semestre, o fator dólar impediu a importação de produtos de outros países e o consumo interno aumentou”, explicou.

Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE), o abastecimento de arroz na Bahia vem de estados do Sul do país, como Santa Catarina. 

8 alimentos que mais aumentaram de preço na Bahia em agosto:
Arroz 9,05% 
Banana 18,87%
Leite integral 10,21%  
Óleo de soja 10,21%  
Pão francês 9,78% 
Carne bovina 7,40%
Café em pó 2,31% 
Manteiga 0,26%
Fonte: Dieese

Aumento anual: 
Arroz 22,5% 
Banana 22,28%
Leite  15,85%
Feijão  12,85%
Óleo de soja  23,38%
Carne bovina 18,97%
Pão  francês  8,35%
Café  -8,10% 
Manteiga -0,65% 
Fonte: Dieese

Preço do arroz tipo 1 (saco de 30kg) de acordo com tabela do Ceasa – Fonte: SDE/GOVBA
9 de setembro 2020 – R$ 130,00 
02 de setembro 2020 – R$ 110,00 a 120,00
03 de agosto 2020 – R$ 100,00
01 de julho 2020 – R$ 100,00
01 junho de 2020 – R$ 95,00 
04 de maio de 2020 – R$ 85,00 a 90,00
01 de abril de 2020 – R$ 85,00
02 de março 2020 – R$ 80,00 
3 de fevereiro – R$ 75,00 a 78,00

*Sob orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

Fonte: Correio