Conservar é preciso

Os políticos movem-se pela criação de uma boa imagem e pela realização de novos marcos administrativos. Por isso preferem sempre fazer coisas novas, deixando até – muitas vezes criminosamente – de dar continuidade a projetos em andamento. Está no DNA da atividade e o povo espera isto em resposta ao voto que deu na última eleição. É uma conquista que tem que ser renovada a cada quatro anos. Com reeleição então, isto é fundamental. 

Conservar o que existe é, no entanto, tão importante quanto fazer coisas novas, ainda que a população não tenha aprendido a avaliar bem essa questão. O fato é que é mais barato conservar e manter do que reconstruir, restaurar ou refazer. É uma economia para a sociedade. O segredo está em saber balancear adequadamente as duas coisas. De resto, não há nada que um bom marketing não saiba explicar e vender. É o caso – aliás muito frequente – do prefeito que assume a prefeitura depois de derrotar o grupo (não direi sequer partido) adversário que estava no Poder. Então ele denuncia a situação de terra arrasada e anuncia que vai reconstruir a cidade. Quantas vezes já ouvimos este discurso?  

Manter o que já existe situa-se no âmbito do que chamamos de manutenção urbana e é uma atividade feita cotidianamente, todos os dias do ano, às vezes de modo desapercebido até por quem faz. Trata-se de varrer as ruas, trocar as lâmpadas queimadas, tapar os buracos na pavimentação, cortar a grama, conservar os jardins, manter desentupidas as bocas-de-lobo, conservar a sinalização de trânsito, cuidar do mobiliário urbano, tapar as goteiras nos prédios públicos, desobstruir os canais de drenagem, recuperar as escadarias, limpar o cemitério, retirar entulho, coletar o lixo, podar árvores, etc. etc. etc. É uma lista infindável de itens. A este conjunto de atividades se atribui a denominação de zeladoria urbana e constitui uma das mais importantes atividades de uma prefeitura. 

Geralmente as prefeituras costumam manter a atividade de manutenção sob o mesmo guarda-chuva da área de obras ou de infraestrutura. Isto é um equívoco, porque as obras, as coisas novas, terminam ocupando e absorvendo toda a capacidade instalada – técnica, operacional, administrativa e financeira – escanteando a manutenção urbana. É preciso dar identidade e visibilidade à manutenção urbana, organizando-a adequadamente. 

Na medida em que as cidades crescem, essas atividades ganham escala e complexidade, requerendo ainda mais cuidado e atenção, requerendo pessoal especializado, estrutura dedicada, prestadoras de serviços contratadas, equipamentos apropriados, recursos financeiros suficientes. Nesses casos, convém que seja criada uma secretaria específica, tal a importância de que se reveste. É evidente que isto não se aplica a cidades de menor porte, onde a existência de duas estruturas oneraria o custo da máquina administrativa sem resultados significativos. Mas ainda assim impõe-se destacar internamente uma área dedicada exclusivamente à manutenção. 

Do mesmo modo, as edificações públicas merecem uma atenção diferenciada. Prédios administrativos, mas sobretudo unidades operacionais, que têm grande intensidade de uso, como escolas, unidades de saúde, serviços assistências, equipamentos culturais, quadras esportivas etc. precisam de manutenção frequente e continuada, para evitar que se degradem e deteriorem.   

A manutenção costuma ser também uma grande aliada da Defesa Civil, evitando problemas como desabamentos, alagamentos, inundações, escorregamentos de terra e outros deste tipo, tão comuns nas nossas cidades.  

Para que a cidade não precise estar sendo sempre reconstruída – e até para não dar discurso ao adversário – é importante que o Prefeito cuide da sua manutenção. A cidade é extensão da casa de cada um dos seus moradores. Manter a cidade é a mesma coisa que cuidar de uma casa, só que em outra escala. E é tarefa do Prefeito. 

Waldeck Ornélas é especialista em planejamento urbano-regional.

 

Fonte: Correio