Uma lista bem mamparra das gírias da Chapada Diamantina

As palavras podem falar ainda além do que dizem em real significado. Os termos têm suas próprias histórias, quase sempre deixadas de lado pela funcionalidade antes do primeiro lampejo de Sol da madrugada.

Ano passado, o amigo Alan Daniel passou a morar em Lençóis, na Chapada Diamantina, e arrancou risos coletivos apresentando uma nova expressão: mamparra.

“Você vai fazer isso aí de mamparra, né?”, disse, antes do começo da zombaria.

Em seguida, completou. “Quando vim morar aqui, achava que mamparra era gíria. Mas aí bateu a curiosidade e procuramos no dicionário. Ela realmente existe”.

Sim, existe. Ele explicou que quer dizer fazer algo com preguiça. Sem muito esmero, ou cuidado. O famoso “espinha-mole”.

Numa pesquisa, assim meio mamparra, ainda supus uma hipótese de origem. Se for verdade o que diz o Google (só ingênuos acreditam piamente no que leem na internet), a palavra em questão seria originária do interior de Minas Gerais.

Em 1844, em Mucugê, foram encontrados os primeiros diamantes na Chapada, iniciando um superpovoamento nas cidades da região. Mineradores, aventureiros, garimpeiros e escravizados abriram picadas e cruzaram fronteiras até o recém-descoberto Eldorado de carbono.

Minas Gerais havia sido um polo de ouro de aluvião até o fim do século XVIII. O sonho do enriquecimento a partir das pedras valiosas alimentava o imaginário coletivo daquela gente, que se mudou para o lado de cá em busca das novas jazidas.

Lençóis chegou a ter 25 mil habitantes no auge do ciclo – mais de duas vezes mais do que a cidade tem hoje, em 2020. Na bagagem dos aventureiros, além das picaretas e pás, vieram as novas palavras, rapidamente incorporadas na oralidade.

No contexto da escravidão, dá pra imaginar a mamparra também como uma esquiva ao trabalho manual. Fazer algo de mamparra era, para o negro, uma forma de resistência à labuta forçada. Uma forma de completar a tarefa exigida, fugir dos castigos físicos, mas longe de buscar qualquer primor.

Lençóis (Foto: Ronaldo Silva/GOVBA)

Novos ventos
Outra palavrinha muito comum usada em Lençóis é cruviana. Quando os ventos frios sopram da Serra do Espinhaço ou do Morro do Pai Inácio e arrepiam braços na cidade, é comum o suspiro: “eita, bateu uma cruviana”.

Assim como mamparra, a palavra é de um português mais antigo e também consta no dicionário. Quer dizer “vento frio”.  Outra muito comum é “digitório”. Que, também presente nos verbetes, significa uma ajuda, uma pequena doação a quem precisa.

“Pode ser usada de muitas formas. Você oferece um lanche pra pessoa e diz que é um digitório antes do almoço”, brincam os nativos.

Mas nem todas as gírias e expressões da Chapada estão catalogadas no Pai dos Burros. Algumas, inclusive, têm amplos significados. É o caso de “oxe, não?”, que precisa ser dita com uma pronúncia muito específica.

Pra explicar essa, dá pra imaginar o seguinte diálogo. “Vai pra festa hoje?”, perguntaria alguém. “Oxe, não?”, seria a resposta indicando que sim, mesmo com uma negativa.

Vale do Capão no São João de 2019 (Foto: João Gabriel Galdea)

No Capão, distrito pertencente a cidade de Palmeiras, as expressões ganham curiosas misturas internacionais.

Embora a região seja um vale cercado por duas serras, é a imagem bíblica de uma torre (de Babel) que ajuda a entender tantas expressões diferentes. Atualmente, o distrito tem 1.800 habitantes — dos quais, estima-se que 30% sejam de estrangeiros (primacialmente argentinos, italianos e franceses).

“Aqui é comum umas expressões como ‘nossa, moço, pero no mucho’. Essa mistura de sotaques e línguas é muito forte por aqui”, diz Deise Pereira, professora de português no Capão.

Há, inclusive, um movimento para organizar um dicionário de gírias e expressões próprias do Capão e suas consequências diretas na oralidade. Enquanto o projeto não sai, essa lista tenta na mamparra atender esse espaço.

[Esta coluna é dedicada a Alan Daniel, Cássio Moreno e Lavinie Eloah. Amigos de aventura e compaixão].

Fonte: Correio