Seis meses de saudade: futebol baiano completa um semestre sem torcida

Nesta semana fez seis meses que Bahia e Vitória não jogam com a presença da torcida. A última vez que isso aconteceu no estado foi em 15 de março, quando o Leão goleou o River por 4×1, no Barradão, pela 7ª rodada da Copa do Nordeste, e no mesmo dia perdeu com o time de aspirantes para o Jacuipense por 1×0, pelo Baiano, no estádio Eliel Martins, em Riachão do Jacuípe.

Na ocasião, 6.247 torcedores pagantes viram de perto Thiago Carleto, Léo Ceará, Alisson Farias e Matheus Tenório balançarem a rede – Luccas Brasil descontou. Enquanto isso, em Riachão, 1.737 foram ver o time da casa ganhar com gol de Thiaguinho.

Já para o Bahia, a saudade de ter o torcedor pertinho é um pouco maior. O último jogo do Esquadrão com público foi uma semana antes. No dia 7 de março, 29.304 torcedores acompanharam a rodada dupla na Fonte Nova que teve triunfo sobre o Confiança, por 1×0, na 6ª rodada do Nordestão, e empate por 0x0 entre a equipe de aspirantes e o Doce Mel, pelo Campeonato Baiano.

Na rodada seguinte do Nordestão, o Bahia venceu o América-RN, por 2×0, na Arena das Dunas, em Natal, em partida disputada com portões fechados devido a uma punição imposta ao time potiguar.

As partidas contra o River, no Barradão, e América-RN, na Arena das Dunas, foram as últimas da dupla Ba-Vi antes da suspensão dos campeonatos em função da pandemia. Desde que a bola voltou a rolar nos gramados baianos, em 21 de julho, os jogos têm sido realizados sem público por questões de segurança.

Vitória x River foi o último jogo com torcida em Salvador; jogadores já se cumprimentavam com os cotovelos
(Foto: Letícia Martins/EC Vitória)

Seis meses depois de a normalidade ter ido embora, os alto-falantes do Barradão  até tentam, mas é impossível substituir o calor humano de quem ama o vermelho e preto. O coro de “Nêgo” que ecoa das caixas de som durante os jogos não preenche o vazio na arquibancada. “É um sentimento estranho. A torcida lá dentro é empolgante e empurra nosso time. Sentimos falta dela”, afirma o volante Guilherme Rend.

Titular absoluto na atual temporada, Rend entrou em campo com a camisa do Vitória apenas 22 vezes, mas tem sentimento semelhante ao de quem já carregou o manto em quase 200 partidas. “É desconfortável e realmente fora dos padrões, até pelo fato de que o atleta joga para a torcida, e não tê-la nesse ambiente muda até o panorama do jogo”, afirma o zagueiro Wallace.

Do lado tricolor, o pensamento é o mesmo. Acostumado com a vibração do torcedor na arquibancada, o atacante Gilberto diz que sente falta do apoio. “Em se tratando da torcida do Bahia, a festa que fazia, a força que trazia, não tem como não dizer que é ruim para a equipe”, diz o camisa 9. 

O silêncio até facilita para ouvir orientação do treinador, mas, acostumado com pressão, Wallace comenta sobre um certo ‘clima de treino’ valendo três pontos. “Fica um pouco monótono em certos momentos, porque a gente está acostumado a estar com espectador, mas você tem que lutar até contra essa sensação de marasmo que o jogo às vezes pode causar devido à falta de torcedor. Acho que ao longo dos jogos todo mundo tem se adaptado bem”, pontua.
 
Já Rend tem sensação diferente. “As instruções são passadas e ouvidas com mais facilidade, o que facilita a vida da equipe dentro de campo, mas não acho que fica com cara de treino. Quando se veste o manto, a coisa fica mais séria”.

Do outro lado nesse aspecto, o técnico Mano Menezes é mais um a lamentar a ausência da torcida na arquibancada. Recém-chegado ao Bahia, ele vai ter que esperar o mundo voltar ao normal para conhecer de perto a torcida tricolor.

“O torcedor no estádio cria um ambiente diferente. Por mais que você tente suprir a falta dele, deixa uma lacuna importante. Eu diria que falta a coisa mais importante do futebol. É a razão pela qual você joga, luta pelo resultado positivo. O torcedor estando distante, mesmo você sabendo que ele está acompanhando, é diferente”, analisa o treinador.

É melhor para o visitante?

Wallace e Guilherme Rend também divergem um pouco quando o assunto é jogo fora de casa. Ficou mais fácil por causa da ausência de torcida adversária? 

“Depende da equipe. Se ela é empurrada pela torcida, se tem isso como característica, realmente facilita um pouco. Agora, se é uma equipe que não tem muita tradição de encher o estádio, acaba que deixa o jogo mais tranquilo. Botando na balança, acho que a dificuldade é a mesma”, opina Wallace. “Achei que ficou mais fácil, tem menos pressão e, com isso, iguala muito a partida”, declara Rend.

Já na visão de Élber, do Bahia, as arquibancadas vazias têm deixado o jogo mais equilibrado para os visitantes. “A torcida, apesar de não entrar em campo, faz a diferença. No nosso caso faz muita diferença porque ela é o nosso 12º jogador, nos empurra do começo ao fim. Como não pode ter torcedor, isso equilibra um pouco. O que muda um pouco é a questão do gramado, que pode ser um ponto de vantagem para quem joga em casa. Fora isso, iguala tudo”, analisa.

Ainda sem previsão de retorno da torcida, a dupla Ba-Vi não joga neste fim de semana e só volta aos campos dia 26: o Bahia visita o Athletico-PR pela Série A, e o Vitória recebe o Oeste, pela B.

O impacto nas finanças

A ausência de torcida nas arquibancadas do Barradão e Pituaçu – local em que o Bahia tem mandado os jogos -, interfere negativamente nas finanças dos dois principais clubes do estado.
 
De acordo com o Vitória, o valor que costumava ser arrecadado com a compra avulsa de ingresso não gerou grande impacto nos cofres, mas a queda no número de associados sim.

Nem as promoções lançadas em meados de junho, que oferecem de descontos nas mensalidades a sorteios para encontros com jogadores e dirigentes, conseguiram evitar a desassociação. Antes da pandemia, o Vitória tinha quase 14 mil sócios. Atualmente há pouco mais de 9 mil. A redução de 36% no quadro representa quase R$ 400 mil a menos no orçamento mensal do Leão, que tem um custo médio de R$ 20 mil por jogo com o estádio. 

O presidente Paulo Carneiro está suspenso e, no momento, não pode responder oficialmente pela instituição. Porém, a avaliação da diretoria rubro-negra é de que o êxodo do torcedor se deu porque o perfil do plano de sócios era muito voltado para o acesso ao estádio em dias de jogos, algo que vem sendo transformado, por exemplo, com o aumento de ofertas no clube de vantagens. Antes da pandemia, eram em torno de 20 parceiros ativos. Hoje são 60. A ideia é minimizar a influência do ingresso na decisão de se associar. O Sou Mais Vitória oferece sete opções de planos, com mensalisade entre R$ 30 e R$ 240. 

O Bahia também segue calculando prejuízos. A bilheteria do tricolor é composta pela venda avulsa de ingressos para as partidas mais as mensalidades pagas pelos sócios com direito ao acesso garantido aos jogos. Além disso, o clube recebe percentual do que é consumido nos bares do estádio. 

A partir do mês de abril, após a paralisação do calendário por causa da pandemia do novo coronavírus, o Esquadrão viu a receita com a venda de ingressos e consumos despencar para zero. Levando em consideração o primeiro semestre do ano passado, o prejuízo de bilheteria e estádio foi de cerca de R$ 3 milhões, de acordo com os dados publicados no balancete do clube.

Fora isso, o Bahia também viu o número de associados cair. Em março, o clube contava com 40 mil contribuintes adimplentes. Agora, o número beira a casa dos 30 mil. Mesmo assim, nesse quesito o tricolor conseguiu apresentar ganho na receita.

Na comparação com o primeiro semestre do ano passado, a receita de sócios saltou de R$ 8 milhões para R$ 14 milhões. O pulo de 75% na arrecadação foi possível graças a estratégias de marketing e vantagens lançadas para incentivar o sócio a se manter em dia. Além disso, sem jogos na Fonte Nova, o tricolor fez acordo com o estádio e não tem repassado parte da receita com sócios de acesso garantido aos jogos.

Vitória fez promoção para torcedor colocar seu rosto em um boneco na arquibancada do Barradão
(Foto: Reprodução)

Previsão de volta

Ainda não há previsão de retorno da torcida ao estádio em Salvador nem no interior. No Rio de Janeiro, a prefeitura autorizou, na sexta-feira (17), a volta aos jogos no Maracanã a partir de outubro, com no máximo 20 mil pessoas. È um ensaio para na sequência permitir torcedores nos outros estádios da cidade – Vasco e Botafogo utilizam São Januário e Engenhão.

Nos bastidores, há uma movimentação de dirigentes dos times da Série A para que isso ocorra em todo país. A CBF, que até então tinha novembro como meta e pretendia fazer esse retorno simultâneo para que não haja benefício técnico a uns times em detrimento de outros, enviou um estudo ao governo federal já cogitando outubro. No entanto, a decisão final caberá a estados e municípios.

Fonte: Correio