Baianas de acarajé recebem doações em dinheiro, cestas básicas e até tabuleiro novo

Lili Almeida (direita) abraça dona Celísia no momento da doação (Foto: Divulgação)

Dona Celísia era uma baiana de acarajé sem tabuleiro. Na verdade, o bichinho sequer aguentava ficar mais de pé: “Tinha que amarrar na barraca do lado e forrar com fita adesiva para segurar. Decidi que não ia trabalhar mais com ele”. Eis que, no sábado passado (12), o CORREIO publicou uma reportagem mostrando a situação difícil de dez baianas, as que mais estão passando necessidade nessa pandemia. Celísia, que também trata um câncer de mama e acumula boletos de luz e água, era uma delas.

Após a matéria, a vida de Celísia Santos da Silva, 54 anos, começou a mudar. A cozinheira e pesquisadora Lili Almeida (@a.lilialmeida) se sensibilizou com a situação. Lili, que hoje tem seu próprio restaurante e é especialista em culinária afro-brasileira, guardava um tabuleiro novinho no estabelecimento. Neste domingo (20), foi até a casa de Celísia entregar a doação, que sob encomenda chega a custar entre R$ 700 e R$ 900.

“Quando surgiu a oportunidade de fazer eventos como baiana de acarajé, comprei um tabuleiro. De uns tempos pra cá abri meu próprio espaço. Cheguei à conclusão de que não iria mais usar. Guardei o tabuleiro para um dia doar. Quando vi a história de Celísia, não tive dúvidas”, conta Lili.

“Não tenho como pagar a vocês essa ajuda! Só Deus. Meu tabuleiro tá prestes a despencar. Agora recebi essa notícia. Pense como eu estou de felicidade. O tabuleiro está novo, novo. É uma grande benção”, disse Celísia, que monta tabuleiro no Largo de Roma e também recebeu depósitos em dinheiro que somam R$235. É que o CORREIO disponibilizou as contas bancárias das dez baianas de acarajé que estão mais endividadas. Clique aqui para ver a lista e ajudar.

Celísia vinha colecionando boletos e, até este domingo, estava com a luz cortada. O mais importante, diz a baiana, é poder voltar a trabalhar. Com o tabuleiro e o pouco de material que vai comprar para botar a guia na rua, logo, logo vai fritar os bolinhos: “Vou poder trabalhar e fazer um dinheirinho. Estou tão feliz!”.

Consciente da crise causada pela pandemia, além da escassez e alta do preço do dendê, Lili convoca outras pessoas a ajudar: “O que eu fiz não é nada. O tabuleiro estava parado. Estou realmente preocupada com a situação delas. Se para mim, que tenho um restaurante, o preço do balde de dendê está absurdo, eu não sei como elas estão conseguindo se virar. Pra mim a baiana é patrimônio, sei como essa luta se construiu”.

Alívio

A maioria das outras nove baianas de acarajé também recebeu doações. Andrea Damasceno é uma das mais aliviadas com a campanha. Com uma história de vida extremamente trágica, sensibilizou os leitores. Andrea, que vive do acarajé que vende na praia da Boa Viagem, perdeu os dois filhos assassinados, um deles durante a pandemia.

Recebeu até agora cerca de R$ 2,5 mil em doações, entre depósitos em dinheiro e mantimentos, além de fraldas e alimentos para os dois netos órfãos. “Estou muito agradecida. Tenho que ser forte para trabalhar e cuidar dos meus netos”, diz Andrea, que, apesar da reabertura das praias, ainda não pode montar tabuleiro no local, onde a prefeitura ainda não liberou qualquer tipo de comércio.

Mesma situação de Sandra Batista, que vende na praia do Bogari, na Ribeira. Ela recebeu depósitos de R$ 500 em doações. Mesmo que haja liberação das praias, Sandra tem receio de retornar ao seu antigo ponto porque faz parte do grupo de risco. Além disso, cuida do marido doente e sem renda.

A alternativa é colocar o seu tabuleiro na porta de casa, mas ela confessa que as coisas estão difíceis. “O valor do acarajé dentro do bairro não é o mesmo que o praticado nas praias. Os ingredientes estão cada vez mais caros e por isso o lucro da baiana está bem reduzido quando comparado ao que conseguia vender há seis meses”.

Sueli Bispo, 44 anos, recebeu R$ 560 em doações. Agora tem um dinheirinho para investir em materiais e voltar a vender no novo Largo das Baianas, em Amaralina. “Ali a prefeitura exige tabuleiro do modelo novo e eu ainda não tenho”. Angelice Batista recebeu R$440 em doações. “Paguei as contas de água e luz  e comprei comida”, diz Angelice, que ainda não voltou a trabalhar porque não tem dinheiro para comprar materiais.

Além disso, Angelice teve o quiosque arrombado e danificado durante a pandemia. O marido, com diabetes, teve a perna amputada. “A retomada para o trabalho está difícil, mas vou tentar arrumar esse quiosque e comprar material para o acarajé”.  Dona Jacira, do IAPI, recebeu R$ 230 em doações e precisa de mais ajuda para tratar um lupus. Dona Bárbara, que monta tabuleiro em Stella Maris, recebeu R$ 160. Ainda há contas a pagar. O marido sofreu um acidente, teve três fraturas no rosto e não pode trabalhar.

No caso de Dulce Mary, que vendia na Praça da Sé, houve um depósito de R$ 150. Ainda é pouco para ela, que está tentando sobreviver vendendo panos de prato. Entre as dez baianas escolhidas pelo CORREIO, ainda há algumas que não receberam doações. Dona Nelmar, que vendia acarajé em Itapuã, enfrenta um câncer no pescoço e está impossibilitada de trabalhar. Por enquanto, recebeu apenas cestas básicas distribuídas pela Associação de Baianas de Acarajé (Abam), mas não tem dinheiro para pagar as contas de luz e água. Da mesma forma dona Tânia, que está impossibilitada de trabalhar porque monta tabuleiro em um clube.

Cole com as baianas

No início de agosto, o CORREIO abraçou a causa e deu início à campanha #colecomasbaianas. Com a pandemia, a maioria delas, mais de 2 mil somente em Salvador, deixou de vender suas iguarias nos fins de tarde. Iniciamos, então, um projeto que engloba grandes reportagens sobre o acarajé e ações para ajudar as baianas através de doações imediatas. Até agora foram arrecadados quase R$ 15 mil. Todo o dinheiro tem sido usado para comprar cestas básicas e pagar contas da Abam.

Depois de meses de aperto em meio a pandemia, 100 baianas de acarajé tiveram um alívio importante. Isso porque elas receberam, na quinta-feira (20), cestas básicas com alimentos e itens de higiene que estavam faltando na mesa de quem tira o sustento do tabuleiro. A crise atual é tida como nunca vista antes por profissionais com até 50 anos de trabalho preparando acarajé, abará e outras iguarias comercializadas nas famosas e, agora, ausentes barracas de acarajé espalhadas por Salvador e pela Bahia. 

No dia 21 de agosto, 100 cestas básicas foram distribuídas, 74 delas para baianas de acarajé que vivem em Madre de Deus e Feira de Santana. Segundo Rita Santos, presidente da Abam, as baianas de fora da capital foram as primeiras a ser beneficiadas por terem sido as mais afetadas durante a pandemia. Além disso, recebem menos auxílio dos órgãos públicos.

“Do interior, temos os mais tristes relatos das baianas. Lá, a ajuda das prefeituras e do governo é inexistente. Aqui, as baianas licenciadas receberam o auxílio da Prefeitura que é um retorno da taxa que elas pagam e certamente é uma ajuda bem valiosa em um período como esse. Falo com segurança que as baianas do interior estão em uma situação de mais urgência”, declara. As 650 baianas licenciadas receberam R$ 270 da gestão municipal de Salvador.

A Secretaria Municipal de Cultura também ofereceu mais 200 cestas básicas distribuídas entre as baianas da capital. Já a Solar Coca-Cola, segunda maior fabricante do sistema Coca-Cola do país, distribuiu 400 kits-tabuleiro, com 5 litros de azeite de dendê, 5 kg de massa de acarajé, 2kg de camarão, castanha, amendoim, envelope para acarajé, quatro pacotes de Coca-Cola, uma caixa de álcool em gel e instruções de higiene. “Veio tudo para gente botar a primeira guia para voltar a trabalhar. Pra mim, que tava sem material para trabalhar, foi ótimo”, conta dona Celísia.

Exposição, prêmio e aplicativo buscam ajudar baianas

Algumas empresas estão se movimentando para melhorar a vida desse patrimônio imaterial que são as baianas de acarajé. A empresa de tecnologia Food Tec, especializada em micro empreendedores do mercado de alimentos, busca três iniciativas ao mesmo tempo. A mais importante delas é a criação de um aplicativo exclusivo para entrega delivery de acarajés e os outros produtos das baianas.

Leiaute do aplicativo que já está em funcionamento (Foto: Reprodução)

O Tabuleiro da Baiana já está funcionando, apesar de em fase de testes. A plataforma não serve apenas para entregas, mas também para baianos e turistas terem acesso a informações e localização de, nesse primeiro momento, 500 vendedoras do bolinho. “Não somos como o Ifood. O objetivo é mais turístico. Disponibilizamos telefone e endereço. Acredito que vá ajudar muito na retomada delas”, afirma Alexandre Powell, um dos sócios da empresa.  

A segunda iniciativa é fazer uma exposição de fotografias em um shopping. As imagens do fotógrafo Ricardo Sena seriam vendidas em um leilão e o dinheiro revertido para a Abam. A ideia é que a exposição seja realizada entre os meses de outubro e novembro.

A Food Tec também pretende realizar o Prêmio Tabuleiro da Baiana 2020, uma espécie de Comida de Boteco das baianas de acarajé. “A ideia é premiar quem tem os melhores produtos do tabuleiro, mas também melhor atendimento, melhor caracterização. É tipo um Oscar das baianas”. O prêmio pode ser financeiro ou em produtos. “Estamos captando patrocínio”, afirma Alexandre. A primeira etapa do prêmio seria realizada na Internet através do aplicativo.      

A pandemia segue e muitas baianas continuam impossibilitadas de exercer o seu trabalho e gerar renda para suas famílias. Por isso, cole com as baianas e ajude depositando qualquer quantia na seguinte conta bancária para que as doações sejam revertidas em cestas básicas.

ABAM – Associação Nacional das Baianas de Acarajé, Mingau, Beiju  e Similares.
Caixa Econômica Federal
Código Operação: 003
Ag.: 4802 
Conta corrente: 000056-1
CNPJ: 02561067000120

Fonte: Correio