Consumo de cigarros no Brasil aumenta na pandemia e falta remédio contra o uso

Antes da pandemia de Covid-19, a diarista Leidiane Neto, 26, passava o dia fora de casa fazendo faxinas e só no final do expediente fumava um ou dois cigarros, hábito que tem desde a adolescência. Mas vieram o isolamento social, o ócio e o estresse da falta de trabalho e, agora, ela consome um maço diariamente. “Se deixar, eu fumo até dois maços. O cigarro me acalma”, conta. A situação do músico Adolpho Ghirotto, 24, é parecida: “Eu vi o vídeo do Dráuzio Varella falando para não fumar e bastante gente começou a fazer esse esforço, mas acabei ficando com o psicológico bem frágil e, quando percebi, estava fumando dois maços por dia”. 

Nos primeiros meses da pandemia, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) já apontava um aumento no consumo de cigarros durante a crise. Em uma pesquisa que ouviu pouco mais de 45 mil pessoas em todo o Brasil, 34% dos fumantes declararam que aumentaram o consumo de cigarro, enquanto 12,1% disseram ter diminuído. Ao mesmo tempo, um impasse regulatório causa um desabastecimento de um dos principais medicamentos contra o tabagismo no país. 

O produtor de eventos Victor Araújo, 33, está entre quem conseguiu deixar o vício nos últimos meses. Com tempo para refletir sobre a própria saúde e medo de contrair Covid-19 e ter complicações por ser fumante, ele contabiliza 23 semanas sem cigarro, tendo fumado 166 maços a menos e deixado de gastar R$ 1.624, conforme registra em um aplicativo. “Comecei a observar meu corpo, meu sono, meu cheiro, a ver que não sentia o gosto das coisas e tive que parar de fumar”, relata. 

A médica Jaqueline Scholz, coordenadora de ações relativas ao tabagismo da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), pontua que ainda não existem dados definitivos sobre o aumento ou diminuição do consumo de cigarros no Brasil durante toda a pandemia, mas que tem se deparado com os dois lados. 

“Drogas em geral aliviam o sofrimento humano, mas trazem problemas. A pandemia é um momento de grande estresse  e medo, então isso faz com que a saúde mental das pessoas vá para o espaço. O subterfúgio delas são as drogas, então aumentam o consumo. Por outro lado, há aqueles que viram na pandemia uma oportunidade de mudança. Quem procurou tratamento nesse período teve uma motivação a mais”, detalha, lembrando que fumantes estão no grupo de risco da Covid-19. 

No Reino Unido, um número recorde de pessoas declara que parou de fumar neste ano. Foram cerca de 1 milhão de cidadãos abandonando os cigarros, segundo uma pesquisa da University College London (UCL). “É difícil traçar um paralelo com o Brasil, porque a condição de vida é outra. No Brasil, são as pessoas mais pobres que fumam mais e que mais sofreram na pandemia”, pondera Scholz. 

A diminuição de festas e outros eventos não contribui para a diminuição dos fumantes, ela destaca: “Para quem fuma por prazer nessas situações, o gatilho não é o estresse. Quem é dependente fuma durante a ansiedade”. 

Remédio utilizado no tratamento do tabagismo está em desabastecimento no Brasil

“Dá para parar de fumar sem medicamento, mas é uma luta mais difícil. Parar sem medicação causa crise de abstinência, ansiedade e irritabilidade”, diz o cardiologista Augusto Vilela, que também tem notado alta na busca de pacientes que desejam eliminar o cigarro da rotina na pandemia. 

Um dos principais remédios utilizados para o combate ao tabagismo é o Champix, produzido pela farmacêutica Pfizer. Desde o primeiro semestre deste ano, porém, ele está em falta nas farmácias brasileiras por um problema na regulação da fabricação e importação do produto, que vem da Alemanha. Segundo a empresa, a regulação fica a cargo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) apoiam que a Anvisa permita a importação emergencial dos comprimidos durante a pandemia. A reportagem questionou a agência se isso é possível e aguarda retorno. 

A médica Jaqueline Scholz, da SBC, relata que o tratamento com o remédio ficava em torno de R$ 1.000 antes da pandemia, mas, agora, quando ele é encontrado, aumenta em 50%. Em Belo Horizonte, ele não é disponibilizado pelo SUS. Para quem utilizava o medicamento ou tinha intenção de utilizar, Scholz destaca que alternativas terapêuticas, como os adesivos de nicotina, aliadas a acompanhamento médico, também podem ser utilizados. 

Como procurar ajuda para tratar o tabagismo

A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) oferece tratamento gratuito por meio do Programa Municipal de Controle do Tabagismo. Durante a pandemia, as sessões de tratamento estão ocorrendo por chamada de vídeo, em grupos de no máximo dez participantes, com apoio de profissionais de saúde como médicos e psicólogos. Cada sessão dura cerca de 90 minutos — no primeiro mês, são semanais, passando para quinzenais no segundo e mensais, do terceiro ao sexto mês de tratamento.

A PBH também disponibiliza medicação e adesivos de nicotina a quem deseja parar de fumar. Para participar do projeto, é necessário buscar um dos 152 centros de saúde da capital

Na capital, os encontros do Grupo Independência, de Fumantes Anônimos, também voltaram a ocorrer em setembro, segundo um dos representantes. Com capacidade reduzida de participantes, o grupo se reúne às terças, das 18h30 às 20h, na rua Guarani, 597, no Centro, sem necessidade de inscrição prévia. 

Para facilitar a solução de dúvidas sobre tabagismo na pandemia, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) lançou um chatbot, disponível no site da instituição, que dá orientações sobre o tema.  

Fonte: Agencia Brasil