Só vou apostando! Mania de desafios pelo interior vai da corrida de rua à eleitoral

Só vou apostando! Manias de desafios pelo interior vão da corrida de rua à eleitoral

Imagem: Reprodução

2020 já garantiu o título de ano mais imprevisível da História. A três meses de acabar o que nem parece ter começado, ainda me inventam de meter uma eleição no meio, que nas leis do interior da Bahia, já pressupõe montagens de mesas de apostas sobre quais candidatos vão se dar bem (ou mal). Mas como prever o que vem num cenário tão sem sentido?

O nível de inconstância é tão grande que eu apostaria 5 reais no meu amigo Rodrigo Pereira como futuro prefeito de Salvador. Ele de fato é meu amigo (dos tempos de igreja! Casou com estes tempos aleatórios), e mais fato ainda que seja candidato a chefe do Executivo, embora você provavelmente não o conheça…

E não vai ser hoje, porque tirei o dia pra contar histórias curiosas relacionadas a apostas no interior, incluindo um cara que põe grana confiando no comportamento de moscas de bar, e um outro sacana que colocou a companheira como prêmio, confiando em seu alegado faro para o resultado das urnas.

Corre-corre
O tema se jogou em minha frente a partir de três chamados nos últimos dias: um deles, no dia 30, quando uma decisão do STF tirou o monopólio da União para manter jogos lotéricos, mas isso é chatão. Esqueçam.

A segunda convocação partiu de imagens de aglomeração no interior, por conta do início das campanhas eleitorais: me perguntava ‘por que diacho no interior as eleições pegam fogo e na capital é algo tão sem graça?’ Um especialista explica as discrepâncias no rodapé desta coluna, porque agora vem a terceira tentação ao tema das apostas interioranas: uma corrida que ‘parou’ uma cidade.

Foi em Mairi, município de 20 mil habitantes no centro-norte do estado, que os jovens Dayhô Dourado e Nathan Oliveira resolveram casar duas onças pintadas numa corrida de cerca de 5 km, no contorno da cidade.

O acordo foi selado na quinta-feira (24), com a picula marcada já para o dia seguinte e, após a informação correr o WhatsApp, pessoas que eles nem tinham intimidade tavam apostando muitas fichas em um ou no outro.

“Nathan chamou pra apostar R$ 50, eu e ele. Meu irmão, confiando em mim, apostou R$ 300. Teve um rapaz de um povoado que apostou R$ 200, e mais um monte de gente… Por baixo, a corrida movimentou uns R$ 2 mil”, contou o estudante Dayhô, 20 anos.

Infelizmente, nosso amigo não levou a melhor dessa vez, por questões físicas e mentais. “Eu passei por uma cirurgia há 9 anos. Nunca tinha sentido essa dor (no local), e acho que foi psicológico. Muita gente apostou em mim, e o povo de moto passava gritando ‘vai perder, vai ganhar’, influenciou”, reconhece Dayhô, que, quando menino, passou por cinco cirurgias entre estômago e intestino.

Mosca no alvo
Enquanto a gente aguarda a revanche em Mairi, bora dar um pulo em Santa Bárbara, onde meu primo Niverton Lima conhece alguns dos mais ousados e intrigantes apostadores de ocasião.

Os nomes serão ocultados, mas suas proezas expostas, como no caso desse apostador de beira de estrada: “Quando não tinha nada pra fazer, ele sentava no ponto de ônibus e buscava alguém pra apostar as marcas de carro que mais passavam pra Feira ou pra Serrinha. Se era Volks, Fiat ou Chevrolet”, cita Pó, como meu primo é conhecido.

Na poeira ficou essa atitude diante da que segue: “Tinha um que sentava numa mesa de bar e ficava olhando… Marcava um lugar (com giz ou o que tivesse), dava 5 minutos e dizia que se sentasse uma mosca naquele espaço de tempo, ele ganhava; se não sentasse, ele perdia”, e normalmente, talvez usando moscas adestradas, vencia.

Erro de cálculo
A algumas dezenas de quilômetros da Terra Santa, numa cidade que não cabe dizer o nome, outra suposta aposta maluca rendeu fofocas durante anos. A ‘lenda’ era que determinado e distinto senhor, pré-candidato a cargo político, “apostou a própria esposa numa eleição”.

“A aposta dele foi com um outro candidato (a cargo público). Se o cara conseguisse se eleger, coisa que ele duvidava, ele ‘cedia’ a própria mulher. Se o cara não vencesse, ficava condicionado a apoiá-lo na eleição seguinte”, conta uma fonte anônima, que garante ser uma “fofoca de domínio público”.

Ela supõe que a situação era de comum acordo com a ‘parte’ posta em jogo, mas nada certo.

“Certo é que, após a posse, o candidato eleito passou a ter encontros com a mulher, chegando ‘a cidade toda’ a comentar dos locais que a aposta estava sendo paga”, conclui, aos risos, a fonte, uma advogada/jornalista que conhece os envolvidos de perto.

A história é cabeluda e bem complicada (com o máximo de detalhes censurados), mas é massa porque tem um desfecho bem bacana e improvável: o apostador fracassado acabou perdendo também a companheira, tempos depois, e, ironia do destino, foi ela quem acabou eleita a um cargo público em eleição posterior. 

Confiança
Embora o tiro do bróder tenha saído pela culatra, o mercado de apostas nas eleições é bastante vantajoso, especialmente para quem sabe usar como promoção de candidato e tática de desestabilização de adversários. É o que conta um comunicador e assessor parlamentar, que já trabalhou em diversas campanhas políticas pelo interior.

“Tem gente que aposta carro, casa, cavalo, a porra toda. Quando você faz uma aposta alta dessa, cria um fato político na cidade, principalmente em cidade pequena. ‘Olha, o fazendeiro rico apostou a picape dele com o outro lá, dizendo que o candidato dele vai ganhar’. Isso corre os quatro cantos da cidade rapidamente”, comenta o comunicador, citando ainda o aspecto psicológico de apostar dando votos de frente.

“Nesse caso, é para assustar o adversário, mostrar confiança. E o outro lado, se tiver com pesquisa, empolgado, também aposta, e o bicho pega. Mesmo se perder a eleição, com diferença pouca, é motivo de aposta”, continua o ‘especialista’, antes de detalhar os tipos mais comuns de fé no palpite.

“Além do que dá votos de frente, tem o clássico, de dizer quem ganha a eleição; tem também as apostas dos vereadores, tanto o mais votado, quanto quem vai preencher as cadeiras. E aí eu já vi proposta de carro, casa, valores altos, R$ 10 mil pra cima”.

Interior em chamas
Mas por que essa efervescência eleitoral não se dá na capital? Por que só o interior pega fogo nesse período? Fui buscar respostas com o sociólogo Leonardo Nascimento, professor e coordenador do Laboratório de Humanidades Digitais da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

Passeata do prefeito de Riachão do Jacuípe e candidato a reeleição Zé Filho teve aglomeração e gente sem máscara

Aglomeração durante campanha eleitoral em Riachão do Jacuípe, no sertão baiano (Foto: Reprodução)

Para ele, a experiência interiorana, de viver a política de maneira tão intensa, é explicada, em partes, pela escala menor de pessoas numa determinada área. “As disputas de poder nos grupos menores é muito mais nítida. É com seu vizinho, é a disputa entre famílias que às vezes tem uma fazenda do lado da outra, existe uma proximidade maior, um corpo a corpo maior, que nas grandes cidades a gente não percebe”, exemplifica Nascimento, que tem pesquisas na área política.

“Nas cidades pequenas, a eleição define, praticamente, o destino de muitas pessoas, que ‘vivem da prefeitura’. Tem os que vivem por ter cargos, mas não só isso. Existe todo um sistema de lojas, de farmácias, de comércios de material de construção, venda de comida, que depende dessa conformação de poder que vai se estabelecer nos próximos quatro anos… Por exemplo, se tem dois postos de gasolina, e um pertence a um grupo político e outro pertence ao oposto, a prefeitura só vai comprar em um. Então, a disputa de prefeito, em resumo, é vital para a sobrevivência econômica de determinados grupos”, aposta o especialista. 

Fonte: Correio