Sobre "machíneos fofíneos" e "masculinidade saudável"

Em primeiro lugar, quero dizer que nada tenho a ver com os processos mentais dos outros, constelações de famílias alheias e grupos de autoajuda baseados nas vozes da cabeça de quem for. A liberdade é rainha e eu não tô aqui pra resolver como cada um cuida da própria vidinha. Inclusive sei que ninguém é obrigado a nada, a não ser pela força da lei. Também os “machíneos fofíneos” são livres e assim devem permanecer. Que façam suas cirandas masculinas, cerimônias dos testículos sagrados e pratiquem o acolhimento dos irmãos machucados pela vida, com liberdade. Tá de boa. Inclusive, se todos unirem as respirações num só ritmo silencioso em vez de ficarem gritando “golllll, pohaaaaa” no meu ouvido, vou até dizer “gratiluz” em som alto e claro. Beijo no coração, namastê. Tá relax, não sou eu que vou atrapalhar a good vibe de ninguém e nem tocaria nesse assunto se não tivesse sido convocada.

Mas fui. As dez dicas (de um homem) sobre como fazer sexo oral em mulheres foi um claríssimo chamado. Apareceu na minha TL e não vou aqui nem fazer a linha do “lugar de fala” porque o buraco é mais embaixo. Tive que ir lá no post e explicar (educadamente) que não existe “a xoxota” modelo universal. O que há é uma infinidade de xoxotas pessoais e intransferíveis. Sendo assim, nem eu – que sou mulher cis – poderia falar sobre como a xoxota de uma companheira deve ser tocada. Que dirá ele que nem xoxota tem. Eu sei que a intenção era ótima (dicas fofas e carinhosas), mas precisei lembrar ao rapaz que a cada pepeca corresponde uma mulher que, minimamente no que diz respeito ao seu próprio prazer, deve ser consultada. Também disse a ele a verdade: se alguém seguisse as dez dicas dele, ao se relacionar com a minha xoxota, eu dormiria… entediada. Mas aí já foi minha Vênus em Áries fazendo maldade. Podia ter pulado essa parte.

Bom, a partir desse dia, não pude mais evitar. Foi caminho sem volta perceber e acompanhar o surgimento dessa “casta”: os homens heterossexuais “de masculinidade saudável”. E não sei de onde tiraram essa definição de “saúde”, mas eu tô toda uma véia fofoqueira franzindo a boca e pensando: enfim, só mais uma presepada de macho. E presepada é até um adjetivo “fofíneo” pra tratar, por exemplo, de um post no qual o rapaz confessa uma punheta de 15 anos atrás, pensando em outro cara. Tipo assim, pra ser saudável, sabe? Olhe, me deixe. Fotos de homens chorando também são abundantes assim como os bróderes oferecendo colo e dizendo uma ruma de “eu te amo”. Ah, tá. Massa.

(Um súbito encontro com a fragilidade que sempre tiveram, mas só perceberam agora. Pouquinho atrasados, né?)

Eu queria muito achar que tudo isso não é apenas cobertura de chantilly, azeitona, cerejinha pra enganar otária. Mas, aos 46 anos, o que grita é materialidade. Poderia ser só problema deles, mas como uma parte é a nós direcionada, a discussão me cabe. Então tô pensando aqui se, na relação entre gêneros, vem alguma coisa boa ou se é só mesmo relaxar nas contas pagas pela gata, dividir os produtos de beleza, metaforizar ciclo menstrual (eu vi com meus próprios olhos: tem homem dizendo que tem TPM, chamando de Tempo Para Mim, é mole?) e seguir ganhando espaço com as mulheres cansadas do “homem hétero tradicional”. As mais inexperientes, claro. Porque quem conhece homem MESMO, já tá com os buços de molho em água com bastante sabão.

Cá, a conversa é outra, papá. Quero saber o seguinte: enquanto gravam os vídeos pro insta, quem prepara o ranguinho vegano d’ocês? Mamãe tá bem, obrigada? Ou continua ela mesma limpando seu chão? Filhotes com pensão em dia, responsabilidades divididas, tudo dentro dos critérios de igualdade e divisão justa de funções? A cueca continua indo freada pro cesto de roupa suja recolhido pela empregada ou tá rolando revisão de posturas também nessas relações? Tá entendendo que é ombro a ombro ou se joga na casa da namorada, como se não houvesse amanhã, e no fim do mês não divide as contas porque, né… sei lá, ela não falou nada. Tá ligado nas piadas? Tá sabendo que a novinha é “de menor”? Faz aquela sustentação oral de responsa, nos eventos de família, defendendo igualdade, diante do tiozão? Lava prato, binho? Cozinha? Tem dividido a carga emocional da família com as tias, irmãs, primas e mãe? E os seus idosos? Tá cuidando de algum?

Isso, só pra começar, inclusive. Porque é lindo chorar e acolher os irmãos, mas a estrada de reparação é longa e meus biscoitos acabaram. Não trabalhamos mais com elogiar o básico, muito menos com aplausos pra quem descobriu onde fica o clitóris, 2020 anos depois. Espero que sejam só preliminares, esses movimentos aí. Tipo ensaio, sabe? E que dê tempo de, na relação entre gêneros, em algum momento o “macho saudável” olhar para o que, neles, nos violenta e mata. Não sei se já perceberam, mas já foi o tempo em que a falta de orgasmos (compartilhados) era uma grande questão. Produzimos os nossos. Fartos. O que não dá mais é pra cuidar do mundo, sem ajuda, e ainda morrer por “legítima defesa da honra” ou “crime passional”. Tá dado o recado. É “masculinidade saudável” que vocês querem? Sugiro buscar, primeiro, a dignidade de dividir certas cargas e combater, no front, a toxicidade dos seus iguais. Isso é sério e urgente. Sendo assim, apenas deixem de frescura e venham para a vida prática. Estamos esperando. E já bem cansadas.

(Evidentemente, há os homens – normalmente bem menos “performáticos” – que, sim, têm trabalhado pela equidade. A estes, toda a minha brodagem)
 

Fonte: Correio