Queimadas no Pantanal põem em risco espécies de primatas já ameaçadas

A onda de queimadas que assola o país, além de causar os piores incêndios já registrados no Pantanal, está causando estragos severos na zona de transição entre a Amazônia e o cerrado, área naturalmente mais seca e cada vez mais vulnerável às mudanças climáticas. Espécies ameaçadas de primatas, como o macaco-aranha-de-cara-branca (Ateles marginatus), já foram vistas fugindo da mata em chamas.

“A situação no entorno do Parque Indígena do Xingu, em especial no interflúvio (região entre rios) Teles Pires-Xingu, está calamitosa”, diz Gustavo Canale, pesquisador da Universidade Federal de Mato Grosso e atual presidente da Sociedade Brasileira de Primatologia. “Tivemos uma leve melhorada por causa de algumas pancadas de chuva, mas a verdade é que o Arco do Desmatamento está inteiro incendiando. Chegamos a ficar cinco dias sem ver o Sol.”

As idas a campo realizadas por Canale e seus colegas no município de Sinop (MT) mostraram que, embora as árvores mais altas ainda estejam de pé, os incêndios transformaram grandes áreas do sub-bosque (as camadas mais baixas da vegetação) em terra arrasada. “Você anda pelas trilhas por dois, três quilômetros e vê que o fogo entrou pro dentro do sub-bosque queimando tudo”, conta ele.

Segundo o biólogo, é possível sentir cheiro de carne queimada dentro da floresta, e moradores relatam ter visto animais mortos pelo fogo.
“Mas a maior preocupação é a alta probabilidade de fome para muitas dessas espécies nos próximos meses. Temos uma grande diversidade de primatas na região, por exemplo, e eles podem até ter se refugiado no dossel (as árvores mais altas da mata), mas são bichos que procuram alimento numa área bem mais ampla, que começa no chão da mata, capturando pequenos animais, ovos de passarinho, frutos etc. Boa parte disso foi embora.” A equipe teve até de auxiliar um assentamento do município, cheio de construções de madeira, para controlar o fogo que estava se aproximando do local.

Com o apoio do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (ligado ao Instituto Chico Mendes) e da WCS (Sociedade de Conservação da Vida Selvagem, na sigla em inglês), o pesquisador e seus colegas devem iniciar em breve um projeto para mapear melhor os efeitos do fogo sobre alguns dos macacos mais ameaçados da Amazônia, lista que inclui animais como o cuxiú-preto (Chiropotes satanas) e o caiarara (Cebus kaapori), bem como o macaco-aranha-de-cara-branca. “São espécies carismáticas, importantíssimas como bandeiras para a preservação dos ambientes onde elas estão.”

No caso do macaco-aranha, outro elemento-chave da pesquisa, segundo Canale, será a interação dos biólogos com os indígenas da etnia ikpeng, do Xingu. O grupo costuma consumir a carne do primata em rituais de passagem e deve colaborar com os cientistas na busca de formas sustentáveis de captura. O contato com os povos nativos da região, além disso, tem reforçado a preocupação dos pesquisadores com o efeito da crise climática sobre a área.

“Volta e meia eles nos dizem: no tempo do meu avô, a seca durava quatro meses e o tempo das chuvas durava oito, agora são seis meses de chuva e seis de seca”, exemplifica o biólogo. Os modelos computacionais que tentam estimar o clima ao longo deste século apontam que a zona de transição da Amazônia é a mais vulnerável à chamada savanização, ou seja, a transformação da antiga floresta numa forma empobrecida do cerrado. Os incêndios poderiam acelerar esse processo e, ao mesmo tempo, ser estimulados por ele. “O nosso medo é que aqui esse ponto de virada já tenha acontecido.”

Fonte: Agencia Brasil