Harmonização facial, lente de contato nos dentes e gente com cara de filtro de Instagram

Está cada dia mais igual. Todo mundo. Harmonização fácil, lente de contato, sorrisos perfeitos, gente com cara de filtro de Instagram e personagens retorcendo paredes com aplicativos para aparecer com corpos perfeitos nas redes sociais. Nada contra a quem busca ficar bem com a sua própria imagem. É um direito. Existem bons profissionais da área. Responsáveis. Oferecendo os seus serviços que estão disponíveis para quem quiser pagar pelo procedimento. Justo. 
Eu, por exemplo, já tive vontade de fazer tudo isso que citei. Melhorar o meu sorriso. Harmonizar meu cabelo com as minhas bochechas. Afilar o meu nariz. Perder a papada. Consertar o que veio torto. Alinhar o que saiu dos trilhos. Emagrecer com fórmulas, chás e milagres, já que só de escutar a palavra academia já fico com preguiça. Essa última, claro, é necessária não só para saúde física, como também para saúde mental, mas não estou aqui pra fazer panfletagem e nem sou membro dos “testemunhas do Crossfit”. 

O que ando refletindo ultimamente é sobre um medo particular. Um medo que me visita quase sempre, quando rolo distraído os perfis do Instagram. Um medo quando vejo gente que considero bonita se transformar em uma outra pessoa através de procedimentos estéticos e harmonizações das mais diversas variedades. 
De novo, repito: cada um faz da sua vida o que achar melhor. Somos donos dos nossos próprios corpos e das nossas vontades. E do dinheiro que paga isso tudo. Só que tem um detalhe, que talvez você não tenha percebido ainda: Tem ficado todo mundo muito igual ou é impressão minha? Os sorrisos retos e reluzentes, as bochechas perfeitas, os rostos quadrados, os lábios carnudos e em alguns casos mais específicos, com uma voz de pato. 

Eu fico preocupando com o caminho que estamos seguindo. A vida, de repente, pode virar um loop infinito de filtros de Instagram. Todo mundo exibindo as suas perfeições em stories de quinze segundos e só. Nada mais do que isso. E quando ficar todo mundo igual, onde estará o charme das imperfeições que encanta? Os detalhes únicos de cada um? Aquilo que torna você especial? 

Eu fico tentando, confesso, mas não quero me render. Toda vez que me olho no espelho me reconheço como um humano que nasceu para ser exatamente aquilo que é. Acho bonita essa coisa meio doida no corpo da gente, sabe? Cada um tem um seu. Cada um faz o que quiser com o seu corpo. Aplica o que quiser nos seus lábios. Harmoniza do jeito que achar melhor o seu rosto. É legal se sentir bem, mas eu particularmente acho ainda mais legal se sentir real. 

Pessoas reais me encantam profundamente. O sorriso desarmonizado do meu melhor amigo, a bochecha grande da minha professora, o rostinho redondo do meu tio Paulo. Gente sem filtro. E isso não é só no externo, no interno também. No que é visceral. Tipo aquela criatura que você conhece que vive postando textos de indireta nos stories sobre amizade, lealdade, respeito e amor, mas faz tudo ao contrário na vida real, sabe? 

Acho que vai chegar o momento em que vamos querer reverter toda essa perfeição. Eu acredito nisso. Vamos cansar de mexer em tanta coisa e ver tanta gente mexida. Outro dia escutei a palavra borogodó e acho que é por aí. Tem gente que tem aquele borogodó e quando mexe demais em si mesmo perde esse borogodó. E borogodó às vezes, meus amigos, é tudo o que pessoa tem de melhor. 
 

*Edgard Abbehusen é escritor, compositor, redator, baiano, criador de conteúdo afetivo e  autor de livros; Ele  publica textos exclusivos aos domingos nas redes sociais e no site do CORREIO. Acompanhe Edgard no Twitter e Instagram

Fonte: Correio