Personagens da praça: os lambe-lambes da Piedade ao longo do século XX

Lambe-lambe na Piedade, em 26 de abril de 1991
(Foto: Antenor Pereira/Arquivo CORREIO)

Você pode até não ter uma foto de lambe-lambe para contar a história, mas se já passou pela Praça da Piedade, principalmente pela calçada do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), dificilmente vai conseguir se recordar do lugar sem a presença desses profissionais. Encostados à parede, até recentemente os fotógrafos se sentavam diante do equipamento de trabalho – uma máquina caixote coberta com uma lona preta e com espaços para enfiar os dois braços – e ali aguardavam pela clientela.

Destes e de outros equipamentos semelhantes espalhados pela região da Praça da Piedade saíram, por anos a fio, registros fotográficos de milhares de pessoas, atraídas pela necessidade de ter um 3×4 para o documento, do desejo de registrar um momento ou pela propaganda: os melhores trabalho, em geral, ficavam colados na lateral da câmera-caixote, como nesta foto de abril de 1991.

A atividade dos fotógrafos lambe-lambe é rara hoje em dia, mas foi uma verdadeira febre desde o início do século passado. Foram estes os profissionais responsáveis por popularizar a fotografia. Fora dos estúdios, eles tomavam jardins e praças pelo Brasil para deixar a fotografia ao alcance das mãos de transeuntes. 

Era nos lambe-lambes que muita gente, mesmo nas últimas décadas, sem acesso a uma câmera e um filme de 12 poses, recorria na hora da necessidade. O historiador Rubens Nunes Moraes, que estudou o ofício do retratista lambe-lambe, explica em um artigo que o termo faz referência à necessidade que o fotógrafo tinha de saber de que lado estava a emulsão da película fotográfica. Para isso, lambia a placa, já que fazer o teste com os dedos deixava marcas.

“Ele teria que colocar o lado emulsionado voltado para cima no chassi, se colocasse o lado errado do papel, poderia perder a fotografia que ficaria sem foco e falta de nitidez”, explica o pesquisador.

Em Salvador, havia lambes em diversos pontos da cidade, como a Praça da Inglaterra, no Comércio, e outros pontos do Centro: Barroquinha, Relógio de São Pedro, Pelourinho. Mas foi a Praça da Piedade que ficou marcada pela concentração dos fotógrafos. O serviço era rápido: bastava dar uma volta e a foto estava pronta. 

O também historiador Rafael Dantas, que sempre estudou no Centro de Salvador, tem na memória os lambes da região. “Toda vez que eu vejo algo relacionado ao lambe-lambe aqui na cidade do Salvador, eu não posso deixar de lembrar a relevância do Centro Antigo da cidade, da Praça da Piedade, do comércio popular no que era Salvador ao longo desse tempo”, diz.

Segundo ele, os lambe-lambes ficaram famosos em Salvador na região da Praça da Piedade porque a Avenida Sete concentrou durante décadas todo um comércio popular, de empregos. Era lá que se fazia valer o costume de ir tirar documentos e fazer atividades relacionadas ao trabalho.

“Era ali que tinham as principais agências bancárias, prédios públicos e, evidentemente, um grande comércio. Então, eles não estavam separados dessa dinâmica urbana da cidade do Salvador, estavam inseridos no centro pulsante comercial e de trabalho na cidade até as décadas de 1980, 1990, especialmente, que era a Avenida Sete e aquelas redondezas”, explica Rafael.

Por isso, afirma o pesquisador, a Praça da Piedade aparece como um grande centro de manutenção de uma tradição de fotografias de rua, popularizadas na capital ao longo do século XX.

“Eu encaro isso como algo muito bonito, com muita poesia, porque fico imaginando a quantidade de pessoas que vieram do Recôncavo, que saíram do Sertão e chegaram em Salvador nas décadas de 1930, 1940, 1950 ou mesmo nas décadas posteriores, e não tinha um estúdio para tirar sua, mas tinham nos lambe-lambes a possibilidade de fazer seus registros ou imagens de recordação. Isso está carregado de uma história social, do cotidiano, dando continuidade a um costume”, afirma.

Os fotógrafos lambe-lambes passaram a ser personagens da cidade, sobretudo daqueles locais onde trabalhavam. Em Belo Horizonte (MG), a atividade é considerada patrimônio imaterialSe tornaram, com os anos, os responsáveis por capturar momentos, emoções, além de registrar mudanças e manutenções de costumem, trajes. “Do preto e branco até o colorido, temos diversas nuances de história que vão ao longo do século XX até o enfraquecimento dessa atividade, por conta do surgimento de tecnologias e possibilidades de se ter uma fotografia não mais impressa, mas no celular”, lembra Rafael.

Fonte: Correio