Três a cada 4 mulheres que atuam em órgãos de segurança dizem ter sofrido abuso

Uma pesquisa revelou que 74% das mulheres que atuam em instituições de segurança pública e Forças Armadas já sofreram assédio sexual no ambiente de trabalho.O estudo escutou 2 mil mulheres e foi conduzido pelos juízes Mariana Aquino e Rodrigo Foureaux. 

A pesquisa foi apresentada nesse sábado no Dia Nacional de Luta Contra a Violência à Mulher. Na oportunidade, os magistrados autores responsáveis pelo levantamento apresentaram um anteprojeto de lei com o objetivo deprevenir e coibir o assédio na área. 

“As instituições devem adotar, como política institucional, medidas que conscientizem os servidores, policiais e militares, sobre a necessidade de prevenir, coibir e erradicar o assédio sexual dentro das instituições. Até porque elas, dentre as suas diversas finalidades, tratam da prevenção e combate à violência na sociedade, mas não cuidam dessa questão em âmbito interno”, afirma Rodrigo Foureaux, juiz de direito e especialista em Segurança Pública e Direito Militar.

Segundo a juíza federal da Justiça Militar, Mariana Aquino, a pesquisa foi realizada em função da necessidade de levantar dados e informações sobre o assédio sexual nas instituições de segurança pública e Forças Armadas do Brasil. 

“Nosso objetivo macro é engajar a população e o Poder Público nessa importante causa e fomentar a adoção de medidas preventivas e de combate a esse tipo de violência no país”, destaca. Ambos os autores do estudo possuem vivência e experiência profissional na área, pois já atuaram na carreira militar, e, atualmente, lidam academicamente com a Segurança Pública e o Direito Militar.

Estudo aponta alto índice de assédio

Se o número de mulheres assedias nas instituições é alto, o de mulheres que não denunciam é ainda maior. Segundo o levantamento, do total das vítimas de assédio, 83 % não denunciaram, principalmente por “não acreditarem na instituição”, por “medo de sofrer represália”, por “medo de se expor ou de atrapalhar a carreira”. A pesquisa revelou, ainda, que a maioria das mulheres que denunciou o assédio sofreu represálias (51%) e o assediador não foi punido

“As instituições ou não adotam política de prevenção e combate ao assédio sexual ou o que fazem é insuficiente”, destaca Rodrigo Foureaux.

Foram colhidos cerca de 700 relatos de mulheres que apresentam detalhes das violências sofridas. 

“Há relatos de estupro que ‘não deram em nada’, além de inúmeros relatos absurdos e chocantes, muito difíceis de serem escritos e lidos. Há várias mulheres que disseram ter tido depressão e pensamentos suicidas; inclusive, uma das nossas entrevistadas afirmou que pensou em matar o assediador. Várias mulheres relataram sequelas e a realização de tratamento médico e psicológico. Há um alto número de relatos de que chefes e superiores hierárquicos pedem favores sexuais para concederem privilégios e benefícios para as mulheres na carreira”, explica Mariana Aquino.

Veja alguns relatos

“O oficial ficou me chamando para sair, para ir com ele em uma festa para a gente beber muito e se divertir, eu disse que não bebia e saí de perto, ele me seguiu e disse que me ensinaria e que a gente ia se divertir muito. Uma outra vez, outro oficial me chamou no canto e disse que eu estava muito bonita, muito sexy de maquiagem, que havia gostado de mim daquele jeito é ficou me olhando com desejo.”

 “Fui filmada tomando banho por um cabo na unidade em que servia e meu chefe falava besteiras para mim e minha colega de trabalho, como: ‘você tem cara de princesinha, já a outra mais vivida. ‘eu teria um relacionamento tranquilamente com uma menina como você’ eu tinha 21; já ele, 53.”
 
“Me mandou mensagem pelo WhatsApp dizendo que estava apaixonado, me chamando para sair, me elogiando, ele foi ignorado, porém continuou. Em um certo dia foi até a minha casa de madrugada e tentou entrar. E no ambiente de trabalho tentou me dar um beijo, ficava me olhando com olhares de desejo.”

“Durante uma reunião, um coronel pôs a mão na minha perna por baixo da mesa; eu me afastei, olhei com cara feia e os outros oficiais da reunião (todos homens) olharam pra mim sem entender. Eu fiquei com medo de dizer o que havia ocorrido (pois sempre dizem que estamos exagerando) e me calei. Depois, o coronel veio dizer que foi sem querer e pedir desculpas, disse realmente não percebeu.”

Fonte: Agencia Brasil