Mais de 50% dos trabalhadores de enfermagem na Bahia pegaram covid-19

A baixa qualidade da infraestrutura do sistema de saúde interfere diretamente na segurança não só de pacientes, mas também na dos profissionais da área. Professor da Ufba, o doutor em Enfermagem e vice-presidente do Conselho Regional de Enfermagem da Bahia (Coren-BA) Handerson Santos alertou em live do CORREIO, nesta terça-feira (13), que mais de 50% dos trabalhadores da enfermagem na Bahia contraíram covid-19.

Segundo ele, esse dado tem relação com a ausência de boas condições de exercício da profissão neste cenário atípico, o que, inclusive, contribui para a ocorrência de erros no cuidado com os pacientes.

Ao todo, a Bahia possui mais de 137,9 mil profissionais da enfermagem, dos quais 85,5 mil são técnicas, 39,4 mil são enfermeiras e quase 13 mil são auxiliares, sendo que cerca de 90% são mulheres, conforme números do próprio Coren-BA. O professor aponta que a pandemia colocou essas trabalhadoras em situação de maior vulnerabilidade para cometer erros, sobretudo devido à precarização das condições de trabalho — como jornadas exaustivas, exposições arriscadas ao vírus por causa da falta de oferta adequada de EPIs, além dos baixos salários, que as obriga a ter mais de um vínculo empregatício. 

Handerson conta que especialistas já têm chamado de “segunda vítima” os trabalhadores da área de saúde, sendo o paciente a primeira. Como pesquisador associado do grupo Gerir, também da Ufba, ele conta que pesquisas do núcleo revelaram que, para 13% das enfermeiras, as difíceis condições de exercício da profissão e o ritmo acelerado do trabalho contribuem para os tais “erros médicos” — entre eles a administração de medicação e dose incorretas, troca de pacientes, etc. Já o número foi de 51% para técnicas e auxiliares respondentes. 

Estudos anteriores do grupo apontam que as unidades de saúde costumam ter um número de profissionais inferior ao necessário para uma escala de trabalho. Há casos em que um lugar deveria ter cinco trabalhadores e tem apenas dois, por exemplo.

Handerson relatou que, recentemente, o conselho regional recebeu uma denúncia de um hospital de médio porte de Salvador que estava com apenas uma única enfermeira para o fim de semana inteiro, o que é tido como extremamente preocupante porque não só expõe à negligência os pacientes que inspiram cuidados, como também a própria trabalhadora, que não consegue dar conta da demanda. “A carga de trabalho é tão grande, que essas pessoas não suportam e começam a adoecer”, disse.

O pesquisador ressalta que é importante entender as situações por trás das falhas para não tratá-las de forma individualizada. Handerson convocou um debate pedindo mais apoio da sociedade com relação às denúncias de precariedade nas unidades de saúde, como UPAs, hospitais, etc. 

“É da condição humana errar, mas é preciso problematizar o erro, falar do erro, seja eu enfermeiro, jornalista, contador, médico. Todos iremos errar no processo de trabalho. A diferença é que nós, trabalhadores da saúde, ao errar, podemos colocar em alto risco a vida de outras pessoas. Os números de erros nos preocupam e nos colocam nessa posição de ter que dialogar com a sociedade no sentido de alertar de que isso, de fato, acontece e de que estes profissionais não são deuses e são passíveis de errar, mas precisamos saber como mitigar esses erros”, defende.

Denuncie

Por questões como essa, ele ressalta que é importante que as pessoas, sejam pacientes ou acompanhantes, também aprendam a denunciar ao Coren-BA situações que podem estar contribuindo para as falhas no atendimento de saúde. Handerson orienta que as pessoas conversem com os trabalhadores da saúde para entender como está a escala de trabalho e, se for relatada quantidade de profissionais abaixo da necessidade da unidade, pode-se denunciar ao conselho fiscalizatório através do site www.coren-ba.gov.br/ouvidoria. 

Além disso, órgãos como Ministério Público do Trabalho (MPT), Ministério Público da Bahia (MP-BA), Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb), Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Crefito), também recebem as respectivas denúncias relativas aos casos envolvendo falhas no sistema de saúde. 

“Não adianta as organizações como sindicatos e associações profissionais pautarem essas questões trabalhistas com os órgãos, é preciso que a sociedade esteja ao nosso lado. Só dessa forma, tendo a sociedade essa percepção de que a segurança do paciente é algo que interessa a eles, que diz respeito à vida de cada um de nós quando precisamos dos serviços de saúde, é que, talvez, as autoridades pautem projetos de lei”, explica. 

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Fonte: Correio