Cerca de 95% dos motoristas ignoram recall no Brasil; veja riscos

Você já deve ter se deparado com um anúncio no jornal, no rádio ou na televisão convocando o proprietário de determinado modelo de carro para o recall – serviço obrigatório e sem custos oferecido pelas concessionárias para recolher automóveis, explicar fatos e apresentar soluções para veículos com problemas que coloquem em risco a segurança dos consumidores. Apesar da importância, o processo foi feito em 2019 e 2020 por menos de 5% dos carros chamados.

Até setembro deste ano, apenas 305,8 mil dos cerca de 13 milhões de chamados no Brasil passaram pelo procedimento. Em 2019, mais de 17 milhões de carros foram afetados e só 759.023 fizeram o recall.

As situações que levam as montadoras a fazerem o chamado dos proprietários vão desde problemas no airbag dos bancos da frente, falha na programação do software da unidade de comando das setas dianteiras, falha na fixação do painel frontal do teto solar, podendo causar sua soltura, até veículos que estão sujeitos ao desprendimento da rótula do triângulo dianteiro e o consequente deslocamento da roda, situação que pode gerar a perda da dirigibilidade parcial ou total do automóvel.

Aos que fazem parte dos 95% que ignoram os chamados das concessionárias para realização do recall, há bons motivos para fazê-lo: preservação do patrimônio, execução de um direito garantido aos consumidores e desenvolvimento do hábito de manutenção. Mas, sem dúvida, entre as razões existentes, a segurança de quem está dentro do carro é a maior e mais justa motivação para fazer a recall do automóvel.

Esse é o principal ponto abordado por Diego Amorim, supervisor de pós-vendas da Columbia, concessionária da Chevrolet em Salvador. Para Diego, a segurança dos familiares, amigos e conhecidos que, vez ou outra, são transportados nos veículos é o que deve ser considerado antes de ignorar o chamamento para a recall. “Apesar de sentirmos que os clientes não têm ciência do valor, fazemos questão de salientar sempre a natureza fundamental do recall. Os problemas que são reparados podem colocar em risco a segurança de quem está no veículo se o proprietário não fizer esse procedimento. Às vezes, são coisas simples que fazem muita diferença”, afirma Diego.

Ao falar de recall, Leonardo Ferreira, gerente de vendas da Indiana, concessionária da Ford, também chama a atenção para a situação de insegurança que os clientes podem se expor ao ignoraram o recall. “Se existe o chamado é porque está sendo necessário substituir ou reparar uma peça para que não ocorra nenhum tipo de acidente ou incoveniente com o proprietário. Por isso, assim que souber do chamamento, o cliente precisa prontamente agendar um recall que vai garantir a sua segurança física enquanto estiver no carro”, diz.

Carros sem recall podem oferecer risco aos motoristas epassageiros (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Duração do recall
Se a sua preocupação é ficar sem o carro ao levá-lo à concessionária, pode ir desmistificando isso na sua cabeça. Apesar da duração do processo ser relativa  e depender do problema do seu carro, na maioria dos casos, os reparos costumam durar algumas horas.

Só em situações muito incomuns é que é possível a concessionária permanecer com o carro por mais de um dia. Isso é o que garante Leonardo Ferreira. “É óbvio que depende muito da peça que está sendo trocada. Pode ser um recall de 30 minutos ou um que dure alguns dias. Tem peça de fácil distribuição e outras que a logística requer mais tempo, isso é relativo. Mas, geralmente, o recall é feito em horas e é concluído no mesmo dia”, explica.

Diego corrobora dizendo a que o período de recall costuma ser curto. “Os reparos costumam durar menos de uma hora. Tem coisa que a gente resolve em 20 minutos e já libera o cliente. Como disse, em boa parte dos casos, é um procedimento simples. É raro ver um carro que precisa ficar horas no recall para solucionarmos a situação. Mais raro ainda precisarmos de dias para concluir o processo”, conclui.

Modelo Ford Ka de 2019 e 2020 teve chamamento iniciado em outubro de 2019 (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Problemas no licenciamento

A não realização do recall, durante o período de um ano – contado a partir do momento em que o veículo é chamado -, vai ser mencionada no Certificado de Registro e Licenciamento do Veículo (CRLV), o que pode trazer alguns problemas citados por Leonardo Ferreira, da Indiana: “Se o proprietário não atender o chamado do recall nesse prazo de até um ano, a pendência vai ser apontada no documento do carro. Quando isso acontece, o proprietário não consegue fazer transferência, ele passa a ter uma pendência na documentação do carro e é impossibilitado de fazer qualquer negociação com o veículo”, informa.

Se você não souber se seu carro precisa passar por um recall, tirar essa dúvida é muito simples. No portal do Ministério da Justiça, há um alerta de recalls que lista todos os chamamentos em aberto, relacionando montadoras, modelo e o ano dos carros que estão com essa pendência. No site, é possível até realizar uma busca mais rápida sobre o seu veículo e a necessidade ou não da realização de um recall.

Veja, a seguir, modelos que já tiveram chamamento aberto em 2019 – neste ano, ainda não há uma lista:

– Passat, fabricados entre 2016 a 2017, em razão da possibilidade de falha na fixação do painel frontal do teto solar podendo causar sua soltura, com risco de acidentes com danos físicos e materiais a terceiros. Data de início do chamamento: 22/04/2019.

– Volvo, modelo XC90, ano/modelo 2016, em razão de que a mangueira de sangria do líquido de arrefecimento do motor poderá se degradar com o tempo, apresentando rachaduras em razão da exposição ao calor e umidade, o que poderá causar vazamento do líquido de arrefecimento do motor e ativar alertas no painel do veículo. Data de início do chamamento: 24/04/2019.

– Mitsubishi, modelo Lancer Evolution VII e IX, ano 2004 a 2006, produzidos entre 31 março de 2004 e 30 de novembro de 2006, em razão da possibilidade de deflagração inadequada do insuflador da bolsa de airbag do passageiro. Data de início do chamamento: 29/04/2019.

– JEEP, modelos RENEGADE, uma vez que foi identificada a possibilidade da desconfiguração dos seus parâmetros originais de fabricação e funcionamento, comprometendo o acionamento dos airbags e do pré-tensionadores dos cintos de segurança em caso de colisão ou capotamento. Data de início do chamamento: 30/04/2019.

– Jumpy 2017 e 2018, veículos que estão sujeitos ao desprendimento da rótula do triângulo dianteiro e o consequente deslocamento da roda, situação que pode gerar a perda da dirigibilidade parcial ou total do veículo.  Data de início do chamamento: 29/05 /2019.

– Fiat, modelo Ducato, todas as versões, ano/modelo 2018 e 2019, em razão do eventual desprendimento do Tubo de Intercooler do Corpo de Borboleta, o qual poderá provocar a perda da força motriz do motor, com o veículo em movimento, podendo comprometer as condições de dirigibilidade do veículo. Data de início do chamamento: 13/05/2019.

– Caminhões da marca Mercedes-Benz, modelo Actros Rodoviário 6×4 e 6×2, fabricados entre outubro de 2016 a dezembro de 2018, em razão da possibilidade de a proteção anti-poeira peça plástica localizada na região inferior do veículo, que envolve o motor e seu ventilador. Data de início do chamamento: 28/06/2019.

– Citroën, modelo Berlingo (transformados em ambulâncias e disponibilizados para entes públicos), fabricados entre 09 de novembro de 2017 a 10 de outubro de 2018, em razão da ausência da presilha de fixação entre as tubulações de ar condicionado e de combustível que poderia ocasionar, em alguns casos, o possível contato entre as tubulações. Data de início do chamamento: 19/07/2019.

– Audi, modelos Q3 e RSQ3, em razão da possibilidade de uma falha na programação do software da unidade de comando das setas dianteiras, desta forma o condutor não será alertado através de função específica no painel caso as setas dianteiras deixem de funcionar, e outros condutores e transeuntes não receberão a indicação de mudança de direção do veículo. Data de início do chamamento: 26/08/2019.

– Mercedes-Benz, modelos A200 e A250, em razão da possibilidade de que a placa metálica de isolamento térmico alocada na parte inferior do porta malas apresente trincas nas bordas de fixação. Data de início do chamamento: 18/09/2019.

– EcoSport e Ka versões Hatch e Sedan modelos 2019 e 2020, em razão da possível ausência das travas internas do reclinador manual do encosto dos bancos dianteiros o que pode reduzir a força do travamento do encosto e não reter seus ocupantes adequadamente. Data de início do chamamento: 14/10/2019.

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

Fonte: Correio