Corregedoria apura envolvimento de policiais em sumiço de mecânico em Pirajá

A Corregedoria-Geral da Secretaria de Segurança Pública (SSP) quer saber se há ou não o envolvimento de policiais no desaparecimento do mecânico Ruan Carlos Maia Costa, 31 anos, e instaurou um processo para acompanhar a investigação da Polícia Civil. Ruan foi visto pela última vez do dia 8 deste mês.  

Segundo a assessoria de comunicação da SSP, a medida foi adotada nesta sexta-feira (16) com base na denúncia dos parentes de Ruan, que apresentaram um vídeo, única pista do momento do desaparecimento. Na imagem, gravada no dia 08, no bairro de Pirajá, aparece um homem saindo do Gol preto do mecânico segurando um colete balístico e em seguida entra em outro carro, um Ford Ka branco com giroflex ligado.

A Corregedoria-Geral assessora a SSP no acompanhamento, no controle e na avaliação das condutas funcionais dos servidores de todos os órgãos integrantes da SSP (Superintendências, Diretorias etc.), incluindo a Polícia Militar (PM), a Polícia Civil (PC) e o Departamento de Polícia Técnica (DPT).

Na esfera da SSP, duas instituições têm policiais trabalhando sem uniformes e com veículos descaracterizados. A mais comum é a Polícia Civil, onde alguns agentes de delegacias de bairro ou de departamento trabalham na investigação de crimes e para isso é dispensado o uso de fardamento e, em alguns casos, a utilização de veículos padronizados – estes carros são identificados apenas pelo uso do giroflex e são chamados de “chapa fria”. 

A segunda instituição é a Polícia Militar. Conhecida pelo policiamento ostensivo, e para isso há o uso de uniforme e veículo padronizado, cada companhia da PM tem um núcleo de investigação, os chamados “P2” – são PMs que não trabalham de farda e usam também um carro “chapa fria” para levantar informações para atuação da companhia.

Mecânico desapareceu quando saiu de casa para o trabalho
(Foto: Divulgação)

DHPP
O caso é apurado pelo Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco), mas há uma grande chance de o inquérito ser encaminhado para o Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP). Isso porque, até o momento, não há indícios de sequestro como, por exemplo, pedido de resgate. Neste caso, o DHPP tem a Delegacia de Proteção à Pessoa (DPP), responsável também por apurar casos de pessoas desaparecidas. “Quero saber o que aconteceu com o meu filho e que os responsáveis paguem”, desabafou o pai de Ruan, o também mecânico Raimundo Baraúna. 

Assim como demais integrantes da família de Ruan, seu Raimundo acredita que o filho tenha sido levado por policiais civis. “Penso que são policiais. Se você está numa mata, onde tem vários bichos, se passa um animal da altura de um cavalo com listras, a gente pensa logo que é uma zebra. O cara que saiu do carro do meu filho usava um colete a prova de balas e depois entra no carro com o giroflex ligado, só posso pensar que são policiais civis que pegaram ele”. 

Ele disse, ainda, que Ruan não tinha motivos para ter sido alvo de uma abordagem policial. “Não sei o porquê de uma ação dessas. Meu filho não fazia nada de errado. A polícia é feita para proteger. Se ele tivesse feito alguma coisa, que os policiais apresentassem ele numa delegacia, como manda a lei e não fazer o contrário. A questão é essa”, pontuou. 

As imagens foram adquiridas por parentes de Ruan, que iniciaram uma investigação por conta própria. Para seu Raimundo, Ruan estava no Ford Ka branco. “Acredito que o meu filho estava no carro de trás, no fundo. Ele não dava o carro para ninguém dirigir, ainda naquele horário, quando sabia que tinha que estar na oficina, pois abrimos cedo”, disse. 

Perguntado se o filho apresentava algum comportamento estranho que levantasse alguma suspeita para o desaparecimento, como ameaças, raiva, tensão, briga recente, por exemplo, seu Raimundo respondeu: “Na segunda, terça e quarta ele trabalhou normalmente, chegou e saiu no horário de sempre, almoçou aqui também, nada fora da rotina. Não disse que passava por nenhum tipo de problema”. 

Desaparecimento
No dia 8, Ruan saiu de casa, no bairro de Cajazeiras VI, rumo à oficina mecânica onde trabalha com o pai. “O pai ligou para a mulher de Ruan, por volta das 10h, perguntando pelo filho, se tinha acontecido alguma coisa, pois ele não havia chegado. Então, a gente aguardou o dia todo, imaginando que ele foi para algum lugar com o celular descarregado, mas que voltaria mais tarde”, disse um familiar na quinta-feira (16), durante entrevista ao CORREIO. A fonte pediu para não revelar o nome.

Quando anoiteceu,e Ruan não deu sinal de vida, os familiares perceberam que algo de errado havia acontecido e resolveram fazer uma busca pela rua. Foi quando vizinhos disseram ter visto o carro de Ruan. “ Pessoas conhecidas do bairro disseram que viram o carro dele parado no fundo do Makro de Pirajá, aí fomos para lá”, contou. 

Quando chegaram no local, os parentes encontraram o Gol preto com as portas fechadas, mas destravadas. “O carro estava todo normal, estacionado corretamente, o som estava no lugar, mas as coisas dele estavam reviradas, como as roupas. Ele usava farda na oficina”, explicou o parente. O celular de Ruan não foi encontrado.

Vídeo 
As imagens do último dia que o rapaz foi visto foram conseguidas pelos próprios familiares. No vídeo divulgado pela família de Ruan, é possível ver que as imagens foram gravadas às 05h59 do dia 8 deste mês – o mecânico saiu de casa por volta das 5h30. No primeiro momento aparecem dois carros – ambos em uma rua atrás da loja do supermercado Makro de Pìrajá: um Ford KA branco, parado na frente do carro de Ruan, um Gol G3, de cor preta (NNL-3766). Um homem entra no banco do carona do Ford KA, enquanto um outro manobrar o Gol à frente do primeiro carro. 

No segundo momento do vídeo, o homem que estaciona o Gol de Ruan sai e segue para o banco detrás do Ford KA. Usando uma calça jeans, boné e camisa preta, ele caminha segurando o que parece ser um colete a prova de balas e entra no carro, que aparece com o giroflex ligado. 

Fonte: Correio