Respirar ar puro, tomar banho a céu aberto e ter contato com a natureza parecem práticas cada vez mais distantes quando se pensa em pandemia, uso obrigatório de máscara e isolamento social. Mas quem disse que tudo isso não tem espaço em meio à vida urbana? A fim de ganhar fôlego no confinamento, muita gente tem buscado alternativas para relaxar com a família nos fins de semana e os hotéis-fazenda estão entre elas.

“O que mais temos escutado é que as pessoas estão buscando um local onde possam fugir um pouco dos últimos seis meses”, comenta o turismólogo Denis Cerqueira, 48 anos, proprietário do Hotel-Fazenda Villa Rial, em Cachoeira, a 110 km de Salvador. Passeio a cavalo, tirolesa, visita à horta e aos animais estão entre as atividades do espaço que voltou a funcionar em setembro, após seis meses fechado.

Claro que há um protocolo a ser seguido e nem sempre é possível ficar sem máscara, mas as atividades ao ar livre permitem um respiro. “Alguns clientes tomam banho de bica e só o fato da água tocar no corpo, em uma área aberta, a primeira reação que a gente vê é o sorriso, a paz”, diz o turismólogo Diego Brito, 33, da Viver Turismo, agência que está com as demandas esgotadas pelos próximos fins de semana em hotéis-fazenda.

Pessoas mais dispostas a caminhar de manhã cedo na área verde, outras com suas bicicletas, famílias buscando atividades para curtir com os filhos e amigos têm alterado o cenário dos hotéis-fazenda. Antes da pandemia, as escolas e as pessoas da chamada terceira idade eram os mais presentes no Mirage, por exemplo. Hoje, o público mudou.

“Tem famílias que fecham seis, sete, oito apartamentos”, revela Maria do Carmo, 56, proprietária do hotel-fazenda que funciona há 20 anos em Amélia Rodrigues, a 80 km de Salvador. “Com a pandemia, vi um perfil de pessoas que nunca tinham visitado o Mirage. Pessoas que talvez fossem mais urbanas ou de praia, buscando o que a fazenda oferece: o contato com a natureza e os animais”, comemora.

Encantada com os novos hóspedes, a dona do Mirage acredita que independentemente da pandemia, “a criança precisa de um resgate desse”. “Muitas não sabem que o ovo vem da galinha, acham que vem do mercado. Sou filha de fazendeiro e quando vejo as crianças felizes, livres e sorrindo, fico muito satisfeita. Minha alegria é ver isso”, vibra Maria do Carmo.

Família unida
Isolada com o marido e a filha de 3 anos desde o início da pandemia, a administradora Daniela Farias, 46, convenceu a família e um grupo de amigas a alugar 14 apartamentos em um hotel-fazenda para passar o feriado do Dia das Crianças. Todas se conheceram no grupo de hidroginástica Akuababies, quando ainda estavam grávidas, mantiveram a amizade e agora decidiram se reunir com os filhos já crescidos.

Por causa dos pais idosos, Daniela conta que escolheu um lugar amplo e aberto para manter o distanciamento social, mesmo estando entre amigos. Assim, daria para cada um respirar um ar puro à distância. “O grupo da gente está unido, mas cada um em seu espaço. Um na piscina, outro na cachoeira, outro no pedalinho, outro no curral. Por ser muito grande, a gente se sente seguro”, explica.

O principal ganho dessa investida, reforça Daniela, foi se reaproximar dos seus. “É a felicidade de conseguir reatar os laços depois de tanto tempo, e de celebrar a vida. Conseguir o contato humano que a gente estava sentindo tanta falta, sabe? E conseguir cumprir o distanciamento com segurança, pensando nas crianças”, comemora.

Fazendinha
Criado em fazenda durante as férias de São João, o publicitário Daniel Kalil, 41, faz o que pode para que seu filho Antônio, 2, tenha o mesmo contato com a natureza. “Acho que criança de apartamento é muito medrosa com bichos de maneira geral”, observa Daniel que, mesmo na pandemia, buscou resgatar a experiência da infância, na Bahia.

Morando em São Paulo, decidiu viajar com o filho e a mulher para o interior do estado em busca de uma “fazendinha” para passar o fim de semana. “A gente queria que ele tivesse esse contato: mosquito, besouro, formigas e todo tipo de inseto passeando pela casa”, justifica sobre Antônio que “ficou deslumbrado vendo as formigas carregando a grama na trilha”.

Essa experiência, reforça Daniel, é muito importante porque “todo mundo está passando por problemas de comportamento por causa da pandemia”. “A gente não está acostumado a viver enclausurado, a perder o contato com as pessoas que a gente gosta”, justifica. “Você muda de ares e a criança muda o comportamento completamente. Volta a ser uma criança ativa, dinâmica, interessada, curiosa por tudo”, comemora.

Segurança
A sensação de segurança é um dos fatores que explica o aumento da busca por esses espaços, segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis da Bahia (ABIH), Luciano Lopes. “Acaba sendo um turismo ligado à natureza, onde há espaços grandes para o distanciamento social”, completa.

As pessoas estão se deslocando entre as cidades de carro, acrescenta o presidente da ABIH, e isso fez com que a procura pelo turismo interno aumentasse nos últimos meses. Em Salvador, a taxa de ocupação no mês de setembro ficou em 29,85%, sinalizando o início da retomada hoteleira que também foi observada nas regiões próximas da capital.

“Muitos ainda estão receosos com uma viagem mais longa, que precise de avião – porque a pandemia ainda existe –, então estão procurando meios de sair de casa”, defende Denis Cerqueira, do Villa Rial. Com 60% do público composto por famílias, desde a reabertura, o Villa-Rial teve o último feriado do Dia das Crianças esgotado.

Funcionado com 50% de sua capacidade, o hotel-fazenda cogita manter o ritmo mesmo depois da pandemia, para aumentar a segurança de todos. Ou seja, diminuir a quantidade de passeios por dia para higienizar os equipamentos com mais frequência e manter o buffet sendo servido pelos funcionários.

“O lado negativo da pandemia foram as mortes, mas há um lado positivo que me diz para organizar e enxergar mais o próximo. Isso mexeu muito comigo. Nós precisamos ver a coisa muito além do ‘eu’”, reflete Denis. “O turismo serve para isso, porque ele vende sonhos. Preciso dar ao meu turista o que eu gostaria de receber”, completa.

Hotéis-fazenda próximos de Salvador

Villa Rial
Cachoeira, a 110 km de Salvador. Ladeira do Padre Inácio, s/n, zona rural.
Diárias a partir de R$ 480 (casal, exceto feriados).
@hotelvillarial

Mirage
Amélia Rodrigues, a 80 km de Salvador (pela BR-324).
Diárias a partir de R$ 700 (casal)
@hotelfazendamirage

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Uma publicação compartilhada por Hotel Fazenda Mirage (@hotelfazendamirage) em 1 de Fev, 2019 às 10:08 PST

São Geraldo
Conceição do Almeida, a 180 km de Salvador (pela BR-324/BR-101) e a 80 km da Ilha de Itaparica (acesso pelo Posto Acácia na BR-101). Fica a 3km de Santo Antônio de Jesus.
Diárias a partir de R$ 900 (casal)
@saogeraldohotelfazenda

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Uma publicação compartilhada por São Geraldo Hotel Fazenda (@saogeraldohotelfazenda) em 19 de Set, 2020 às 6:49 PDT

Candeal
Conceição do Jacuípe, a 90 km de Salvador.
Diárias a partir de R$ 530 (casal; exceto feriados)
@candealfazenda

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Uma publicação compartilhada por Fazenda Hotel Candeal (@candealfazenda) em 4 de Out, 2020 às 7:34 PDT

Vale do Jiquiriçá
Jiquiriçá, a 250 km de Salvador (pela BR-324) ou 200 km de Salvador (pelo ferry boat).
Diárias a partir de R$ 200 (casal; exceto feriados)
@hotelvaledojiquirica

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Uma publicação compartilhada por ????Hotel Vale do Jiquiriçá (@hotelvaledojiquirica) em 12 de Jun, 2019 às 8:33 PDT

Fonte: Correio