Sem SUS Animal, clínicas cobram preços mais acessíveis para pets; veja

Quando se trata dos custos altos dos serviços veterinários, como será que lidam com isso aqueles que cuidam dos bichos mais vulneráveis? Além das doações em dinheiro, alimentos e medicamentos, os chamados protetores e abrigos de animais costumam contar com uma rede de apoio que  envolve clínicas e veterinários parceiros. “A maioria dos veterinários já conhece o meu trabalho e construímos uma relação boa em termos de custos e atendimentos a animais resgatados ou carentes”, afirma Patruska Barreiro, do Instituto Patruska, ong que tem 25 anos de ativismo em Salvador. 

“Temos clínicas veterinárias e hospitais que nos dão suporte e ajudam tanto nossos animais como de animais carentes. Esses parceiros indico com maior frequência por conhecer toda a equipe e por ter ações sociais”, explica. Patruska questiona a falta de um “SUS Animal” e diz que os planos de saúde possuem uma rede pequena. “Os poucos planos existentes não têm vasta rede de atendimento  e o SUS animal inexiste. Cabe ao tutor os custos”. A protetora afirma que nada causa mais revolta nos tutores do que a impressão de que sempre há um excesso de exames e procedimentos solicitados, principalmente em atendimentos de plantão. 

A protetora Natália Vieira, uma das mais atuantes na região de Camaçari, diz que também conta com a sensibilidade de veterinários parceiros. “Protetor lida com adversidade grande e falta de recursos. Não dá para fazer todos os protocolos”. Mas, nem sempre consegue escapar dos problemas. “Já fui no veterinário que a clínica dele não tinha raio-x. Tive que ir em outra clínica em que a veterinária queria fazer duas ou três chapas, cada uma R$ 120. Mas o veterinário que solicitou disse que em uma das posições ele já conseguiria avaliar. Claramente ela queria levar vantagem”. 

Além de ser apaixonada por bichos, Gabriela Ventura, 27 anos, decidiu estudar Medicina Veterinária justamente por conta dos perrengues que já passou com os animais que resgata. Em um dos casos, pegou seis cães que estavam com suspeita de parvovirose. Então estudante de administração, levou três deles para uma clínica na Pituba. Tinha poucos recursos financeiros e pediu que a veterinária fosse sensata e recomendasse o essencial.

“Ela examinou apenas um dos cães, sequer olhou para os outros dois. Me passou a receita e me recomendou, além do tratamento de parvovirose, um protocolo vacinal de todas as vacinas que um cão deve tomar”. Os custos somente para um dos cachorros chegariam a R$ 1 mil. “Expliquei que não tinha dinheiro para prevenir outras doenças e precisava me ater à suspeita de parvovirose. Ela foi grossa, não me deu qualquer orientação e apenas passou a receita”.

Hoje estudante de veterinária, Gabriela não questiona o protocolo aplicado, mas a falta de empatia e esclarecimentos. “Hoje sei que o veterinário tem a obrigação legal e ética de explicar todas as necessidades do animal, mas é preciso saber agir de forma específica em cada caso. Faltou sensatez para focar na urgência dos casos”. Gabriela conta que a médica indicou que ela pagasse até mesmo pelas vacinas de raiva para os seis  cães. “Isso não era urgente. E pouco tempo depois, descobri por conta própria que esta vacina é dada gratuitamente em posto de saúde. Ela foi insensível e insensata. Eram três cães resgatados. Saí da consulta tão ignorante quanto entrei”.

Hospital veterinário público. Teremos?
A criação de um hospital veterinário público é vista por muitos como algo fundamental, inclusive à saúde humana. Cães e gatos de bairros sem saneamento, por exemplo, levam ainda mais doenças para os moradores. Castrações gratuitas poderiam diminuir a reprodução de animais de rua. No ano passado, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) chegou a divulgar que, em maio de 2020, seria lançada a licitação para a construção do equipamento pioneiro na Bahia. Ao CORREIO, a assessoria da SMS informou que o projeto não foi entregue em maio como esperado por conta da pandemia. Mas a expectativa é que a unidade esteja funcionando ainda este ano.

Muitos consideram que um hospital veterinário público demandaria um alto investimento. Uma das saídas seria, em vez de construir um hospital, ampliar os incentivos fiscais para que as clínicas que já existem façam atendimentos gratuitos para pessoas sem condições de pagar. Abaixo, conheça três opiniões diferentes sobre a possível criação de um hospital veterinário público: 

“O hospital público tem que fazer parte de uma política de saúde única, importante para o equilíbrio da sanidade animal e humana. Acho bastante salutar a instalação. Mas temos que lembrar que tudo tem seus custos. Na medicina humana temos o SUS, que financia os hospitais públicos. Na veterinária ainda precisamos descobrir de onde tirar esse financiamento”. (João Moreira, diretor do Hospital de Veterinária da Ufba)

“Eu acho que tem que ter! A coisa mais triste é você resgatar um animal da rua ferido e não ter pra onde levar. Tem gente também que não tem como custear um animal. As pessoas e o poder público têm que entender que animal é custo. Dentro do conceito de saúde única, o hospital público veterinário também significa saúde humana”. (José Eduardo Ungar, presidente da Comissão de Saúde Pública do CRMV-BA).

“Sou contra o hospital público porque ele não só pode representar altos custos para os cofres públicos como ele pode significar o desemprego de muitos funcionários das clínicas. Você sabe o quanto as clínicas veterinárias empregam? Em vez de construir hospital, as prefeituras e estados poderiam ampliar os incentivos fiscais para as clínicas atenderem o público carente” (Dono de Clínica Veterinária que preferiu não ter o nome divulgado)  

Ufba e clínicas-escola cobram taxas mais acessíveis
Se você acha os preços cobrados em clínicas veterinárias bem acima da sua capacidade de pagar, há poucas alternativas para driblar isso em Salvador e Lauro de Freitas. Na ausência de um hospital público veterinário, existem três unidades que cobram taxas com valores mais acessíveis: o Hospital da Escola de Veterinária da Ufba e as clínicas-escola da Unifacs e da Unime.

No caso da Ufba, a consulta de emergência tem uma taxa de R$85, enquanto a consulta ambulatorial sai por R$55. No caso dos animais silvestres a taxa é de R$35. Os valores dos demais procedimentos variam muito. O valor arrecadado é gerenciado pela Fapex e garante a manutenção das atividades de pesquisa, ensino e extensão.

O hospital oferece especialidades como oftalmologia, dermatologia, ortopedia, oncologia e odontologia. Atende nas áreas da clínica médica, clínica cirúrgica e reprodução, tanto para pequenos como grandes animais. Na pandemia, o hospital tem seguido uma série de protocolos e no momento só atende por agendamento.

A Unifacs, que por conta da pandemia só tem atendido por agendamento, informou que não divulga o valor das consultas e exames por motivos éticos. Mas basta ligar para o número logo abaixo deste texto. A unidade faz cerca de 1 mil atendimentos por mês, entre atendimentos clínicos, cirúrgicos e exames para cães, gatos e outros animais de pequeno porte. A clínica é um espaço destinado às aulas práticas, atividades de pesquisa e extensão, além de ser mais um campo de estágio para os alunos de graduação. Oferece também serviços de consulta eletiva, anestesias, exames de imagem (Raio-X e Ultrassonografia), vacinas, exames laboratoriais, cirurgias e day hospital.

Entre médicos veterinários e estudantes da instituição, a equipe tem 30 pessoas e atende as seguintes especialidades: clínica geral, dermatologia, ortopedia e fisiatria (fisioterapia) para cães, gatos, animais não convencionais como porquinho da índia e coelho e animais silvestres como araras, serpentes e papagaios. Devido à pandemia, os atendimentos eletivos estão sendo feitos por agendamento, além dos atendimentos de urgência e emergência. Alunos, professores e colaboradores têm 15% de desconto na consulta.

A Unime reabrirá a clínica veterinária nesta segunda-feira (19) após suspensão das atividades devido à pandemia do novo coronavírus. Com agendamento prévio, para evitar aglomerações no local, os atendimentos serão realizados das 8h às 12h e das 13h30 até as 16h30. Desde 2005, oferece atendimento para animais de pequeno e grande porte, além de animais silvestres. 

Entre os serviços disponíveis, estão consultas de clínica médica e clínica cirúrgica, exames laboratoriais e de imagem, procedimentos cirúrgicos de baixa, média e alta complexidade, atendimento clínico e cirúrgico, além de vacinação. Não serão atendidos casos de emergência. A  média é de 16 mil atendimentos por ano. 

O Ambulatório de grandes animais destina-se ao atendimento de equinos, pequenos e grandes ruminantes. A clínica conta com seis médicos veterinários especialistas, doze médicos veterinários residentes, nove técnicos de laboratório e dois técnicos administrativos. Devido à pandemia de covid-19, a clínica se encontra atualmente fechada.

Hospital Veterinário da Ufba: Av. Adhemar de Barros, 500 – Ondina – Tel: 3283-6736. Funcionamento: no momento atende por agendamento

Clínica Veterinária da Unifacs: Av. Jorge Amado, 2005, Boca do Rio – Tel: 71 3232-2203. Funcionamento: no momento atende por agendamento

Clínica Veterinária da Unime: Av. Luiz Tarquinio Pontes, 600, Centro de Lauro de Freitas – Tel: 71 3378-8168. Funcionamento: no momento atende por agendamento

Fonte: Correio