Jazidas intergalácticas de ouro no universo

Sempre tive a sensação tola de guardar algo precioso. Mesmo quando não possuía nada além de uma coleção de revistas em quadrinhos e o único rumo possível parecia ser o balcão de uma loja. No final de 1980, faculdade pública era coisa para ricos e os adolescentes da classe média viviam à caça do primeiro emprego.

Eu tive sorte, eu tenho. Se olho para trás agora, vejo que o tempo estava ao meu lado. Sabe aquele rock dos Stones, de quando Brian Jones estava vivo? Mas, nada era fácil e simples, o destino pregava peças. A supervisora do setor de relógios, por exemplo. Os pais a batizaram com a palavra que designa o ponto mais alto no céu.

Nada no mundo poderia ser mais irônico. Naquela época, eu sabia de poucas coisas e via cada pessoa como um universo inexpugnável. Complicado ler os outros, decifrar os seus infernos. De algumas, confesso, desisto logo nas primeiras páginas. Nem sempre a leitura nos pega no melhor momento, e eu… bom, eu vendia relógios.

Os balcões viviam repletos de possíveis clientes. Alguns atravessavam de um lado da rua ao outro por dentro da loja. Na passagem, pediam para ver algum modelo. O que eu dizia a eles? Comentava sobre o sentido real do tempo ou o ar misterioso de Brian Jones, talvez. Acho que falava de modo esquisito, como diz uma amiga.

Falo meio estranho ainda? Talvez mais, já que hoje julgo saber uma coisa ou duas. Lembro de sentir frequentemente a minha cabeça latejar de desejo. Penso que era o peso de algo dentro da bolsa, dentro do bolso, dentro de mim, aquele algo que eu carregava com tanto cuidado que fazia doer os braços e o corpo todo.

Às vezes, eu criava coragem e olhava aquela coisa nos olhos, tentando dar alguma forma. Teria sido tão mais fácil. Mas ali estava ela, pedra que eu só conseguia mover milímetros e que rolava continuamente ao mesmo ponto. Há pelo menos 50 toneladas de ouro nos subterrâneos do planeta Terra. Há muito mais no espaço.

Pesquisadores dizem que também há ouro no Universo. Ele é produzido pela colisão entre as estrelas de nêutrons. Claro que os olhos de muitos terráqueos brilharam diante da possibilidade de explorar essas jazidas intergalácticas. Pena que elas sejam inacessíveis, pelo que se sabe. Sorte que elas sejam inacessíveis.

Há coisas tão valiosas que é melhor que estejam fora do alcance, feito essa certeza tola que me fez seguir adiante, e até agora. Algo valioso, bem se sabe. Mesmo quando eu não possuía nada além de uma coleção de revistas em quadrinhos e o único rumo possível parecia ser o balcão de uma loja. Eu vendia relógios.

 Kátia Borges é escritora e jornalista

Fonte: Correio