Por que os soteropolitanos não chamam suas principais avenidas pelo nome oficial?

Avenida Luís Viana Filho, mais conhecida como Paralela (Foto: Evandro Veiga/Arquivo CORREIO)

Você se lembra da primeira vez na sua vida em que se olhou no espelho e pensou: ‘eu sou Fulana(o) de Tal’? É uma pergunta estranha, mas pra mim faz todo o sentido porque lembro razoavelmente bem do dia em que descobri meu nome. 

Foi no primeiro dia de aula, aos 5 anos, quando a professora Margarida, do Grupo Escolar Amoedo, deu pra chamar por um tal de João Gabriel na sala. Não sabia quem era o sacana, então, na minha estava, na minha fiquei, até que ela mirou em mim.

– Menino, como é seu nome?
– Meu nome é Johnny.
– Não, seu nome é João.
– Não, meu nome é Johnny. Né não, Vanessa?
– É! O nome dele é Johnny, confirmou minha prima.

E aí a pró Margarida, explicando que Johnny era um troço chamado apelido (‘Meu nome não é Johnny?!’), me apresentou a mim mesmo, e foi um prazer. 

Satisfação, aliás, que eu duvido que seja reeditada quando a Avenida Suburbana descobrir que é macho e se chama Afrânio, ou quando a Contorno se deparar, no RG, com um tal de Lafayete…

Prepare uma avenida
Essa semana, dando uma folheada no livro ‘Histórias de Salvador nos nomes das suas ruas’ (Edufba, 2006), de Luiz Eduardo Dorea, me deparei com uma observação interessante sobre os nomes de avenidas importantes surgidas a partir das décadas de 1960-70: dentro do contexto de grande crescimento populacional, a cidade passou a aproveitar os vales como vias de tráfego, mas dos oito novos caminhos, apenas um é conhecido, hoje, pelo nome oficial.

Tirando a Avenida Antonio Carlos Magalhães (ou ACM), as outras sete mencionadas têm em comum o fato de não serem chamadas pelos soteropolitanos do jeito que pretendiam. 

Assim que a Avenida Afrânio Peixoto é a popular Suburbana; a Presidente Castelo Branco é o Vale de Nazaré; Reitor Miguel Calmon é igual a Vale do Canela; Luís Viana Filho atende por Paralela; Mário Leal Ferreira vem se alguém chamar por Bonocô; General Graça Lessa vira pra olhar se você gritar Ogunjá e, por fim, Lafayete Coutinho que, sem ter onde fazer retorno, chamamos de Contorno.

Mas por que esse ‘desrespeito’ a quase todo o Clube do Bolinha das vias, formado geralmente por nomes (de homens) influentes, geralmente da classe política anteriormente ligados ao Direito, Engenharia, Medicina ou militarismo?

A voz do povo
Quem me ajuda a decifrar esse claro enigma é o historiador Rafael Dantas, para quem a decisão popular de como chamar cada quebrada depende de fatores diversos, que quase nunca têm a ver com a intenção de quem batizou a via à revelia dos usuários.

“Primeiro, a gente tem que levar em consideração que uma coisa é a intenção oficial – por parte de um governante, de um projeto político –, e outra é como a população encara isso. Historicamente, muitos nomes de ruas, bairros e outros lugares surgiram por conta das características geográficas ou sociais, de personagens que ali existiam”, explica Dantas, que tem feito lives e palestras sobre a história dos bairros da cidade.

As premissas citadas podem ser identificadas em alguns dos casos aqui abordados. “A Contorno é a avenida que contorna a região do morro entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa. No Vale do Canela, acabou prevalecendo esse nome por conta das plantações de canela que ali existiam. A Suburbana acaba levando o nome da região onde está inserida, um lugar de história ligada à parte férrea, à periferia, ou seja, a região distante”, ilustra o historiador, antes de citar o caso do governador que (inaugurou e) não emplacou o nome Afrânio Peixoto, tampouco se estabeleceu quando resolveram homenageá-lo.

“A Paralela é outro exemplo interessante porque é paralela à Avenida Otávio Mangabeira (orla). Então, Luís Viana Filho, apesar de ser um personagem importante da política baiana, ligado a uma das famílias mais tradicionais do estado, não foi tão forte assim para continuar sendo lembrado como nome da avenida”, destaca.

O insucesso recorrente de quem põe um nome “estranho ao gosto popular” ou mesmo as tentativas malfadadas de mudar o que já foi estabelecido também pode ser observado em outros casos mais antigos.

“Um bom exemplo é o Terreiro de Jesus, que até tentaram que se chamasse Praça 15 de Novembro, em homenagem à Proclamação da República, ou Praça Conde d’Eu, em homenagem ao marido da Princesa Isabel, e também não foi pra frente. Ou seja, prevaleceu o nome antigo que faz referência ao Colégio dos Jesuítas, em frente à Catedral Basílica. Então, o que prevaleceu ao longo da história da cidade foi essa inserção, essa característica principal em que as pessoas acabam nomeando o espaço, ou acaba prevalecendo aquilo que já se configurava”.

Ou seja, não parece muito promissor, nesse contexto, querer meter algo por cima de Praça da Mãozinha ou Praça da Cruz Caída, embora tais locais tenham seus nominhos oficiais.

Exceções
Dobrando o Cabo das Tormentas/Boa Esperança deste texto, lembro de quando era guri e fui visitar minha tia Gracinha (Deus a tenha), que morava na Invasão das Malvinas. Era final da década de 90 e consta na minha memória ligeiramente corrompida que o povo ainda não havia adotado plenamente o nome Bairro da Paz, escolhido através de plebiscito em 92.

Hoje em dia, dá pra dizer que pegou de vez, mas demonstra também que é um processo lento, só acelerado por uma boa campanha midiática, como sugere o historiador Nelson Cadena, colega colunista neste CORREIO.

“A imprensa é quem tem um dos papéis mais importantes nesse processo”, reforça ele, ponderando que nem sempre essas tentativas acabam dando certo. É o caso da Avenida JJ Seabra que, claro, não teria como desbancar o topônimo Baixa do(s) Sapateiro(s), eternizado por Ary Barroso.

Cadena menciona o curioso caso da Avenida Sete (idealizada pelo mesmo Seabra), que tem dentro dela vários outros segmentos.

“A avenida vai da Praça Castro até o Farol da Barra, mas para a população ela vai até o Passeio Público. A partir dali vira Corredor da Vitória, depois Ladeira da Barra, passa pelo Porto”, lembra o pesquisador e escritor, citando ainda outras intersecções na parte principal da via como Mercês, Rosário, Piedade, São Pedro, São Bento… É tanto corte que já dá pra mudar o nome pra Avenida Sete Pedaços.

Avenida ACM passa por mudanças para implantação do BRT (Foto: Arisson Marinho/Arquivo CORREIO) 

Mas voltemos às sete avenidas de nomes trocados. No capítulo que comenta a curiosidade, Luiz Eduardo Dorea cita um texto de João Camilo da Cunha Neto que faz a seguinte observação:

“Apenas a Avenida ACM, que originalmente chamava-se Avenida Vale do Camurujipe, por causa do rio que acompanha o seu traçado desde o início (…), não permanece conhecida pelo nome original, fato este desconhecido pela maioria da população”.

Sim, só a ACM vingou (nesse caso, na ideia de mudar), mas por quê? Para Rafael Dantas, a explicação está no fato do ex-prefeito / governador / senador, falecido em 2007, não ser “só um personagem político, mas um personagem icônico, de referência para a cidade”. “Então, socialmente, popularmente” ele foi aceito e rapidamente assimilado.

Enfim, agora que estamos conversados, qualquer hora podemos marcar pra tomar uma no Mercado do Peixe antes que o novo nome pegue e estejamos sujeitos à rima inconveniente.

Fonte: Correio