Pesquisadores temem que politizar vacina para Covid-19 prejudique imunização

Em meio ao impasse sobre a aquisição da CoronaVac, vacina da farmacêutica chinesa Sinovac, pelo Ministério da Saúde, pesquisadores dizem temer que disputas políticas fiquem no caminho da imunização nacional contra a Covid-19 e que Estados precisem recorrer à Justiça para ter acesso ao imunizante, caso seja o primeiro a ser aprovado.

“Conforme os últimos posicionamentos do governo, existe chance real de que os Estados tenham que se mobilizar, talvez coletivamente, para realizar a compra da vacina à parte ou até acionar o Judiciário para tentar forçar a adoção da primeira vacina que seja aprovada”, avalia o advogado e diretor executivo do Instituto Questão de Ciência, Paulo Almeida

Um dia depois de o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, anunciar que assinou um protocolo de intenções para adquirir 46 milhões de doses da CoronaVac, que deve ser produzida no Brasil pelo Instituto Butantan, o presidente Jair Bolsonaro mandou cancelar o ato. “Não se justifica um bilionário aporte financeiro num medicamento que sequer ultrapassou sua fase de testagem”, afirmou no Twitter.

“O povo brasileiro não será cobaia de ninguém”, completou. “Toda e qualquer vacina está descartada”, disse Bolsonaro após visitar a instalações da Marinha em Iperó (SP). Ele afirmou que, antes da compra, é necessária a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A vacina produzida pela Astrazeneca e pela Universidade de Oxford, do Reino Unido, ainda não passou pela aprovação da agência, mas o governo federal garantiu, ainda em agosto, a aquisição de 100 milhões de doses.

Paulo Almeida, do Questão de Ciência, pontua que uma aquisição em massa pelo ministério tende a ser mais barata, por concentrar um volume maior de vacinas, e a dar menos margem a corrupção, que seria facilitada pela enxurrada de pedidos vindos de diferentes pontos. Para José Cássio de Moraes, especialista em imunização e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, o cenário incerto também é preocupante. 

“É profundamente lamentável, porque o Programa Nacional de Imunizações (PNI) tem uma característica do SUS, que é a universalização do atendimento. A pessoa não vai fazer teste de fidelidade a partido político ou ideologia para ser vacinada ou não. Esse bate boca não leva a nada”, reflete. 

Para a infectologista e professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Raquel Stucchi, houve apropriação política também por parte do governo de São Paulo, que chegou a prever a vacinação para 15 de dezembro. “Isso é, no mínimo, inconsequente e de má-fé, porque quem ouve que teremos uma vacina daqui três, quatro semanas, pensa que não precisa mais se preocupar”, alerta.

As idas e vindas dos discursos das autoridades brasileiras sobre a imunização podem levar a descrédito da ciência no país, na visão da microbiologista da Universidade de São Paulo (USP) e diretora presidente do Instituto Questão de Ciência, Natália Pasternak. “A politização tomou conta das vacinas e isso pode abalar a confianças das pessoas nos imunizantes como um todo, não só na vacina para Covid-19. Isso pode servir de combustível para o movimento antivacina no Brasil, onde ele nunca teve presença forte”, diz. 

Governadores

O recuo do governo repercutiu negativamente entre governadores como Flávio Dino (MA), Renato Casagrande (ES), João Azevêdo (PB) e Eduardo Leite (RS). O governador de Minas, Romeu Zema (Novo), não se manifestou. Na terça-feira, após reunião com Pazuello, ele disse: “Ninguém em Minas Gerais vai ficar sem essa vacina”. Procurada, a Secretaria de Estado de Saúde não deu retorno até o fechamento desta edição.

A CoronaVac usa vírus inativo e está na fase 3 de testes com brasileiros desde julho. “O que deveria importar é se a vacina é segura e eficaz. Infelizmente, estamos vendo uma politização da vacina, que coloca milhares de pessoas em risco. Se for assim, as pessoas têm que deixar de usar vários materiais médicos também, porque grande parte vem da China”, afirma um farmacêutico de 39 anos que tomou as duas doses da candidata vacinal como voluntários nos testes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) . “Voltar atrás demonstra que o presidente não está muito preocupado com a saúde do brasileiro”, diz uma médica de 26 anos que também participa dos estudos.

Fonte: Agencia Brasil