Baiana morta em ataque na França salvou pessoas em atentado de 2016

É impossível contar quantas vidas foram salvas pela baiana Simone Barreto em 14 de julho de 2016. Por volta das 22h40 daquela noite, um caminhão invadiu a Promenade des Anglais, avenida de 7 quilômetros em Nice, no sul da França, e atropelou centenas de pessoas reunidas no local para comemorar o Dia da Bastilha. Durante o ataque terrorista que deixou 86 mortos e mais de 400 feridos, Simone abriu a porta de sua casa para abrigar e proteger os cidadãos franceses. A história de heroísmo da baiana foi contada por sua irmã Solange Barreto ao jornalista Osmar Marrom Martins, colunista do CORREIO. Quatro anos se passaram e, na quinta-feira (29), Simone foi uma das vítimas do atentado à basílica de Nice.  

De acordo com testemunhas, a forma como Simone morreu pode ter contribuído para que o ataque não fizesse muitas vítimas. É que após ser ferida por golpes de faca, ela correu, mesmo ensanguentada, em direção a um restaurante quase em frente à catedral, onde tentou se abrigar. A cena chamou a atenção das pessoas, que informaram à polícia. Ao chegar ao local, policiais balearam o autor do atentado, identificado como Brahim Aouissaoui, um tunisiano de 21 anos, que chegou à França em 9 de outubro, procedente da Itália. Ele está hospitalizado.  

“Simone era chefe de cozinha e bastante religiosa, não é à toa que morreu dessa forma. Sempre alegre, seu sorriso de baiana linda, que amava a vida, era encantador”, lembra o amigo Adilson Rodriguez, brasileiro que vive em Paris há quase 30 anos e criou na capital francesa a festa baiana ‘Lavagem da Madeleine’, da qual Simone participava. “Ela morreu dizendo que amava os filhos, segundo as testemunhas”, afirmou Adilson.  

Simone era apaixonada pela Bahia, segundo os amigos (Foto: arquivo pessoal)

O atentado ocorreu às 9h da França (6h da manhã, em Salvador) e Simone só faleceu uma hora e meia depois de ter sido ferida. Ela tinha nacionalidade francesa e deixou três filhos, um marido francês, e quatro irmãs – três que moram na Europa e uma que vive na Rua Pedra Branca, no Lobato, subúrbio de Salvador. Foi lá que Simone nasceu, cresceu e viveu até 1995, quando foi buscar melhores oportunidades de vida fora do país.  

De acordo com a amiga de infância, Nelcy Ataide, os pais de Simone já são falecidos e quase toda a família dela vive no exterior. “Antes de morrer, a própria mãe de Simone tinha se mudado para a França e só ficou a irmã mais velha. A última vez que ela veio aqui na Bahia foi em 2013, mas teve que voltar logo por causa dos filhos”, disse.  

Além das três irmãs, três primas e um sobrinho de Simone vivem na França. Nenhum deles quis falar com a reportagem. Segundo Adilson Rodriguez, os familiares foram orientados pela polícia francesa a não darem detalhes da vida pessoal, por questão de segurança relacionada ao estado de alerta vivido pela França após o atentado.  

Baianidade à francesa  
Segundo Tonho Matéria, ex-vocalista do Araketu e amigo da família, quando Simone foi morar na França para mudar de vida, outras duas irmãs já estavam pela Europa: Bárbara, que já foi rainha do Araketu, e Solange, responsável pela realização da festa de Iemanjá em Nice.  

Na década de 1980, as duas irmãs integravam um grupo de dança chamado Tropical Brasil, que se apresentou em muitos lugares da Europa. “Esse grupo espalhou muita gente da dança e da capoeira no mundo inteiro. Duas irmãs dela ficaram e, enquanto foram se estabelecendo, outras pessoas da família foram partindo, inclusive Simone”, disse.  

“Naquela época, o sonho de todo jovem era ir pro exterior, ganhar dinheiro lá e construir uma casa aqui no Brasil para a família. Eu também tive a oportunidade de ir, mas minha mãe não deixou. Elas eram do Lobato e eu sou do Pau Miúdo. Hoje, são essas pessoas que promovem eventos e espalham a cultura brasileira lá fora”, destacou Tonho Matéria.  

Isso é tão verdade que Simone realizava com a família, desde 2012, o Festival Cultural Brasileiro “Fête (festa) de Yemanja Nice”. O evento acontecia anualmente e só não foi realizado em 2020 por causa da pandemia da covid-19. A festa é feita em parceria com a Prefeitura de Nice e a associação Brasuca Show. O colunista do CORREIO já participou do evento em 2016 e conheceu pessoalmente a família Barreto.  

 

“É incrível como eles conseguiram fazer uma festa bem parecida com a que ocorre em Salvador. Eu estou impressionado”, disse o jornalista Osmar Marrom Martins à TV francesa, na época. Este ano, em uma reportagem exclusiva para assinantes, Marrom contou a história da irmã de Simone, Solange Barreto, e de outros baianos que levaram as festas populares da Bahia para o mundo. Em 2016, Solange recebeu o Prêmio Berimbau de Ouro pelo evento realizado e seu trabalho de ajuda aos brasileiros que vivem no exterior. Simone era o braço direito da irmã.  

Nesse sábado, 31, a família vai se reunir na Église Saint-Pierre-d’Arène de Nice, a Igreja de São Pedro, das 14h às 20h. “A família Barreto estará presente para receber com todo amor e carinho os amigos e familiares de Simone Barreto”, disse Rita de Cássia, prima de Simone, em um comunicado oficial.

“A nossa família não será a mesma sem o seu sorriso. O que mais nos encantava e alegrava os nossos dias era este sorriso. Vai em paz, prima… sentiremos muito a sua falta e da sua alegria contagiante”, disse Rita em um texto publicado numa rede social.  

Mensagem de homenagem foi publicada numa rede social (Foto: reprodução)

Na sexta-feira, 30, uma missa em homenagem às vítimas do atentando, além de Simone morreram mais duas pessoas, foi realizada com a presença dos familiares. Ainda não há informações sobre o enterro da baiana, que pode, inclusive, acontecer em Salvador, caso o governo brasileiro ajude a família no translado do corpo e dos familiares que estão na Europa.

Segundo Adilson Rodriguez, amigo da família, essa definição deve demorar pelo menos uma semana.  

* Com a orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

Fonte: Correio