O dançarino baiano que saiu do bairro de Plataforma e foi parar em New York

Quando fui pela primeira vez cobrir a Lavagem de New York na primeira metade dos anos 2010 a convite de minha amiga Silvana Magda me chamou atenção um rapaz vestido com a fantasia do Afoxé Filhos de Gandhy. Sempre sorridente ele era um dos mais animados do cortejo. Foi quando Silvana me apresentou dizendo que ele era Slim Melo, baiano, nascido no subúrbio de Plataforma, tinha dançado no Balé Folclórico da Bahia e na prestigiada Alvin Ailey American Dance Theater.

Dai por diante, todos os anos que voltava a New York encontrava  Slim com o seu manto de Gandhy e com a mesma simpatia. Em New York onde vive até hoje, ele não esqueceu do garoto que participava de gincana, festa de largo, show de lambada de forró. “Eu só queria era dançar” confessou em entrevista para o Baú do Marrom na qual ele fala de tudo. Aos 34 anos, casado, nativo do signo de peixes, Slim não consegue tirar a Bahia de dentro dele.

Foto: Divulgação

Baú do Marrom – Como foi seu início de carreira na Bahia. O que você fazia?

Slim Melo – Aos 15 anos, no Liceu de Artes aconteceu o meu primeiro contato com a dança profissional. Um programa idealizado por Beth Rangel, que nos proporcionou experimentar o Balé Clássico, Dança Contemporânea e a Dança Afro, resultando na criação do Grupo de Dança do Liceu de Artes da Bahia, tendo o coreógrafo Jorge Silva e a coreógrafa Marilza Oliveira como peças fundamentais na criação e desenvolvimento dos nossos corpos dançantes. Meu processo de lapidação é começado ali tendo o ensinamento de grandes artistas como Carla Leite, Domiciano Santos, Simone Bonfim, Sônia Gonçalves, Rita Carneiro, Syssa Mercury, Luiz Mafuz, Paulo Alcântra e o queridíssimo maestro Sergio Souto. A minha passagem pelo Liceu foi um turbilhão de arte, cultura, sagração e esperança. No final dessa experiência, fomos presenteados a trabalhar com Zebrinha e a partir desse contato eu tenho a chance de conhecer Vavá Botelho e ingressar no Balé Folclórico da Bahia. O Balé Folclórico se tornava minha família. A minha casa. Em 2006, eu ganhei uma bolsa de estudos para estudar na Escola do Bolshoi em Joinville, então com o apoio da própria escola, de Zulu Araújo da Fundação Palmares que, Balé Folclórico, e de Diego Cunha que também estava cursando o Bolshoi, eu estudei Balé Clássico por dois anos em Joinville e fiz parte da primeira turma a se formar no Bolshoi do Brasil.

Alvin Ailey American Dance Theatre

Baú do Marrom – Como foi sua ida para os Estados Unidos?

Slim Melo – Eu tinha recebido uma oportunidade para estudar no Ailey em 2003, mas por causa da falta de apoio financeiro eu não tive a chance de viajar. Em 2009, com a ajuda de Carlos dos Santos, Zebrinha e Nildinha Fonseca, eu recebi novamente uma bolsa para o programa de verão da Escola do Alvin Ailey. O medo de perder essa chance afundava o meu coração, mas a esperança era muito mais.

Zebrinha com o apoio de Márcio Meireles e a Fundação Cultural do Estado da Bahia, conseguiu as passagens para NYC. Nildinha e Zé Ricardo as passagens para tirar o meu visto. E todos os outros professores por onde eu passei fizeram uma vaquinha para me ajudar com a viagem. Minha família, amigos da dança, da infância, todos contribuíram de uma forma que eu nem sei explicar. Eu chorei quando percebi que com essa ajuda a viagem seria possível, e choro hoje escrevendo essas palavras com a gratidão que tenho por todas essas pessoas que me ajudaram. Em julho de 2009 eu cheguei em NYC com o apoio do sui generis Carlos dos Santos que me acolheu por quase dois anos em sua casa como um filho. Depois de duas semanas de estudos, a escola me ofereceu a bolsa integral para os quatros semestres, e depois de 6 meses eu fui convidado a integrar a cia do Alvin Ailey II.

Baú do Marrom – Fale de seu trabalho na Cia de Balé em New York; quanto tempo você ficou?

Slim Melo – Por quase três anos com o Ailey II eu tive a chance de visitar mais de 20 países dançando trabalhos importantes como a coreografia “Revelation” do próprio Alvin Ailey também dançando a mesma com a cia Principal. Também tive a oportunidade de fazer parte por três anos do Metropolitan Opera Ballet (MET), atuando em produções com o cantor Plácido Domingo, entre outras óperas. No circuito Broadway/Off-Broadway, eu fiz parte do elenco original como Solista da produção “Apollo Club Harlem “, um trabalho inspirado no “Cotton Club” com a direção e protagonismo do grande “Maurice Hines”. Em outras oportunidades, eu tive a honra de dançar trabalhos solos de grandes nomes como Clifton Brown e Mathew Rushing.Durante todo esse período em NYC eu fui aluno de grandes professores como Dudley Williams (técnica de Graham), Ana Marie Forsythe (técnica de Horton), Pedro Ruiz (Ballet).

Foto: Divulgação

Baú do Marrom Atualmente o que você faz?

Slim Melo – Em 2015, comecei a explorar outros universos e acabei encontrando a indústria de vinhos que se tornou uma nova paixão. Me aprofundei nos estudos e cursei duas escolas de vinho aqui na cidade, entre outros cursos na Europa. Em 2016, eu fui convidado a ingressar o time de vinho do Hotel Mandarin Oriental como Sommelier Junior sendo liderado pela Master Sommelier Laura Wiiliamson. Em 2017, eu fui promovido a Sommelier, e em 2018 fui promovido a direção do programa como Head Sommelier. Hoje eu sou responsável pela criação, manutenção e tudo relacionado ao programa de vinho, como harmonização e treinamento de toda equipe.

No meio disso, estou estudando com o objetivo de atingir o mérito em me tornar um Mestre Sommelier, e também realizar um objetivo de gerar uma organização que possibilite jovens dançarinos a seguirem os seus sonhos cursando escolas de dança em todo o mundo.

Baú do Marrom – Como você faz para se conectar com a cultura da Bahia? O Carnaval, o candomblé as manifestações culturais

Slim Melo – Toda Sexta-feira, em qualquer lugar do mundo que eu esteja, eu visto branco. Se estiver em casa dia de seexta a minha moqueca também não falta. Fico com o coração partido todo ano perdendo a Lavagem do Bomfim. O coração aperta também toda Terça-Feira que eu passo longe de Gerónimo. E o carnaval?!… No carnaval, eu choro de saudade assistindo na TV a Timba, o Ghandi e o Ilê passar. No final, eu acendo as minhas velas, uso minhas contas e agradeço aos meus Orixás.

Fonte: Correio