Música de Gil feita como tarefa de gincana do Isba virou abertura de novela das oito

As definições de “apelação” foram atualizadas com sucesso no Instituto Social da Bahia (Isba) em 1988, alguns anos antes de o video game e a internet consagrarem o conceito de concorrência desleal num jogo. A ‘apelona’ atende pelo nome de Fafá Giordano, então aluna da 8ª série (ou 1º ano) que não se arrepende de ter recorrido ao marido da irmã para compor uma canção para a gincana escolar.

O cunha em questão, como já entreguei no título, é o senhor Gilberto Passos Gil Moreira, o maior brasileiro vivo, que no final dos anos 80 morava na Ondina, mesmo bairro do colégio que anunciou recentemente que irá encerrar as atividades.

Numa das atividades da gincana de 88 foi lançada uma novidade em relação às disputas anteriores: tratava-se de um desafio de composição. Cada equipe tinha que fazer uma canção inédita, tendo como tema a intrigante frase “Amarra o teu arado a uma estrela”.

Fafá Giordano com Gilberto Gil (Foto: Priscila Franco/Instituto Jobim)

Fafá, que nem costumava se envolver tanto nas brincadeiras, acabou convocada a levar tal demanda a quem entendia do assunto. “Eu falei com o Gil, e o Gil gravou pra mim. Eu falei ‘Gil, é pra gincana da escola, eu tô precisando. Você tem como fazer uma música?’”, conta à coluna a irmã de Flora Gil, que morava com a mana e o cunhado famoso na Rua Escravo Miguel, também na Ondina.

Amarradão com a frase e a proposta, Gil dormiu com a missão e acordou com ela cumprida. “Ele fez, e foi rápido. Eu pedi num dia e no outro ele me deu a música”, conta a atual produtora executiva da Gege Produções Artísticas, empresa que cuida da carreira do astro.

Todos as equipes que cumpriram a tarefa levaram os pontos previstos, mas, claro, a melhor composição ganhava pontos extras. “Eu cheguei lá [na comissão julgadora] e falei: ‘aqui tá a música, ela foi composta pelo Gil’. E aí como tem o protocolo da gincana, que tem que ser seguido [pra não perder pontos], a gente entrega, os jurados todos escutam, e aí eles deram como ganha a prova pra gente”, recorda Fafá, que não sabia que tinha em mãos, além da pontuação extra, o tema de abertura da novela das 8 do ano seguinte.

Mesmo sem virar um hit entre os estudantes (não era também essa a intenção), ‘Amarra o teu arado a uma estrela’ virou um sucesso nacional quando foi para a abertura de ‘O Salvador da Pátria’, simplesmente a 4ª novela de maior audiência da história da Globo, com personagens icônicos como Sassá Mutema e Juca Pirama.

Antes de entrar na novela, a ‘canção do Isba’ havia sido lançada por Gil no álbum ‘O eterno Deus Mu dança’, de 1989. “Como ela entrou no disco, ficou conhecida. Achei bem engraçado estar lá na abertura da novela”, comemora Fafá, antes de lamentar o fim da escola.

“Eu fiquei super arrasada. Era gostosa a minha época ali. Eu estudava no Isba e o Bem (Gil), filho mais velho da Flora, estudava na Gurilândia, que era do lado. Então, era engraçado que ali no recreio a gente podia sair, e eu encontrava com o Bem na porta da escola”, nostalgia-se Fafá, paulista importada para Salvador a fim de ajudar a irmã, Flora, que estava com Bela Gil no forno: a bebê ficou pronta e veio ao mundo em janeiro de 88.

Nascimento da frase
A ideia de dar um caráter mais cultural – e não apenas da disputa pela disputa – à gincana do Isba partiu da própria fundadora e diretora da escola, irmã Maria Alice Teixeira da Silva. Foi dela, inclusive, que partiu a sugestão de pedir uma música a partir de um tema poético, como conta o professor Eduardo Mattedi, que participava da comissão organizadora da gincana.

Comissão organizadora da gincana de 1992, que tem quase os mesmos integrantes que a de 1988 (Foto: Acervo Eduardo Mattedi)

“Maria Alice dizia que a gincana tinha que ter mais conteúdo, porque tinha competição, tinha coisa de curiosidades… Aí ela chegou pra a gente e disse: ‘eu quero as tarefas com conteúdo. Quero trabalhar a formação humana na gincana’. E a gente dizia que não combinava, ‘ninguém tá a fim’… Mas ela insistiu, mandou pra a gente uma série de ideias, de coisas, e no meio tinha essa frase, um ditado hindu que veio de um livrinho dela que dizia: ‘atrela a tua charrua a uma estrela’”, recorda o professor Mattedi, uma das pessoas mais próximas da irmã Maria Alice.

Nos bastidores, recorda ele, a comissão (formada por mais de 10 professores e outros colaboradores) chiava da proposta, mas não teve jeito. “A gente então traduziu essa charrua e colocou uma linguagem mais jovem, mudamos”, ficando a frase meio aluada. Deu tudo certo. “Dizem que ele (Gil) disse, assim que saiu o resultado: ‘taí, gostei, vou gravar’. Gravou e virou tema da novela”, comemora, orgulhoso, um dos co-autores do título.

[Obs.: há uma frase semelhante ao tal ditado hindu, citado pela irmã Maria Alice, que é atribuído ao filósofo americano Ralph Waldo Emerson: ‘Hitch your wagon to a star’].

Gincanas paravam Ondina
Se o alcance da frase foi tão grande, não se pode dizer menos sobre o que eram as gincanas do Isba nos 80’s e 90’s. Testemunha do sucesso da música de Gil no evento de 88, e de tantas outras coisas extraordinárias que aconteciam nas batalhas a cada ano, o administrador Osvaldo Curvello, 48, também lamenta o fim de uma era, com o fechamento da escola.

“Era um negócio absurdo, parava o bairro todo. Ali juntava cinco mil pessoas. Cada equipe tinha cerca de 300 pessoas inscritas, de várias salas diferentes, misturadas”, comenta ele, que estudou da 3ª série (82) ao 3º ano (91), e mesmo após mais de 3 décadas, ainda lembra dos nomes das equipes que marcaram época, como Paranoia 99, Deu Branco 00, além de Treze (a maior campeã), Zebra 15, 20V, entre outras.

Nostálgico, Curvello destaca o nível de organização das equipes, que começavam a se formar em abril para o evento que costumava acontecer só em agosto. “Pra você ter uma ideia, as equipes alugavam casas ou escritórios ali perto pra serem os QGs. Tinha patrocínio! Banco Econômico patrocinava uma equipe”, ilustra Curvello, reconhecendo que a música de Gil foi um momento especial no meio de muitos outros.

“O curioso disso daí [tarefa musical] é que o pessoal achou o tema esdrúxulo, completamente desconexo”, mas o gênio Gil reconectou, matou no peito e guardou lá dentro. Inapelável.

[A lembrança da ‘canção do Isba’ foi desencavada por Saulo Dourado, bróder, filósofo, escritor e professor que fazia parte do grêmio da escola].

Fonte: Correio