Pensando fora da garrafa: vinho em lata é bom? 

Foram muitos os narizes torcidos para o vinho em lata ao longo dos últimos anos. Principalmente entre os “enochatos”, que cercam a bebida de pompa e a relegam para ocasiões especiais. De nada adiantou: de uns meses pra cá, os mercado brasileiro se encheu de marcas nacionais com preços convidativos, a partir de R$ 13,90.

Este cenário (e a boa receptividade do consumidor) tem explicação: o formato já está consolidado no exterior, demorou a chegar no Brasil e traz uma nova experiência para o vinho. Com esses enlatados, taças são opcionais. E sem elas, um universo se abre para um consumo mais casual, sem análises sensoriais ou regras.

Dá para beber brancos, rosés, tintos e espumantes sem complicações na praia, num show, no churrasco e no encontro com amigos – situações em que a bebida é um excelente coadjuvante. É como se a poesia engarrafada abrisse espaço para uma prosa enlatada. Uma bebida que harmoniza, sobretudo, com ocasiões descontraídas.

Raio-X do Vinho em Lata
As latinhas brasileiras têm chegado ao mercado em versões de 269 ml – o equivalente a quase uma taça e meia. Excelente para evitar aquela situação de abrir uma garrafa inteira de 750 ml, beber pouco e esquecer o resto na geladeira.

Diferente do vidro, as latas são embalagens baratas. Estima-se uma redução em 25% nos custos com recipientes, segundo representantes da Sans Wine Co,  referência na produção de excelentes vinhos orgânicos em lata nos EUA. E também são mais sustentáveis: no Brasil, a taxa de reciclagem é de 98% e gera renda para milhares de famílias.

Elas também possuem uma vedação completa e o revestimento interno impede o contato direto entre o líquido e o metal, assegurando a preservação dos aromas e sabores. Por essas características, protege bem o vinho da luz e até poderiam receber bebidas mais elaboradas e complexas, como já tem acontecido no exterior.

Mas não tem sido o caso das vinícolas brasileiras, que vêm enlatando principalmente vinhos de entrada, fáceis de beber, com baixo teor alcoólico, jovens e prontos para serem consumidos.

Quanto à qualidade, um estudo feito pela WICReserch.com, entidade que realiza pesquisas no mercado de vinho em lata nos EUA, revelou que o consumidor final não encontrou diferenças significativas entre vinhos enlatados e suas versões engarrafadas.

Ou seja: não é a lata o que determina o alto ou baixo padrão do produto, mas a proposta da vinícola para aquela linha de vinhos.

Essa aposta tem sido principalmente em brancos e rosés tranquilos (sem gás), frisantes e espumantes, mas também há tintos neste formato. Com poucas exceções, são majoritariamente meio secos, o que não fica tão evidente quando o vinho é servido bem gelado.

Tendo dito tudo isso, tenho duas observações. A primeira é que, em alguns casos bem específicos, o custo-benefício não é interessante. Por mais alguns trocados, compra-se uma garrafa de 750 ml com tampa de rosca e um vinho honesto, de qualidade até superior. A ocasião é que vai ditar a escolha por uma embalagem ou outra.

A segunda é uma sensação de incerteza quanto à validade. A informação sobre safra nem sempre é clara e, na minha opinião, os prazos indicados no fundo das latas são excessivamente otimistas. Para o estilo adotado entre os produtores brasileiros, os vinhos estão em sua melhor forma em até 18 meses após a data de fabricação.

4 marcas brasileiras de vinho em lata para apostar

Para esta avaliação, comprei todas  as opções dos vinhos em lata brasileiros disponíveis no mercado em Setembro de 2020. Depois, surgiram outras duas marcas:  Vibra! (Vinícola Góes) e Becas Sparkling (Ponto Nero/Famiglia Valduga). mas estas  ainda não provei. A seguir, confira as latinhas que valem o investimento.

ARYA
 A marca ficou conhecida por ter recebido consultoria de Diego Arrebola, tricampeão do título de melhor Sommelier do Brasil. Tem latas safradas e eu adorei o Arya Prosecco 2020, fresco e leve, produzido com uvas selecionadas da Serra Gaúcha. O pack com 4 latas custa R$ 79 na Total Vinhos.

LET’S WINE
 A marca é da Bueno Wines – sim, de Galvão Bueno. O Let’s Wine Branco 100% Chardonnay é bastante agradável, levinho, com aquela acidez vibrante que vai cair super bem nos dias mais quentes. Tem aromas tímidos de frutas cítricas e de polpa branca. Comprei por R$ 13,90 na PortusCale, mas o preço tem oscilado bastante.

LOVIN
 A marca 100% digital se propõe a comercializar vinhos premium e leves. Gostei bastante do Lovin White Wine, elaborado com as uvas Moscato Branco e Prosecco/Glera da região de Vale Trentino, em Farroupilha (RS). Levemente adocicado e frisante, sem adição de gás, tem aromas que lembram frutas cítricas e brancas, como maçã verde. Ainda mais adocicado, o Rosé também agrada. O pack com 4 latas custa R$ 79,90 + frete no site oficial da marca.

VIVANT 
 Pioneira em solo brasileiro, a Vivant chega com rótulos divertidos e com a cara do verão. Vá direto no Vivant Branco, um 100% chardonnay bem fresco, de cor amarelo palha e aroma de frutas cítricas. Custa R$ 13,90 na Evino.

Um pouco de história

A ideia de guardar vinhos em recipientes metálicos surgiu da primeira metade do século passado. Vinícolas americanas iniciaram testes por volta de 1936, porém persistiam problemas com a estabilidade da bebida,  longevidade e corrosão do alumínio. A solução foi encontrada pelos fundadores da australiana Barokes Wines apenas no início dos anos 2000, que criaram novas diretrizes para produção do vinho a ser enlatado; a lata e seu revestimento; e o processo de preenchimento do recipiente. 

Após esse marco, foram registradas algumas iniciativas isoladas, como o espumante enlatado da The Family Coppola nos EUA. Porém, o mercado só despertou para o formato por volta de 2014, com vinícolas tradicionais de todo o mundo adotando a novidade. Não houve um fato específico que marcasse esse novo momento, mas pesquisadores apontam que os millennials – e seus hábitos de consumo menos conservadores – contribuíram para essa revolução no mercado.
 

Fonte: Correio