Arcos da Ladeira da Montanha são reformados pela primeira vez na história

Pedro Bala, enquanto subia a Ladeira da Montana, ia pensando que não existia nada melhor no mundo do que andar assim, ao azar, nas ruas da Bahia. Essa descrição foi feita pelo escritor baiano Jorge Amado, no romance Capitães da Areia, em 1937. E já naquela época os 17 arcos que sustentam a Ladeira da Montanha eram famosos na cidade. Nesta quarta-feira (4), eles voltaram a ser assunto porque foram reformados.

Um ano e quatro meses após a assinatura da ordem de serviço para a restauração das estruturas e doze meses após o início das obras, elas foram entregues pela prefeitura. Essa foi a primeira grande reforma desde que os 17 arcos foram criados, no século XIX, e a nova paisagem não lembra nem de longe a antiga.

Interior dos espaços também foram reformados
(Foto: Arisson Marinho/ CORREIO)

As fachadas de pinturas gastas e descascando, algumas com rachaduras evidentes, deram lugar a paredes lisas e coloridas. Por dentro, as mudanças também foram significativas. Foram implantados sanitários, pisos, mezaninos, cozinhas, escadas, áreas comerciais e industriais. O resultado difere bastante da época de Jorge Amado em termos de conforto, mas preserva as mesmas características daquele tempo.

O marmorista Otacílio Natalino Pereira, 71 anos, o Seu Tatá, começou a trabalhar nos Arcos da Ladeira da Montanha nos anos 1960, quando tinha apenas 14 anos. É um dos mais antigos artífices da região. Nesta quarta, os olhos atentos do idoso estudavam cada centímetro da fachada nova, depois de ter inspecionado em detalhe do interior da loja. A madeira coroída e os cupins não estão mais lá, mas as memórias ele garante que ainda estão bastante vivas.  

“A fachada estava gasta, e a escada muito danificada. Eles cuidaram de tudo. O piso também é novo, e fizeram até o passeio que também estava todo quebrado. Nesses mais de 50 anos que eu tenho trabalhando aqui nunca fizeram uma reforma como essa. Já teve reforma na fachada, mas uma completa como essa ainda não tinha visto”, contou, enfrente ao número 8, endereço do novo local de trabalho.

Prefeito durante a inauguração dos novos espaços
(Foto: Arisson Marinho/ CORREIO)

Reforma
O investimento na obra foi de cerca de R$ 3,4 milhões, e a requalificação faz parte de um conjunto de 35 iniciativas para a revitalização do Centro Histórico, que, juntas, somam cerca de R$ 300 milhões. O prefeito ACM Neto realizou a entrega oficial dos espaços e destacou a parceria entre a Prefeitura e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) nesse e em outros projetos.

“Aqui estamos inaugurando, hoje, uma obra que reflete essa grande relação de parceria que foi estabelecida. Afinal de contas, o projeto da recuperação de todos esses arcos é do Iphan, foi desenvolvido pelo Iphan. Inicialmente, a ideia era que essa obra pudesse ser executada com recursos federais, no entanto, com a crise econômica e o contingenciamento de recurso, colocou-se uma interrogação sobre a possibilidade de execução dessa obra. Acertamos com o Iphan que eles nos doariam o projeto, nós faríamos a licitação, executaríamos a obra e pagaríamos com recursos próprios”, contou Neto.

A Ladeira da Conceição também ganhou nova iluminação e as calçadas foram recuperadas. Quatro dos arcos foram descaracterizados e receberam intervenções mais radicais, como sacadas e varandas. Das 17 estruturas existentes, duas estavam fechadas e nunca foram ocupadas. Já as outras 15 funcionavam de forma improvisada. As reformas incluíram também a substituição das redes elétrica e hidráulica desses espaços.

Local recebeu iluminação especial
(Foto: Arisson Marinho/ CORREIO)

Cultura
Os arcos foram construídos no século XIX com a melhor tecnologia da época, em um momento áureo daquela região da cidade, e com o tempo foram sendo ocupados por sapateiros, serralheiros, carpinteiros e outros profissionais liberais. A função das 17 estruturas é sustentar a Ladeira da Montanha, e todas são tombadas pelo Iphan.

O superintende do Instituto na Bahia, Bruno Tavares, participou da entrega dos arcos reformados e disse que a obra conseguiu preservar o patrimônio histórico, além de atender as necessidades dos moradores e trabalhadores que usam os espaços.

“A estrutura das edificações que estavam nos arcos eram muito precárias, eram adaptações que foram feitas para as atividades comerciais e moradias. A gente conseguiu implantar mezaninos e oferecer infraestrutura já programada para o maquinário necessário que será usado nas atividades comercais, e infraestrutura para as moradias com rede elétrica, sanitário, e quartos. Além disso, a região tem uma vista fantástica”, contou.

O projeto de restauração foi elaborado pelo Iphan, em 2014, e seria executado pelo PAC Cidades Históricas, do Governo Federal. O projeto não avançou e, em 2015, foi doado para a prefeitura. O objetivo era tornar os espaços mais confortáveis e adequados para as atividades que são desenvolvidas, e ao mesmo tempo preservar o conteúdo histórico.  

Quando a reforma foi anunciada, em junho do ano passado, o Iphan informou que essa seria a primeira grande intervenção realizada nos arcos desde que eles foram criados e que o projeto foi discutido com os moradores e artífices, em negociação mediada pela Defensoria Pública da União. As obras foram executadas pela Secretaria Municipal de Infraestrutura e Obras Públicas (Seinfra), e acompanhadas pela Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF).

Pedro Bala não alcançou o século XXI, mas se estivesse com a turma de amigos correndo entre as ladeiras da Cidade Alta e Baixa, hoje, talvez repetisse as palavras de um dos artífices que foi conferir o resultado da obra. “Ficou massa!”.

Mais obras
Além da recuperação dos 17 arcos da Ladeira da Montanha, existem outras duas parcerias entre a prefeitura e o Iphan para recuperar mais dois pontos históricos de Salvador. Uma delas é a requalificação da Muralha do Frontispício que será entregue ainda esse ano. Símbolo de fundação de Salvador, a estrutura está passando por obras cênicas e paisagísticas no trecho entre a Praça Castro Alves à Ladeira da Misericórdia.

A outra é a requalificação do Elevador do Taboão que faz a ligação entre o Pelourinho e o Comércio. O equipamento está parado há 54 anos. As ações envolvem a restauração integral do ascensor e obras de modernização das instalações, com objetivo de adequar a edificação às normas técnicas vigentes, inclusive de acessibilidade.

O equipamento também contará com áreas de convivência com mesas, sanitários e café. Foi preciso encomendar uma nova estrutura de elevador e, por isso, a reforma ficará pronta o próximo ano. O investimento é de R$3,7 milhões.

Fonte: Correio