Caso Mariana Ferrer revolta mulheres e pauta candidato em Florianópolis

Nas redondezas da casa noturna na praia de Jurerê, em Florianópolis, onde a influenciadora digital Mariana Ferrer afirma ter sido estuprada em 2018, mulheres comentavam indignadas, na manhã desta quarta-feira (4), o desfecho do caso na Justiça.
“Aconteceu o que aconteceu e não tinha nenhuma outra mulher ao lado dela. Eram todos homens no julgamento. Foi errado de todas as maneiras. Aquele julgamento estava errado, ela estava sozinha. Assim como no dia do estupro, ela foi deixada sozinha”, opina a empresária Carolina Rodrigues, 30, enquanto frequenta um salão de beleza próximo ao local do crime.

O empresário André de Camargo Aranha foi inocentado no julgamento, apesar das provas de que houve relação sexual. Em audiência do julgamento, a blogueira foi ofendida pelo advogado de Aranha.

Vídeo com as ofensas sofridas por Ferrer na audiência foi divulgado na terça-feira (3) pelo site Intercept Brasil. Ao noticiar o caso, o veículo cunhou a expressão estupro culposo [sem dolo] para resumir a tese da promotoria –o termo não foi utilizado no processo.
No vídeo divulgado, Ferrer reclama do interrogatório.

“Excelentíssimo, eu estou implorando por respeito, nem os acusados, nem os assassinos são tratados do jeito que estou sendo tratada, pelo amor de Deus, gente. O que é isso?”, diz.

“Me incomodou muito ver o vídeo, o advogado foi terrível. É como uma oportunidade para mais mulheres serem estupradas e não poderem denunciar”, opina Maikiely Da Silva, 28, funcionária do salão que funciona na praia de Jurerê.

Em outro salão de beleza de Florianópolis, o clima de revolta com o caso era o mesmo. Manicures e cabeleireiras estavam incomodadas com o tratamento recebido por Ferrer na Justiça.

“É impossível fazer um estupro sem querer. Todo mundo que trabalha aqui está indignado. Como assim, um estupro sem intenção?”, comenta Dani Oliveira, 35, recepcionista do local.
“As pessoas estão achando absurda a ideia do advogado e estão revoltadas com o juiz por ele não ter feito nada [diante da agressão contra Ferrer]”, comenta Manu Rocha de Mattos, 27, recepcionista de um salão de beleza com 30 funcionários.

Até mesmo a eleição municipal de Florianópolis foi pautada pelo tema. O candidato à prefeitura Elson Pereira (PSOL) se manifestou em defesa da jovem. “Florianópolis não pode mais ser palco para violência contra a mulher. Não existe estupro culposo”, escreveu nas suas redes sociais.

Recentemente, o atual prefeito e candidato à reeleição Gean Loureiro (DEM) foi acusado por uma ex-assessora de estupro. Imagens do prefeito gravadas pela autora da denúncia chegaram a circular nas redes sociais.

O prefeito admitiu o caso em vídeo, mas alegou que as relações sexuais foram consentidas, o que a assessora nega. A Câmara de Vereadores rejeitou na na última terça-feira (3) os processos contra o prefeito por falta de decoro.

Divulgação de protestos em defesa de Ferrer pelo país lembram o #8M, quando marchas tomaram as ruas em 8 de março pelos direitos das mulheres. Manifestações contra a sentença e que pedem “Justiça por Mari Ferrer” estão sendo convocadas em cidades como São Paulo e Porto Alegre. Há protestos marcados para o próximo sábado (7) e domingo (8).

Ainda em 2018, quando o caso veio à tona em Santa Catarina, um abaixo-assinado com mais de 30 mil assinaturas pedia que a casa noturna onde ocorreu o estupro fosse fechada.

“Só se falava nisso. Parecia que ela não tinha voz. Era como se não fizessem nada”, diz Naiele Gonçalves Silveira, autora da petição.
Para a advogada Gabriela Souza, sócia-fundadora do primeiro escritório de advocacia feminista do sul do país, em Porto Alegre, o caso pode gerar um impacto relevante, assim como o da Maria da Penha.

“Vai gerar uma mudança urgente sobre as violências sexuais. É um caso com potencial de impacto semelhante ao da Maria da Penha, em que um caso específico fez o Brasil ser condenado. E o Brasil merece ser condenado pelo caso da Mariana Ferrer”, diz Souza.

Fonte: Agencia Brasil