Agenda Bahia: fórum destaca importância da arte e da cultura

Protocolos de segurança, distanciamento social e eventos artísticos cancelados desde março. A pandemia da covid-19 impactou – e ainda impacta – aqueles que vivem da economia criativa, ou seja, de expressões culturais, artística, mídia e de design. Isso acontece ao mesmo tempo em que cresce a demanda por produtos artísticos, de diferentes formas e linguagens. Segundo o roteirista baiano Elísio Lopes Júnior, “a pandemia nos ensina que a realidade não sobrevive sem o sonho”. 

Essa declaração foi dada durante no 4º encontro anual do Fórum Agenda Bahia, que foi realizado através de uma transmissão ao vivo no canal do CORREIO no YouTube. O tema discutido foi a Economia Criativa Nos Novos Tempos e contou também com a participação do paulista Ricardo Laganaro, diretor audiovisual e sócio da Árvore Experiências Imersivas. “Trancados numa casa, sem arte, ficaríamos ainda mais loucos. Muita coisa surge através da arte”, disse Langaro. 

Elísio Lopes Júnior é roteirista (Foto: divulgação) 

O debate durou uma hora e foi mediado por Fernando Sodake, jornalista e apresentador do BATV, que ressaltou a importância da discursão desse tema. “O Agenda Bahia existe há 11 anos e, além de trazer informação, o objetivo é criar provocações. Essas conversas são importantes e a live tinha que ser mais longa para darmos conta de tanto conteúdo necessário”, disse.  

Também houve participação do público, que pôde enviar perguntas aos convidados através do chat ao vivo. Raimundo Leal foi um dos usuários que questionaram os participantes, numa altura do debate em que era discutido o uso de ferramentas tecnológicas para se fazer economia criativa. “Utilizar as mudanças tecnológicas e as novas linguagens e não ser ‘utilizado’ por elas não é o nosso desafio (compreender, apropriar, usar), ao invés de resistir ou negar?”, questionou. 

 Ao responder essa pergunta, o diretor audiovisual Ricardo Laganaro lembrou a importância da educação como ferramenta que contribui no conhecimento tecnológico. “A gente já descobriu com tudo que tá acontecendo na mídia social e na política que as escolhas são feitas por alguém e os efeitos são sentidos por todos. O começo de tudo é a educação: entender como funciona para interferir. Nossa luta é essa, entender para reivindicar com as empresas como as coisas devem funcionar”, disse.   

Ricardo Laganaro é especialista em realidade virtual (Foto: divulgação) 

Já Elisio Junior destacou a importância de incorporar as mudanças tecnológicas e suas novas linguagens no trabalho do artista conforme cada especificidade. “Não adianta lutar contra. Elas entraram na nossa história, na rotina, e temos que saber lidar com elas, entendendo que nem tudo se adapta a essa tela. Nem todas as linguagens artísticas tem obrigação de se encaixar nisso”, apontou.  

Assuntos 
O encontro também discutiu outros temas relacionados com a economia criativa, como os aprendizados dessa quarentena, a cultura no pós-covid, a revolução no audiovisual, realidade imersiva, novas linguagens, TV e teatro em uma sociedade hiperconectada e cada vez mais pautada pelos algoritmos. A conversa também abordou temas como diversidade, criatividade e a importância dos dados gerados pela arte. Elísio Júnior, por exemplo, apresentou o conceito de afrofuturismo, classificando a Bahia como “afrofuturista por essência”.  

“Essa teoria é a de aceitar a diversidade, ter uma sociedade diversa. O afrofuturismo propõem olhar para o passado para, através da sua memória ancestral, construir no presente um futuro mais diverso. É impossível que a sociedade seja justa e igualitária se ela parte de uma estrutura discriminatória. A Bahia é afrofuturista por essência. A nova música, o novo cinema, a nova moda, a reinvenção da música baiana são pretas”, disse.  

Elisio Lopes Júnior tem mais de 20 textos teatrais montados no Brasil. É um dos roteiristas do longa-metragem Medida Provisória, dirigido por Lázaro Ramos, com estreia no Brasil prevista para 2021. Seu último espetáculo foi o musical Dona Ivone Lara – Um sorriso negro. Já Ricardo Laganaro é especialista em realidade virtual, inclusive conquistando prêmios, como o leão do 76º Festival de Cinema de Veneza como “Melhor Experiência em Realidade Virtual” pelo projeto “A Linha” e o Primetime Emmy Award por “Inovação Excepcional em Programação Interativa”. 

“É importante usar essas novas possibilidades, como a realidade virtual, para pensar outras maneiras de fazer arte. O Brasil tem ganhado prêmios internacionais nesses novos formatos e isso é muito importante, pois como é algo novo, ainda não há uma referência a ser seguida. A gente precisa no país investir nessa indústria, para estarmos no topo, usando nossos sabores, nossa cultura como um padrão de conteúdo e não ficar atrás enquanto outras nações saem na frente”, explicou Laganaro. 

A economia criativa representa menos de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, num valor de aproximadamente R$ 171,5 bilhões, de acordo com dados da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan). São mais de 5 milhões de postos de trabalho diretos nesse setor, segundo o roteirista Elísio Júnior. “A pandemia abriu um abismo entre um artista que tem acesso a uma câmera boa, um local bem iluminado, uma infraestrutura para se fazer visível no online, e outra que n não tem tudo isso”, disse Júnior.  

As áreas de consumo (43,8%) e tecnologia (37,1%) respondem por aproximadamente 80% dos trabalhadores criativos. Há também uma série de empregos indiretos que são gerados pelo setor.  “E tem ainda os setores impactados indiretamente pela não realização do calendário cultural. Aqui em Salvador isso é mais forte ainda. Em 2020, já sabemos que o PIB do setor criativo vai ter redução”, concluiu o roteirista. 

Reveja a transmissão completa: 

 

Agende-se 

O Fórum   
Projeto de maior destaque no debate do desenvolvimento econômico e social do estado, o Agenda Bahia promove discussões sobre inovação, competitividade, qualificação e sustentabilidade, criando uma agenda propositiva e um observatório dos assuntos estratégicos para a Bahia. Em 10 edições, teve mais de 300 palestras e um público de mais de 10.700 pessoas. 

Por que?   
A pandemia antecipou futuros e colocou holofotes em antigos problemas sociais e estruturais. Obrigou o Homem a (re)definir prioridades, (re)pensar valores e a (re)aprender novas formas de viver, produzir, consumir, se relacionar e colaborar.  

Quem faz?   
O Fórum Agenda Bahia 2020 é uma realização do CORREIO, com patrocínio do Hapvida, parceria do Sebrae, apoio da Braskem, Claro, Sistema FIEB e SINDIMIBA e apoio institucional da Rede Bahia e GFM 90,1. 

* Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro. 

Fonte: Correio