Seis artistas da Bahia que podem estourar a qualquer momento

Já ouviu falar em 16 Beats, Áurea Semiséria, Kainná Tawá, Ofá, Swed Nunes e Wall Cardozo? Ou melhor, já escutou o som que estes novos artistas da música baiana produzem e que fazem suas correrias nas redes sociais e nos palcos alternativos da cidade. Eles estão dentro de um leque bem amplo, com referências que passam pelo rap, pagodão, funk, MPB e tantos outros estilos.

Referências múltiplas que nos dão tranquilidade para dizer que pode faltar muita coisa na Bahia, mas que nunca sofreremos carência de artistas cantando letras que falam do empoderamento da mulher gorda, como na obra de Áurea Semiséria; as masculinidades negras escritas por Wall, a conexão com ancestralidade e natureza condensadas nos versos de Sued Nunes e muito mais. Há um infinito de linguagens, estilos, ritmos e alternativas por aqui. Vários desses artistas esperam apenas uma oportunidade de aparecer e colocar seu trabalho para brilhar.

– 16 Beats

Aos 12 anos, o pequeno Anderson Santana teve o primeiro contato com música negra. Cria e criado no bairro de Pernambués, teve o incentivo dos primos que tocavam violão, guitarra, bateria e vários outros instrumentos. Decidiu que queria tocar percussão e bateria. Alguns anos mais tarde e percebeu que as batidas que aceleravam seu coração eram outras: os beats. E seu dom não era de tocar, senão de encaixar palavras e rimas. Assim, Anderson virou 16 Beats.

Tetracampeão baiano nas edições de batalhas do Circuito de Rima Improvisada, lançou sua primeira Mixtape em 2016, batizada de É Pra Lá Que Vai. Seu primeiro album, C.O.L.O.N.I.A, veio dois anos mais tarde denunciando racismo e genocídio da população preta na Bahia. Escute o som logo abaixo e acompanhe 16 Beats no Instagram @16beatsmc.

– Áurea Semiséria

Áurea Maria Lima, ou, Áurea “Semiséria” como é conhecida, tem 22 anos, mulher, preta, gorda e militante. Baiana, nascida e criada no bairro de Cajazeiras. A Carreta da XI, como se denomina, viu a música entrar em sua vida por conta da igreja. O rap veio bem jovem, no 7º ano do ensino fundamental. Fazia rimas, poesia e covers com amigos. As coisas começaram a ficar sérias em 2014: a rapper amazonense Mirapotira convidou Áurea para rimar durante um evento beneficente em Lauro de Freitas, se encantou e levou a menina para várias apresentações. O bichinho do rap tomou o coração de Áurea.

Em 2017 lançou seu primeiro clipe “Áurea Abolicionista” primeira faixa do seu EP “ROXOGG” que contém mais outras 4 faixas e conta com participações de Sico (N’Ativa), Indemar Nascimento, e Débora Evequer, produzido e mixado por Christian Dactes da gravadora NaCaladaRec. O nome #ROXOGG foi escolhido porque roxa é a cor predileta de Áurea Maria e o GG é a quebra de padrões, magnitude e atitude. A cor roxa está ligada ao mundo místico e significa espiritualidade, magia e mistério. Estimula o contacto com o lado espiritual, proporciona a purificação do corpo, da mente, a libertação de medos e outras inquietações. Para Áurea, é a cor da transformação e ela leva essas ideias por onde vai: em sua trajetória, tocou em cidades do interior baiano e teve experiências com shows em Recife, Aracaju e Rio de Janeiro. Abaixo, dá pra curtir o clipe da faixa Áurea Abolicionista. Ela também está no Instagram: @semiseria.

– Kainná Tawá

A música vem de berço na vida da mineira radicada em Salvador. Filha de Ayde Lewá e Kamaphew Tawá, cantores e compositores de reggae, teve nos pais as primeiras referências como artista. Durante sua trajetória, passou pelo circo e danças urbanas – mas foi a música, mais especificamente o Rap, quem ficaram com seu coração. E foi assim que começou a mergulhar na cena do hip hop, em 2006, com o grupo Remanescente, em sua terra natal.

Em carreira solo desde 2013. Kainná Tawá escreve sobre liberdade, assuntos sócias e raciais de uma forma muita ampla e direta, sem deixar de dizer sua visão do mundo e de seu interior. Sua música a levou a diversos lugares, e tem participações importantes em singles como Sangue, Suor e Lagrimas de: Max Souza, part.: Sarah Guedes, Kainná Tawá e Djonga e em discos como o “ Boa Noite” do grupo Julgamento e “Um dia eu chego la” do Chama o síndico. Atualmente, trabalha na produção do seu primeiro disco.

– Ofá

Idealizada em 2015, a Ofá é uma banda de música poético-afro-baiana. Tem como principais pilares a música de matriz africana, o jazz e o rock progressivo associados a um discurso poético (cantado ou recitado), que retrata assuntos como altruísmo, ancestralidade, resistência, transformações sociais e autoconhecimento. 

No ano de fundação, a banda lançou seu primeiro EP, “Além e Mais”, após ser contemplado no projeto “Incubadora Sonora”. O grupo já tocou na Bienal da UNE, Teatro Gamboa Nova, Festival MUSA, Feira da Cidade e fez shows com a cantora carioca Karla da Silva (ex-The Voice). Atualmente, o grupo atua em formato power trio, composto por Luan Tavares, Paulo Pitta e João Paulo Rangel, e está em produção do seu novo álbum, que será lançado em 2021. Acompanhe a Ofá no Instagram @ofaoficial

– Sued Nunes

Filha do recôncavo baiano, Sued Nunes nasceu em Sapeaçu, mas mora em Cachoeira por conta da formação em História – instrumento poderoso utilizado na composição da artista. Além de cantora, também é compositora e atriz. Apesar dos 22 anos e de ter iniciado a carreira musical há pouco tempo, Sued vem ocupando espaços no cenário musical da Bahia após o lançamento de Velejo, clipe de 2019. A canção que ressignifica a relação da artista com as águas, com as águas velejadas outrora apenas pela lembrança dos navios negreiros, é uma potente mostra de valor simbólico e cultural que emana de sua obra. Lançada no palco da Flica 2019, a canção e a artista caíram no gosto do público alcançando 11.039 visualizações do clipe no YouTube, convites para eventos universitários, rádios e televisão. Sued, obra/artista, dialoga diretamente com a juventude (e não só ela) negra do país, sua ancestralidade, os dilemas e propõe, acima de tudo, uma releitura destes corpos ceifados da história do país. Acompanhe Sued no Instagram @suednunes.

– Wall Cardozo

O lema de Wall Cardozo é objetivo: quando não te dão os meios para fazer, dê um jeito e faça por si próprio. Talvez isso explique a multifuncionalidade do jovem que consegue juntar força e sensibilidade em suas linhas quase sempre certeiras. Iniciou sua trajetória no grupo WLL Rap, que viveu entre 2013 e 2019 – desde então, segue carreira solo. Neste ano, lançou seu primeiro EP solo. Ehlo foi gravado, mixado e masterizado por ele mesmo em um pequeno homestudio que montou dentro do próprio quarto. Nos raros momentos de silêncio dentro de casa, gravou uma obra dividida em quatro faixas que versa sobre masculinidades negras e propõe ao ouvinte um cuidadoso olhar no espelho.
Logo no início da pandemia gravou o seu último trabalho, o single “No hype, do rap”, que faz uma sátira sobre os novos comportamentos gerados pelo coronavírus e satiriza uma série de questões dentro da própria cena do rap em Salvador e região metropolitana. Além da carreira artística, também tem um podcast que conta sobre a história do rap na Bahia, que você pode escutar clicando neste link. E segui quiser seguir o artista é só ir até o Instagram @wallcardozo.

Fonte: Correio