A importância da Pedra de Xangô, Parque São Bartolomeu e Dique para o povo negro

Quando você pensa em Salvador, quais são os lugares que aparecem na sua mente? Pensando daquele jeito rápido: se uma amiga ou amigo de outro estado chegasse à capital baiana, para onde você levaria?  Alguns desses locais está fora do eixo tradicional do turismo na cidade? Pois saiba: Salvador tem muito mais a oferecer do que a gente imagina.

Este ano, o Afro Fashion Day, evento de moda do CORREIO, quis fugir do clichê e buscou para as locações do Fashion Film – que será exibido dia 20 – uma oportunidade de se aproximar de outras Salvador: e o Parque São Bartolomeu foi um dos destaques. Com 155 hectares e gerido pelo Inema, o parque fica dentro da Bacia do Cobre, abriga uma das últimas áreas remanescentes de Mata Atlântica do estado e tem significado especial para a cultura negra e para os adeptos das religiões de matriz africana. 

Curador e produtor de moda do Afro, Fagner Bispo conta que fez uma seleção minuciosa dos locais de gravação, com  objetivo de valorizar uma Salvador fora dos roteiros mais clássicos Farol da Barra e Pelourinho, por exemplo. Para ele, levar um evento como o AFD para o Parque é uma forma de fortalecê-los e também de valorizar os modelos com suas identidades negras. 

Refúgio

A pedagoga Márcia Santos, 46, é do terreiro Ilê Axé Odé Yeye Ibomin, em Lauro de Freitas, mas diz que pelo menos uma vez por mês deixa suas oferendas no Parque São Bartolomeu – mais especificamente na Cachoeira de Oxum. Ela conta que começou a frequentar o local no início da vida adulta, quando dava aula em escolas do Subúrbio Ferroviário e ainda não era convertida ao Candomblé.

Segundo Márcia, São Bartolomeu é um dos poucos espaços de Salvador que possui monumentos dedicados às religiões de matriz africana e isso despertou sua curiosidade. Fez visitas guiadas junto a seus alunos e quando se deu conta já estava imersa no candomblé. A visita mensal é uma maneira de agradecer ao espaço por abrir os caminhos para a decisão que mudou sua vida.

Cachoeira de Oxum, no Parque São Bartolomeu (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Historiador que pesquisa as transformações no cenário urbano e como a Cidade do Salvador era exibida no final do século XIX e início do XX, Rafael Dantas explica que os espaços sagrados para as religiões de matrizes africanas em Salvador foram escolhidos, em sua maioria, pela necessidade dos adeptos realizarem seus cultos em um local que oferecesse contato com a natureza, principalmente com a água, e que, por motivo de segurança, fosse isolado do que era a capital baiana no passado. 

Nos séculos XVII e até o século XIX, o Parque São Bartolomeu ficava em uma região muito afastada da cidade –  que basicamente era compreendida entre o eixo da Praça Castro Alves até a região do Santo Antônio Além do Carmo. Ao redor dessa pequena Salvador o que havia eram fazendas, roças, sítios e regiões de mata.

“Não podemos esquecer que, durante muito tempo, predominou  a imposição da fé católica. Portanto, as pessoas escravizadas se afastavam para montar seus quilombos e poder manifestar a sua fé”, conta o historiador.

Com o passar dos anos, essa necessidade foi se transformando em pertencimento. Várias pessoas e casas de candomblé foram fundadas nesses espaços. E com a urbanização e o crescimento populacional, não têm sido poucas as dificuldades para  garantir a manutenção desses locais sagrados.

Pedra de Xangô

Dentro do Parque São Bartolomeu foram fundados quilombos como o do Urubu, chefiado pela Rainha Zeferina – personagem importantíssima nas batalhas pela Independência da Bahia. 

Mas o Parque não foi o único lugar a ter quilombos: na imensa região onde hoje é o bairro de Cajazeiras X, a Pedra de Xangô abrigava o quilombo do Buraco do Tatu. Presidente da Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia (AFA), Leonel Monteiro foi um dos pilares na luta pelo tombamento do monumento pela prefeitura municipal, que aconteceu há três anos e meio. A pedra fica numa área verde de 17 hectares e serve como aglutinadora da teia de terreiros do local.   

Os espaços são muito importantes para o candomblé, já que o culto às divindades negras necessita de espaço, do contato com a natureza por onde os orixás se manifestam. “Para além do espaço físico do terreiro, também preservamos a área que historicamente servem de manutenção para o culto. Dessa forma, possibilitamos que nossas práticas sejam realizadas e consequentemente o saber e o conhecer sejam passados para as futuras gerações”, explica Leonel.

Povo de Santo faz caminhada em direção à Pedra de Xangõ em 2016 (Foto: Marina Silva/Arquivo CORREIO)

Ele conta que um levantamento da AFA apontou que existem cerca de 2 mil terreiros de candomblé na capital baiana, mas que não sabe precisar quantas casas têm a Pedra de Xangô como seu local sagrado. O que garante é que são muitas, não apenas da capital, mas também de cidades do interior do estado e da Região Metropolitana, como Madre de Deus, Feira de Santana, Simões Filho e São Francisco do Conde. Para Leonel, a preservação desses espaços é de fundamental importância para a sobrevivência da cultura e religião negras. Por isso, reforça, é necessário que haja investimentos para que eles se tornem locais mais conhecidos pela população, respeitados e perpetuados.

“Quando falamos que é importante existir o terreiro de candomblé, um local como a Pedra de Xangô, o Dique do Tororó, a Pedra de Ogum e a Lagoa do Abaeté, nós estamos garantindo a perpetuação do culto, de nossas práticas, saberes e fazeres. Elevamos e colocamos para a sociedade que somos importantes culturalmente, financeiramente e economicamente na cidade. Falamos que existimos, estamos aqui e que precisamos ser preservados e valorizados”, aponta.

Dique 
Nem todos os espaços sagrados para as religiões de matriz africana ficam afastados do Centro da cidade. O Dique do Tororó é um bom exemplo disso. Ponto de passagem obrigatória para vários pontos da Soterópolis, é espaço sagrado para terreiros de vários bairros, como o próprio Tororó, Engenho Velho de Brotas e Engenho Velho da Federação. É o Dique também que abre os festejos a Iemanjá na madrugada do dia 2 de fevereiro. 

No dia 1º, o Dique ganha um outro preceito, o Xorodô, primeiro presente que se dá às águas. Esse presente é ofertado à Oxum, senhora das águas doces. Depois disso é que chega a hora de presentear Iemanjá.

Fieis transportados em barcos vão entregar presente a Oxum nas águas do Dique em dia de véspera de Iemanjá (Foto: Alexandre Lyrio/CORREIO)

Carlinhos Brown conta que passa pelo local em vários dias da semana, por conta do trânsito, e aproveita essas ocasiões cotidianas para saudar Oxum e os orixás, que são representados no Dique pelo xirê assinado pelo artista plástico Tatti Moreno. 

“O Dique do Tororó sempre esteve circundado pelas maiores forças, ou de tudo que motivou e impulsionou a cultura baiana. Diga-se de passagem, o Apaches do Tororó, que completou 52 anos na semana passada, foi dali que nasceram todos os blocos afros como o Ilê Ayê, o Muzenza e tantos outros. E foi ali que também emergiram as escolas de samba como Filhos do Tororó, Juventude do Garcia, e grupos afro-ameríndios como o Cacique, Tupi, Vai Levando e o Secos e Molhados, por exemplo. Ou seja: o Dique está circundado dessas forças, então ele é uma Catedral de Águas”, diz Brown.

Orixás do Dique foram inaugurado no fim dos anos 1990 (Foto: Mauro Akin Nassor/Arquivo CORREIO)

O historiador Rafael Dantas explica que a forte associação do Dique com o viés afro e as religiões de matrizes africanas passa a ser publicizado ao longo do século XX, principalmente após as reformas realizadas no espaço como a entrega das esculturas dos Orixás.

“Antes disso, as atividades do Dique eram especialmente para pesca, lavagem de roupa e também lugar para fazer as oferendas, algo semelhante ao que acontece na Lagoa do Abaeté, por exemplo”, explica Rafael Dantas.

O Dique tem um lugar especial no coração e na espiritualidade de Brown. Segundo o artista, foi dessa fonte que bebeu litros e mais litros de cultura baiana, religiosidade e tantos outros ensinamentos presentes nas águas do Dique.

Fonte: Correio